1º dia - Quarta-feira - 23/3/2011
Depois de esperar por quatro dias um leito neste hospital, estou na minha terceira internação por causa do crack
2º dia - Quinta-feira - 24/3/2011
O remédio que tomei para dormir não dura muitoAcordei à 1h, tomei outro comprimido e, às 5h30, despertei depressivaNão consigo dormir muito, pois estava acostumada a simplesmente não dormir por causa do crack
3º dia - sexta-feira - 25/3/2011
A noite aqui é longaComo há pacientes de todas as áreas psquiátricas, de esquizofrênicos a dependentes químicos, é comum ouvir muitos deles tendo crises e gritosAssim, o dia custa a chegar e, quando acordamos, a hora da visita de parentes e amigos, das 15h às 16h, é a mais esperada
4º dia - sábado - 26/3/2011
Uma companheira de quarto, uma senhora com sérios problemas mentais, começou a roubar nossas coisasE me disse que: “Logo, logo, você vai sentir falta de alguma coisa!” Quando percebi, ela tinha levado minha escova de dentesComo meu quarto não tem porta, há tempos peço aos responsáveis para me mudar daqui e hoje conseguiOnde estou agora há uma vista linda da área verde do Parque Municipal Américo Renné GianettiOlhar da minha janela para ele me faz bem.
5º dia - domingo - 27/3/2011
Uma amiga trouxe livrosMas não tenho concentração para nadaLeio 10 páginas e tenho que voltar porque me percoÉ horrívelQuando vim para cá, trouxe na mala material para pinturaGosto de pintarMas nem isso consigo fazerHoje, fiquei mais triste porque é uma data especial para a minha famíliaHá uma festa na minha cidade, para comemorar as bodas de ouro de uma tiaTodos estão láQueria muito estar lá, mas estou aqui, longe de todos.
6º dia - segunda-feira - 28/3/2011
Por causa das minhas alterações de humor, há momentos que rio e outros que choroOs médicos hoje chegaram a desconfiar de que eu pudesse ser bipolarMudaram o medicamentoEles até me avisaram que se sentisse os pés inchados, deveria avisá-losNão senti nadaMas acho que estou melhorFiquei mais animada, mais aberta comigo e menos ansiosa.
7º dia - terça-feira - 29/3/2011
Mesmo com a nova medicação, ainda choro muitoEstou sensível e comecei a perceber o quanto é triste ver os pacientes esquecidos aqui, sem visitas de parentes nem amigosHá uma mulher que está internada há bastante tempo e ninguém vem vê-laA nossa maior força aqui dentro são as enfermeirasElas passam 24 horas conoscoSão carinhosas e atenciosas.
8º dia - quarta-feira - 30/3/2011
A cada dia penso menos na drogaHoje, voltei a autoaplicar o reiki (terapia com as mãos para equilíbrio natural)Ouvi música e liVoltei a pintar.
9º dia - quinta-feira - 31/3/2011
Todos os dias converso por telefone com a minha mãe e meus filhosIsso me dá muita forçaHoje, o meu caçula me disse, ao pedir desculpas a ele, que “sou perfeita e que não há nada de errado em mim”Mamãe disse que reza todas as noites para que eu volte a ser uma pessoa alegreIsso vindo de uma mãe é outra coisaEla tem razãoO crack não combina comigo, sempre fui animada, alegre e essa droga só me deixava para baixoNão dá para entender.
10º dia - sexta-feira - 1º/4/2011
Sou dependente de nicotina e chego a fumar cerca de dois maços por diaMas aqui tenho reparado que a vontade de fumar também diminuiuO antidepressivo ajuda nissoHoje, senti que o cigarro tinha gosto de felHorrívelQuero parar de fumar cigarros.
11º dia - sábado - 2/4/2011
Refleti sobre criar um grupo de ajuda a outras pessoasQuem sabe não começo a dar palestras em escolas? Sei lá, quero ajudar alguémComecei a escrever um plano para issoAqui a gente tem que arrumar algo para fazerO tédio é complicado, você não tem uma terapia ocupacional e os dias parecem iguaisEssa internação nos faz refletirChego à conclusão de que, quando uso o crack, não sou eu que faço issoÉ outra pessoaPor isso, decidi que quando sair daqui vou procurar um psiquiatra para fazer uma regressão.
12º dia - domingo - 3/4/2011
A assistente social veio aqui saber para onde vou quando receber altaContei que quero me internar numa fazenda, perto da minha cidadeO médico sugere uma licença de, no mínimo, dois meses do meu trabalhoSegundo ele, tenho que me isolarTambém acho, mas não quero estipular um tempoSerá até quando me sentir melhor.
13º dia - segunda-feira - 4/4/2011
Hoje bateu a insegurançaFaltam poucos dias para receber alta e há uma série de perguntas a me perturbarA pior delas é: o que me espera lá fora? Foram dias que me pareceram eternos, em que me senti prisioneiraO meu medo de sair é a cobrança das pessoasNão é com a recaída, não quero nunca mais ver o crack, mas sei que muitos vão me cobrar uma série de coisas e não quero isso.
14º dia - terça-feira - 5/4/2011
Este foi o pior dia da minha vidaNão dormi nadaFiquei o dia todo com as malas prontas e uma ansiedade danada, que se mistura com o medoAqui a gente sente o tédio, vontade de sair, mas quando chega o dia há o receio do “lá fora”Aqui dentro me distraíAlguém trouxe máquina fotográfica e tiramos fotos com as companheiras de quarto e enfermeiras.
15º dia - quarta-feira - 6/4/2011
Acordei cedo e, às 10h, me despedi dos amigos que fizOs 15 dias valeramA enfermeira-chefe fez questão de me acompanhar até a portariaSaí com a certeza de que, ali, por esse motivo, eu não voltoAmanhã (hoje) quero ir ao hospital visitar as meninasDepois, na sexta-feira, vou ao psicólogo e, no sábado, faço mais um curso de reikiNo domingo, voltarei à minha terraEstou com uma saudade danada de láQuero tomar as rédeas da minha vida, dos meus filhos, da minha casaMas crack, nunca mais!
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