Jornal Estado de Minas

Gerente de pousada garante que lareiras são vistoriadas periodicamente

Pedro Rocha Franco

Depois dos trabalhos iniciais, peritos da Polícia Civil voltaram para examinar chalé onde ocorreram mortes e recolher restos de lenha e cinzas - Foto: Cristina Horta/EM/D.A Press

A divulgação do laudo que revela alta concentração de monóxido de carbono no sangue dos namorados Gustavo Lage Caldeira Ribeiro, de 23 anos, e Alessandra Paolinelli de Barros, de 22, encontrados mortos na quinta-feira na pousada Estalagem do Mirante, coincidiu com a mudança de postura da direção do estabelecimento ao tratar do assuntoAntes avessa à presença de repórteres nos chalés, a direção decidiu permitir a entrada da imprensa em aposentos idênticos aos usados pelas vítimas, mantendo isolado somente o ambiente onde foram encontrados mortos os universitários.

O atestado que sugere a intoxicação como possível causa das mortes é uma das peças-chave para desvendar o mistérioDiante dele, a direção da Estalagem, situada na Serra da Moeda, em Brumadinho, na Grande BH, decidiu abrir suas dependências, embora tenha proibido filmagem e fotografias“Não temos nada a esconderA vontade é esclarecer a verdade e a pousada se coloca à disposição para qualquer tipo de dúvida”, afirma o gerente noturno, Raimundo Jacinto, ressaltando que a causa da morte ainda não foi determinada e que faltam perícias para confirmar a suspeita.

A Polícia Civil trabalhava com as hipóteses de homicídio e suicídio, mas elas foram logo descartadas pelo laudo de necropsia, na quinta-feiraNo dia seguinte, peritos retornaram à estalagem para avaliar o funcionamento da lareira, de onde recolheram cinzas e parte da lenha, para análise técnica no Instituto de CriminalísticaExames nos corpos indicaram a presença de carboxihemoglobina no sangue, em níveis superiores a 60% nos dois organismos.

Uma das possibilidades é de que as mortes tenham ocorrido devido às condições em que a lareira foi usadaNum ambiente fechado, o casal teria ido se deitar, aproveitando o aquecimentoCom a chalé fechado, o gás teria se acumulado, ao mesmo tempo em que o oxigênio não era renovado“A obstrução da chaminé pode ter impedido a saída dos gasesVentos contrários também podem ter interferido na exaustão”, afirma o ex-diretor do Departamento de Medicina Legal da Unicamp Fortunato Badan Palhares.

Em manual de instruções apresentado pela direção da pousada, que estaria disponível em todos os chalés, é descrito um passo a passo para uso da lareira, com garantia de que testes periódicos em condições adversas garantiriam seu perfeito funcionamento

Na linha seguinte, um alerta em letras destacadas diz que é necessário “manter as chamas acesas e/ou um volume de brasas cujo calor produzido seja suficiente para que a fumaça suba pelo duto da chaminé”E a série de recomendações acrescenta que “em dias de ventos fortes, todos esses cuidados são ainda mais importantes”.

O gerente argumenta que a pousada, em oito anos de funcionamento, com média mensal de 250 hóspedes, sempre manteve o manual à disposição e nunca teve problemas com as lareirasAs duas suítes mais requintadas são equipadas com instalações a gás, enquanto as outras 14 têm lareira a lenha, caso dos aposentos em que estavam os universitários“A lareira é um dos atrativosNunca imaginava que uma fatalidade pudesse acontecer”, disse o funcionário, ressaltando que periodicamente uma equipe de manutenção faz revisão do sistema e que as camareiras são instruídas a verificar a condição das lareiras a cada vistoria.