Jornal Estado de Minas

Andarilhos saem do Centro e se espalham pela capital

Ernesto Braga Pedro Rocha Franco

Por toda a cidade, população convive com moradores de rua - Foto: Beto Novaes/EM/D.A Press - Arquivo

 

A expansão dos centros comerciais em regiões como a Pampulha, Barreiro e Venda Nova provocou a descentralização da população de rua de Belo HorizonteSegundo a gerente de Promoção e Proteção Especial da Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social, Maria Bordin, nos últimos anos o problema deixou de ser observado apenas no Centro da cidade"É comum observar muitos moradores de rua em outras regionaisCom o crescimento comercial, essas pessoas encontram muita movimentação e segurança, facilitando a sobrevivênciaPodemos dizer que houve uma redistribuição dessa parcela da população nos últimos anos."

Moradora há 40 anos do Bairro Santa Amélia, na Pampulha, a professora aposentada Maura Terezinha dos Santos Madeira disse que a aglomeração de moradores de rua na Praça Iron Marra, onde oito andarilhos foram vítimas de tentativa de envenenamento, se agravou nos últimos seis meses“Eles ficavam em um lote vago da Avenida Guarapari, mas vieram para a praça depois que o terreno foi cercadoPassam o dia todo bebendoSó encontramos garrafas de bebida alcoólica pelo chão, nada de comidaBrigam muito entre si, mas não são violentos com a genteNinguém merece a covardia que fizeram com eles”, disse“Os moradores de rua costuma dormir encostados na parede da padaria, onde fica o forno, aproveitando o calor e a marquise

Mas, quando a gente pede para saírem, fazem isso numa boa”, afirmou Matheus Henrique de Azevedo, gerente de uma panificadora

Outro ponto de aglomeração de moradores de rua na Pampulha é a Praça Santo Antônio, no Bairro Jaraguá“Eles sempre pedem coisas para a genteOs insultos são comuns no grupo, mas eles não procuram confusão com comerciantes e moradoresA prefeitura costuma vir e recolher todos os pertences dessas pessoas, que são levadas para abrigos, mas elas acabam voltando”, disse uma comerciante, que está na praça há 10 anos, mas não quis se identificar

triagem Antes de ser encaminhados aos abrigos, moradores de rua passam pelos centros de referênciaSão duas unidades, uma para crianças e adolescentes e a outra para adultos, onde podem guardar pertences, tomar banho e participar de oficinasA capital conta com quatro unidades para receber essa parcela da populaçãoDuas são destinadas apenas a pernoite e totalizam 550 vagasSão quartos com cama ou beliches, banheiros com chuveiro quente, refeitório, lavanderia, sala com televisão e auditório
Há ainda duas repúblicas, uma feminina e a outra masculina, com 40 vagas cada, gerenciadas pelos próprios moradores, além do abrigo Pompeia, na Região Leste, com 26 unidades habitacionais com sala, cozinha, quarto e banheiro para cada família retirada das ruas

Alta após Tratamento

Natural de Belém (PA), Zeílson Maciel dos Santos, de 29 anos, que já foi auxiliar de limpeza e servente de pedreiro, foi o primeiro dos oito moradores de rua envenenados a receber alta, nessa segunda-feiraEle contou que o grupo acordou por volta das 6h30 de domingo e que um dos integrantes viu uma garrafa jogada na grama“Éramos 10 pessoas, nove homens e uma mulherApenas dois não beberamNão podíamos imaginar que alguém tinha colocado veneno”, disse Zeílson, que começou a passar mal 10 minutos depoisAlém dele, dois moradores de rua tiveram alta hospitalar nessa segunda-feiraOs demais seguem internados em observação, mas sem risco de morte.