Jornal Estado de Minas
Dia especial

Mães de coração

 
A arquiteta e designer de interiores Gislene Lopes teve uma menopausa precoce aos 36 anos. Chegou a pensar em guardar seus óvulos, mas na época namorava firme uma pessoa que já tinha três filhos e fez com que ela tirasse essa ideia da cabeça, pois ele não queria ter outro filho e dizia que seus filhos já eram dela também. E na época só se fazia isso se a pessoa fosse casada e se tivesse concordância do marido.
 
 
 
Depois de cinco anos, o relacionamento acabou. Alguns anos depois, Gislene conheceu o atual marido, Guilherme, com quem já está há 17 anos. Casou-se aos 45 anos e, em seguida, veio a cobrança por um filho, mas nunca pensou em fazer fertilização in vitro. As sugestões foram inúmeras, inclusive pedir à sua mãe e até a irmã para gestarem o óvulo fertilizado. Mas Gislene não queria. Muito temente a Deus, colocou em Suas mãos a solução do problema.
Se Ele deu a menopausa precoce para ela, algum plano Ele tinha para ela e por isso a decisão de como ela seria mãe cabia a Ele. Porém, antes disso ela decidiu fazer arquitetura.
 
“Tudo na minha vida eu coloco nas mãos de Deus. Quando pensei em fazer esse segundo curso de arquitetura, falei com Ele como seria perder uma manhã inteira, por alguns anos, mas teria que conseguir obtenção de novo título. No mesmo dia, conheci um professor da Fumec que abriu todas as portas para mim, mesmo depois dos prazos fechados e das aulas já terem começado há 20 dias”, relembra.
 
Certa vez, Marina Patrus, grande amiga de Gislene, disse firmemente que ela não queria de fato ter filho se não tomaria alguma atitude. “Orar, sem atitude não adianta nada, Deus não vai colocar o filho no seu colo”, disse. Depois disso Gislene procurou uma advogada da área para começar o processo de adoção, decisão que já tinha sido tomada de comum acordo pelo casal. Depois de avaliações, entrevistas, certidões negativas foram aprovados e entraram para a fila.
A vontade de ter um filho era tão grande que, desde que compraram o apartamento, fizeram a reforma criando uma suíte para o filho ou filha que teriam.
 
Quando preencheram a ficha, não escolheram sexo. Definiram que, caso fosse parto duplo, ficariam com os dois bebês e disseram que queriam uma criança parda, não por preconceito, mas pelo fato de Guilherme ser muito estourado e não conseguir se controlar se alguém fizesse um comentário racista sobre o filho, em sua presença.
 
Depois de aprovados, toda a vez que o telefone fixo tocava, o coração de Gislene disparava, pensando que era notícia da Vara Infantil. Em junho de 2015, Gislene começou a sentir que algo estava para acontecer. “Foi como se eu tivesse uma crise de ansiedade. Fiz vários exames e nunca deu nada. Lucas nasceu em 29 de setembro de 2015. Acho que era algo que me avisava. Esse foi o ano da crise.
Em março de 2016, a filha do Guilherme, Bruna, estava fazendo intercâmbio e ele programou de irmos buscá-la e depois irmos à Feira de Milão. Mas meu coração pedia para eu não ir.
 
Ele não entendeu. Fiquei e, cinco dias depois de ele ter viajado, recebi o telefonema de que tinha uma criança de seis meses, que poderia ser nossa, caso aceitássemos. O bebe tinha nascido com sífilis congênita, mas já estava tratado com penicilina cristalina na veia. Já havia feito dois exames de sangue com resultado negativo e foi considerado curado pelos médicos. Só faltava mais um exame para prova definitiva”, com Gislene.
 
Ela queria muito, ligou para o marido, mas ficou preocupada com a doença. Ligou para vários médicos e para uma geneticista. Esse último telefonema a acalmou. Porque a profissional disse que a criança estava curada, mas que ela, a profissional, a adotaria com ou sem doença, independentemente do que fosse. Gislene deu a resposta positiva e teve que segurar a ansiedade até o marido retornar da viagem para, juntos, irem conhecer o filho.
“Quando a moça do abrigo veio com ele, meu coração disparou, o amor que já tinha no meu coração aumentou ainda mais. Guilherme diz que sentiu a mesma coisa de quando viu a sua filha na maternidade. O sentimento é o mesmo, é um amor incondicional”, descreve.
 
No dia em que buscaram Lucas, teve almoço para a família. Essa foi a primeira de muitas festas que viriam para celebrar a alegria da chegada do filho tão esperado. Hoje, Lucas está com sete anos e, de forma inexplicável, é a cara de Gislene quando era pequena.
 
Juliana Fernandes Godinho e os filhos - Foto: Edesio Ferreira/EM/D.A. Press 
 
Além do programado 
 
Juliana Fernandes Godinho e William Bianchetti são casados há 10 anos. Depois de um tempo, começaram a tentar ter filhos, mas não conseguiam. Os exames acusaram infertilidade sem causa aparente. Nenhum dos dois tinha e nem tem nenhum problema. Como estavam demorando muito a engravidar e a idade estava chegando, decidiram fazer fertilização in vitro. Fizeram três (2017, 2018 e 2021), sempre com três embriões, e nenhuma delas deu certo.
“Todas foram malsucedidas. Impressionante como o número três sempre esteve presente nessa história”, destaca.
 
