Jornal Estado de Minas

Pedagoga que luta contra vício do crack conta rotina de vida

Luciane Vidigal - Especial para o EM
Diário da pedagoga M.b.p., escrito nos 15 dias que ficou internada em um hospital para tirar a pedra de seu caminho

1º dia - Quarta-feira - 23/3/2011

Depois de esperar por quatro dias um leito neste hospital, estou na minha terceira internação por causa do crack
Antes de me internar, fui revistadaAqui, eles não nos deixam com cigarros e isqueiros, que ficam com as enfermeirasQuando pedimos, elas nos dãoDas outras vezes, vim por precauçãoAgora, é diferenteEstou aqui por causa da recaída, o que é piorDepois de tomar medicamentos para dormir, por volta das 21h, não consigo pregar o olho a noite inteiraAliás, tenho a sensação de estar vivendo a noite mais longa da minha vida.

2º dia - Quinta-feira - 24/3/2011

O remédio que tomei para dormir não dura muitoAcordei à 1h, tomei outro comprimido e, às 5h30, despertei depressivaNão consigo dormir muito, pois estava acostumada a simplesmente não dormir por causa do crack
Durante o dia, tive crises de choroLembrei-me do dia que meu filho me pediu para assistir ao futebol dele na escola e não fui por causa do tóxicoAté agora, não tive vontade de fumar a droga, mas sinto um vazio muito grande, tristeza e depressão profundaA cada hora me questiono como pude fumar 15 anos e ter sobrevividoQuando esses questionamentos vêm, arrependo-me de tudoPor que fiz isso? Até quando vai durar? O choro, segundo me disse hoje o psiquiatra, é comum no tratamento e as sensações ruins fazem parte da abstinênciaLi a minha história retratada no Estado de MinasPrimeiro, me assustei com a repercussão da minha exposição, mas muitos conhecidos elogiaram a minha coragem de se expor e aposto nisso: a gente tem que falar.


3º dia - sexta-feira - 25/3/2011

A noite aqui é longaComo há pacientes de todas as áreas psquiátricas, de esquizofrênicos a dependentes químicos, é comum ouvir muitos deles tendo crises e gritosAssim, o dia custa a chegar e, quando acordamos, a hora da visita de parentes e amigos, das 15h às 16h, é a mais esperada
Quando não vem ninguém é muito triste, parece que o vazio e tristeza aumentamHoje, ninguém veioChorei muito, mas ao mesmo tempo compreendo que todos trabalham e têm as suas coisasOntem, uma amiga veio me visitar, trouxe frutas, chocolates e outras guloseimasDividi tudo com as companheiras de quarto.

4º dia - sábado - 26/3/2011

Uma companheira de quarto, uma senhora com sérios problemas mentais, começou a roubar nossas coisasE me disse que: “Logo, logo, você vai sentir falta de alguma coisa!” Quando percebi, ela tinha levado minha escova de dentesComo meu quarto não tem porta, há tempos peço aos responsáveis para me mudar daqui e hoje conseguiOnde estou agora há uma vista linda da área verde do Parque Municipal Américo Renné GianettiOlhar da minha janela para ele me faz bem.

5º dia - domingo - 27/3/2011

Uma amiga trouxe livrosMas não tenho concentração para nadaLeio 10 páginas e tenho que voltar porque me percoÉ horrívelQuando vim para cá, trouxe na mala material para pinturaGosto de pintarMas nem isso consigo fazerHoje, fiquei mais triste porque é uma data especial para a minha famíliaHá uma festa na minha cidade, para comemorar as bodas de ouro de uma tiaTodos estão láQueria muito estar lá, mas estou aqui, longe de todos.

6º dia - segunda-feira - 28/3/2011

Por causa das minhas alterações de humor, há momentos que rio e outros que choroOs médicos hoje chegaram a desconfiar de que eu pudesse ser bipolarMudaram o medicamentoEles até me avisaram que se sentisse os pés inchados, deveria avisá-losNão senti nadaMas acho que estou melhorFiquei mais animada, mais aberta comigo e menos ansiosa.

