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Estado de Minas MOSTEIRO DE MACAÚBAS

Imagem de Nossa Senhora de Lourdes, do século 19, é recuperada em Santa Luzia


postado em 22/05/2011 07:46 / atualizado em 22/05/2011 07:54

Cela transformada em ateliê: a especialista Carla Silva trabalha na restauração da peça de origem francesa, sob o olhar devoto da abadessa madre Maria Imaculada de Jesus Hóstia (E) e da sua irmã, Maria Auxiliadora(foto: Beto Novaes/EM/D.A.Press)
Cela transformada em ateliê: a especialista Carla Silva trabalha na restauração da peça de origem francesa, sob o olhar devoto da abadessa madre Maria Imaculada de Jesus Hóstia (E) e da sua irmã, Maria Auxiliadora (foto: Beto Novaes/EM/D.A.Press)
 

O interior de silêncio, orações e recolhimento do Mosteiro de Macaúbas, de 1714, em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, está imerso, desde o início de abril, em uma movimentação diferente, que enche de alegria e orgulho as religiosas da Ordem da Imaculada Conceição. Vivendo em regime de clausura, o que significa limitadíssima relação com o mundo além das grossas portas de madeira, as irmãs aguardam, com natural ansiedade, o término da restauração da imagem de Nossa Senhora de Lourdes, de origem francesa, com 1,65 metro de altura e integrante do acervo local desde 1892. Para evitar que ela saísse do convento, a abadessa madre Maria Imaculada de Jesus Hóstia transformou uma das celas em ateliê e criou as condições necessárias ao trabalho. Quem vê o carinho das freiras diante da peça sacra fica certo de que, na hora de contratar o serviço de restauro, falou mais alto a vontade de ficar o tempo todo perto da santa, em vez de sentir saudade.

A luz da tarde entra pela janela e dá ainda mais brilho aos olhos azuis, de vidro, da escultura, que traz um manto da mesma cor, embora num tom mais claro, com detalhes dourados nas bordas. “É uma imagem muito bonita, em estilo neoclássico, esculpida em madeira europeia clara, semelhante ao pinho-de-riga. Uma curiosidade é que é dividida em duas, a partir da cintura”, conta a restauradora Carla Castro Silva, satisfeita pela oportunidade de trabalhar, pela primeira vez, num ambiente de clausura. “Estou hospedada aqui e notei que as irmãs têm um outro tempo, um ritmo bem diferente do nosso, nas grandes cidades. Acho que, nessa atmosfera de paz, meu rendimento é até maior.”

Coordenada pela Secretaria de Cultura de Santa Luzia e com recursos do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) Cultural, a restauração deverá ser concluída no fim do mês que vem. Em 2 de julho, o arcebispo metropolitano dom Walmor Oliveira de Azevedo fará a reentronização da imagem ao altar da capela-mor, onde todos os domingos, às 10h30, há missa com participação de um coral da região, aberta aos católicos. O ritual de retorno da imagem será o mesmo do fim do século 19, incluindo a coroação da santa, como fez, na época, o padre superior do Seminário de Mariana, João Baptista Carnagliotte. Brilho maior será em 17 de setembro, quando as irmãs concepcionistas vão comemorar o jubileu de 500 anos de aprovação, pelo papa Julio II (1443-1513), das regras que regem o comportamento da ordem, como espiritualidade e carisma.

Sempre por perto, conferindo os detalhes, a abadessa conta que, embora a congregação seja da Imaculada Conceição, a padroeira do convento é Nossa Senhora de Lourdes, que apareceu na França, em 1858, para Bernadette Soubirous, de 14 anos, que posteriormente foi canonizada. “Nossa Senhora é uma só, mas quando apareceu para a jovem disse: ‘Eu sou a Imaculada Conceição’”, explica. A imagem de Nossa Senhora de Lourdes, a quem as irmãs chamam de “mãe” ou “mãezinha”, foi a primeira a chegar a Minas.

Para conduzir o restauro, foi preciso autorização dos institutos do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e de Minas Gerais (Iepha/MG), já que o convento é tombado pela União (1963), estado (1978) e município (1990), com proteção específica da imagem (2009), como informa o historiador e funcionário da prefeitura Marco Aurélio Fonseca. Ele lembra que, nos últimos sete anos, 19 das 21 imagens tombadas na cidade foram restauradas com verba do ICMS Cultural. “Para nós, é muito importante preservar a obra de um monumento que faz parte da história do Brasil e foi um dos primeiros colégios femininos de Minas”, destaca Marco Aurélio.

Combate travado com inimigos silenciosos

Na cela-ateliê, a restauradora Carla Silva mostra os estragos que os cupins fizeram na madeira, com perdas consideráveis no suporte, principalmente na face, nas vestes, nas mãos e na base. “Havia muitos insetos vivos, por isso começamos com a desinfestação, passando depois para a consolidação da estrutura, fixação e reintegração da policromia e douramentos.” Nesse processo, uma descoberta chamou a atenção da especialista: “Encontramos uma pintura original, na faixa sobre a veste, no tom azul ultramar, que estava escondida por uma camada de tinta a óleo”.

Madre Maria Imaculada de Jesus Hóstia diz que, quando está no trono, a imagem de Nossa Senhora de Lourdes fica na mesma altura do coro, de onde as irmãs assistem às missas, separadas da comunidade católica pelas treliças brancas. “É como se ela olhasse diretamente para nós”, revela, com um sorriso. A abadessa lembra que três peças importantes da capela-mor, dos séculos 18 e 19, precisam de restauro urgente: o Sagrado Coração de Jesus, Nossa Senhora da Piedade e a primitiva imagem de Nossa Senhora da Conceição, que, temporariamente, ocupa o trono no altar-mor. “Necessitamos de recursos”, pede, com humildade.


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