 
 
Depois de tudo isso, o casal conversou muito e decidiu adotar. Em 2019, entraram na fila de adoção. “É um processo extremamente burocrático e demorado. Da decisão até a aprovação e escolha do perfil, foram dois anos. Para toda essa demora, eles alegam falta de pessoal na equipe para acelerar processo. É demorado, mas entendemos que toda a burocracia deve ser feita para segurança das crianças”, conta Juliana.
 
No fim de 2020, foram aprovados e passaram a aguardar a tão esperada ligação. Desde 2017, Juliana segue nas redes sociais perfis de pessoas que adotaram crianças, principalmente crianças maiores, o que é chamado de adoção tardia. “Em 2017, foi liberado o Sistema de Cadastro Nacional de Adoção, que é uma busca ativa de crianças em todo o país. Alguns abrigos fornecem dados de crianças que estão fora do perfil, para ajudar a agilizar o processo de adoção, porque a fila é muito longa, principalmente para crianças acima dos seis anos. É muito difícil casais quererem adotar crianças maiores, por medo da grande bagagem emocional que trazem, o que pode dar muito trabalho.”
Realmente, este não era o perfil da criança que Juliana e William queriam. Quando preencheram a ficha, pediram bebê, aceitavam parto múltiplo, não se importavam com o sexo. Com o passar do tempo, o casal abriu a cabeça para grupo de irmãos, mas não buscou por isso na busca ativa. Mas, quando as coisas têm que acontecer, acontecem.
 
“Tenho uma irmã que é médica e foi para um congresso, onde encontrou uma amiga do interior de Minas. Essa colega contou que em sua cidade tinha um abrigo com uma criança de dois anos, porém ela tinha dois irmãos e, por ter um vínculo forte entre eles, o juiz só permitia adotar os três. Contei para o meu marido. Ele não disse nada e foi tomar banho. Veja como Deus faz as coisas. Já estávamos com uma viagem programada para daí a 10 dias, para uma cidade perto de onde as crianças estavam. Era a festa de formatura de uma prima. Quando ele saiu do banho, conversamos e então decidimos ir para ver as crianças”, conta. “Se não estivesse nos planos fazer a viagem, não iríamos, porque era bem longe. Tudo contribuiu, era Deus mandando ir conhecer as crianças.”
Foram e conheceram os meninos. “Foi uma ligação de alma. Não existe o clique de paixão à primeira vista, mas o sentimento começou a acontecer ali. É um achar que daríamos conta. Ficamos dois dias com eles. Decidimos que adotaríamos os três. Arrumamos uma advogada na cidade. Conhecemos as crianças no dia 8 de julho. Por ser interior, ela conseguiu audiência com o promotor no dia 20 de julho e no dia 28 foi marcada a audiência. Conversamos muito com a assistente social, com a psicóloga do abrigo e com as crianças por vídeo chamada nesses vinte dias”, relata.
 
O fato de já estarem na fila de adoção contou a favor. Juliana diz que o promotor foi muito duro. “Se tivéssemos um pingo de dúvida, deixaríamos os meninos”. Isso é necessário porque alguns casais devolvem as crianças depois um tempo, geralmente por idealizarem muito o filho adotivo. “O promotor está no papel dele de colocar todas as ressalvas.”
“Ele levanta, inclusive, questões pesadas como o trabalho que as crianças poderão dar, porque ‘o sangue puxa’. Contou histórias horrorosas. Depois de tudo, virou para meu marido e disse que ele perderia a esposa porque eu passaria a ser dos filhos. Ele respondeu na maior tranquilidade que já tinha me perdido por um tempo nas três fertilizações. Porque o processo de fertilização é muito pesado, mexe muito com a gente”, explica.
 
O juiz atendeu de primeira e concedeu a guarda provisória. No dia seguinte, eles trouxeram as crianças para casa: M.V., de dois anos, Y., de seis (agora com sete) e I., de 10, (agora com 11).
Perguntada sobre o medo dos problemas que as crianças maiores poderiam trazer, Juliana afirma com convicção que nunca teve essa preocupação. Para ela a criança é um livro em branco, que vai se formando com a educação e criação que recebe com amor, afeto e limites.
 
“Claro que os mais velhos têm uma história, mas conseguiram virar a página muito rápido. Eles sentiram o amor e o cuidado. Não tinham noção de família, não sabiam se sentar juntos na mesa para almoçar, tomar café da manhã. O mais velho não queria se sentar para almoçar, só queria comer bobagem. Não queria se alimentar na refeição. Foi preciso ter um pouco de firmeza para ele entender os hábitos. E aos poucos ele percebeu o que era família. Fomos impondo limites”.
 