7º dia - terça-feira - 29/3/2011

Mesmo com a nova medicação, ainda choro muitoEstou sensível e comecei a perceber o quanto é triste ver os pacientes esquecidos aqui, sem visitas de parentes nem amigosHá uma mulher que está internada há bastante tempo e ninguém vem vê-laA nossa maior força aqui dentro são as enfermeirasElas passam 24 horas conoscoSão carinhosas e atenciosas.

8º dia - quarta-feira - 30/3/2011

A cada dia penso menos na drogaHoje, voltei a autoaplicar o reiki (terapia com as mãos para equilíbrio natural)Ouvi música e liVoltei a pintar.

9º dia - quinta-feira - 31/3/2011

Todos os dias converso por telefone com a minha mãe e meus filhosIsso me dá muita forçaHoje, o meu caçula me disse, ao pedir desculpas a ele, que “sou perfeita e que não há nada de errado em mim”Mamãe disse que reza todas as noites para que eu volte a ser uma pessoa alegreIsso vindo de uma mãe é outra coisaEla tem razãoO crack não combina comigo, sempre fui animada, alegre e essa droga só me deixava para baixoNão dá para entender.

10º dia - sexta-feira - 1º/4/2011

Sou dependente de nicotina e chego a fumar cerca de dois maços por diaMas aqui tenho reparado que a vontade de fumar também diminuiuO antidepressivo ajuda nissoHoje, senti que o cigarro tinha gosto de felHorrívelQuero parar de fumar cigarros.

11º dia - sábado - 2/4/2011

Refleti sobre criar um grupo de ajuda a outras pessoasQuem sabe não começo a dar palestras em escolas? Sei lá, quero ajudar alguémComecei a escrever um plano para issoAqui a gente tem que arrumar algo para fazerO tédio é complicado, você não tem uma terapia ocupacional e os dias parecem iguaisEssa internação nos faz refletirChego à conclusão de que, quando uso o crack, não sou eu que faço issoÉ outra pessoaPor isso, decidi que quando sair daqui vou procurar um psiquiatra para fazer uma regressão.


12º dia - domingo - 3/4/2011

A assistente social veio aqui saber para onde vou quando receber altaContei que quero me internar numa fazenda, perto da minha cidadeO médico sugere uma licença de, no mínimo, dois meses do meu trabalhoSegundo ele, tenho que me isolarTambém acho, mas não quero estipular um tempoSerá até quando me sentir melhor.

13º dia - segunda-feira - 4/4/2011

Hoje bateu a insegurançaFaltam poucos dias para receber alta e há uma série de perguntas a me perturbarA pior delas é: o que me espera lá fora? Foram dias que me pareceram eternos, em que me senti prisioneiraO meu medo de sair é a cobrança das pessoasNão é com a recaída, não quero nunca mais ver o crack, mas sei que muitos vão me cobrar uma série de coisas e não quero isso.

14º dia - terça-feira - 5/4/2011

Este foi o pior dia da minha vidaNão dormi nadaFiquei o dia todo com as malas prontas e uma ansiedade danada, que se mistura com o medoAqui a gente sente o tédio, vontade de sair, mas quando chega o dia há o receio do “lá fora”Aqui dentro me distraíAlguém trouxe máquina fotográfica e tiramos fotos com as companheiras de quarto e enfermeiras.


15º dia - quarta-feira - 6/4/2011

Acordei cedo e, às 10h, me despedi dos amigos que fizOs 15 dias valeramA enfermeira-chefe fez questão de me acompanhar até a portariaSaí com a certeza de que, ali, por esse motivo, eu não voltoAmanhã (hoje) quero ir ao hospital visitar as meninasDepois, na sexta-feira, vou ao psicólogo e, no sábado, faço mais um curso de reikiNo domingo, voltarei à minha terraEstou com uma saudade danada de láQuero tomar as rédeas da minha vida, dos meus filhos, da minha casaMas crack, nunca mais!

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