A primeira preocupação de Juliana foi com a saúde. Assim que chegou a Belo Horizonte com as crianças, levou-as no pediatra e fez exames. Todos estavam com baixa de ferro e com problemas dentários. O mais difícil foi mudar os hábitos alimentares e de higiene básica. Em uma semana, as crianças já chamavam Juliana e William de mamãe e papai. A vontade de pertencimento era muito grande por ambas as partes. Certa vez, perguntaram se eles queriam ter nascido da barriga da mamãe Juliana, os dois falaram que sim, e o do meio disse que nasceu. Em 10 meses, a chave virou. Foi mais fácil para as crianças. Como diz Juliana, “foi uma loucura feliz”.
 
O casal conseguiu uma grande rede de apoio. O Colégio Arnaldo, no Anchieta, onde as crianças estudam, deu um grande desconto e muitos amigos presentearam com roupas e brinquedos. “As pessoas acham que estamos fazendo uma grande caridade para os meninos, mas não é. Este pensamento é errado. Eles preencheram nossa vida. Eles fazem mais bem para nós do que nós para eles. Adoção é uma coisa prazerosa, dá realização para os pais. Tem todos os percalços da maternidade e as alegrias, que apagam todos os problemas”, diz.
 
Segundo a mãe, as crianças são muito sociáveis, fizeram amizades rápido, tanto no colégio como na família. Têm um carinho muito grande com as avós. São muito doces e amorosos, precisam do carinho físico, de beijo e abraço. A menina só dorme no colo de Juliana, com a mão em seu peito. “Acredito que eles acionaram o ‘modo sobrevivência’, não querem lembrar dos momentos ruins. Deve doer tanto neles que não querem lembrar, vivem no automático. Quando conversamos, de vez em quando eles trazem algumas memórias e vamos ressignificando aquilo que eles passam.”
 
Como as crianças ainda estão em guarda provisória, não citamos os nomes e nem mostramos os rostos. 
 
José, Bernardo, Ângela e Bruno Teixeira - Foto: Arquivo pessoal 
 
Adoção e gravidez
 
A contadora aposentada Ângela Teixeira tinha 16 anos de casada com o engenheiro civil e empresário José Teixeira quando decidiu adotar. Já tinham tentado todos os tipos de tratamento, sem nenhum resultado. Um mês e meio depois da chegada de Bernardo, ela descobriu que estava grávida e, com11 meses e 11 dias de diferença, nasceu Bruno.
 
n  Ângela Teixeira 
 
Hoje, os filhos já são homens-feitos. Bernardo tem 25 anos e Bruno, 24. São amigos. Na época, o processo de adoção era mais rápido, porque eram várias assistentes sociais e cada uma tinha sua fila no Juizado de Menores. Cada casal tinha sua assistente. “Entrei na fila em Belo Horizonte e a criança saiu em São Paulo. Dei a diretriz do que queria, se queria gêmeo, qual idade. Na verdade não escolhei nada, só falei que, caso fosse parto múltiplo, ficaria com todos”.
 
Parece mentira, mas foram nove meses de espera de quando Ângela entrou na fila de adoção até o dia em que buscou Bernardo. Uma gestação. O sentimento que teve quando recebeu a notícia foi mais prático. Veio a pergunta: E agora?
 
“O difícil é resolver que vai adotar. Depois é tudo tranquilo. Quando recebi a notícia, fui olhar as coisas práticas. Liguei para o pediatra, que já sabia que eu adotaria, e ele disse o que precisava comprar e fazer para buscar o bebê. Mas, quando eu vi o meu filho, foi só amor. Como eu tive as duas experiências, posso afirmar que o sentimento é o mesmo. Ele é seu, nasceu. Deus me deu, agora é comigo, e foi assim com os dois. Você já mata e morre pelos dois”, conta.
 
Ela ressalta que, quando resolve que vai adotar, a mãe já começa a gestar. E, quando a mulher fica grávida, já adota. “Se a mãe não adota a criança que está esperando, quem vai criar é a babá”, diz.
Para ela, o mais difícil de quebrar é a ilusão de que ele não vem da sua barriga, que não vem com seus genes. Como foi gestado, se teve drogas. Mas ela afirma que nunca teve medo da personalidade e do temperamento, porque para ela criança é um papel em branco. “Sabia que, se eu criasse, seria uma boa pessoa. Nós escrevemos a história”.
 
Ângela sempre contou para Bernardo, desde pequeno, que ele era filho do coração. Contava história, citava exemplos. Ele nunca teve problema com isso e nunca teve ciúme entre os irmãos pelo fato de um ser natural e o outro não. Foram criados muito junto, por causa da proximidade de idade, e isso foi uma benção para a família.
 
“Quando fiquei sabendo que estava grávida, foi um turbilhão de sentimentos, mais difícil que o primeiro. Comecei a chorar. Não sei descrever o sentimento. Eram dois bebês em momentos diferentes, foram dois anos que saí do ar, parei minha vida para cuidar deles. Eu tinha esse instinto e queria ser mãe. Quando entraram na escolinha, com dois anos e 8 meses, voltei a atuar na profissão – era contadora perita – mas passei a trabalhar em casa. Não foi fácil, mas foi prazeroso. O apoio da família e a segurança que eles deram para o Bernardo foi fundamental. Nossas duas famílias foram maravilhosas.” 
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