Se para o homem a calvície já é um problema difícil de digerir, imagine para a mulher, para quem o cabelo é a moldura do rosto. Na última década, houve um aumento dos casos de mulheres carecas, e isso vem aumentando cada vez mais, e disparou durante a pandemia.
Nos homens, a careca é mais localizada no alto da cabeça e nas laterais e nuca, geralmente o cabelo se mantém, oferecendo um cenário favorável para implante. Nas mulheres, porém, a falta dos fios é difusa, abrangendo praticamente toda a região do couro cabeludo, o que torna esta alternativa de recomposição quase impossível.
Procuramos a dermatologista e tricologista Marcela Mattos Simões para entender por que isso tem ocorrido, até quando a perda diária de fios é normal, quando devemos nos preocupar, e quando procurar um médico especialista, ou seja, um dermatologista tricologista. A tricologia é a área da dermatologia que estuda os fios de cabelo, o couro cabeludo e os pelos. Abrange o diagnóstico e tratamento dos distúrbios que afetam essas estruturas, como queda e quebra dos fios, inflamações, infecções e doenças do couro cabeludo.
fases do cabelo Segundo a especialista, o ciclo capilar tem três fases principais: a de crescimento (na qual o fio pode permanecer anos), a estacionária (que dura semanas), e a de queda. É normal os fios terem uma queda em um percentual de 10%. “Não falamos em números absolutos porque cada pessoa tem um volume de cabelo diferente. Não posso comparar o volume do meu cabelo com o da Elba Ramalho, por exemplo. Por isso falamos que a perda é de cerca de 100 fios/dia, tomando como base que temos 100 mil fios de cabelo”, explica. Cada fio pode estar em uma fase diferente, não há sincronização, e é essa diferença de estágios que faz com que não se vejam falhas pontuais na cabeça, porque fica difuso ao longo de todo o couro cabeludo. Assim, a conta fecha.”
Cada pessoa conhece seu padrão de perda diária pela rotina e o volume de seus cabelos. Quando começamos a perceber um aumento de perda fora do habitual, é preciso ficar alerta. “Cada um conhece seu padrão de perda diária. Quando percebemos que os cabelos caem mais que o normal, passamos a sentir fios desprendendo ao longo do dia e encostando na pele, fios ficando presos na roupa, no travesseiro, ou seja, muito mais fios que o padrão habitual, aí sim consideramos queda”, diz Marcela, esclarecendo que ainda não precisa, necessariamente, de procurar o médico.
fatores de perda De acordo com a tricologista, podemos ter episódios pontuais de queda autolimitados mediante estímulos variados. No caso da mulher, por exemplo, o ciclo menstrual seria um gatilho, pois durante o fluxo menstrual o ferro sérico cai e vai recrutar o estoque de ferro do organismo; então, a mulher pode ter ao longo do mês uma leve oscilação de queda maior que o normal por conta dessa perda de ferritina. Outro gatilho seriam momentos de estresse pontuais que provocam a descarga de mediadores inflamatório neurotransmissores e o famoso cortisol. Tudo isso vai gerar um acelerar da fase de crescimento, pulando para a fase de queda.
“Isso, necessariamente, não é um problema, pois pode ser um episódio totalmente autolimitado. Torna-se preocupante quando a queda se prolonga por vários meses, ou se a pessoa observa uma falha pontual, vê no couro cabeludo um espaço significativo sem nenhum fio, ou sente uma coceira exacerbada, ou alguma lesão, como por exemplo bolinhas como se fossem espinhas, que seria uma foliculite. Aí, sim, é preciso procurar um dermatologista especializado em cabelos, porque precisará de tratamentos específicos”, esclarece.
A médica dá uma dica para mensurar se o volume global de cabelo está diminuindo: “Faça um rabo de cavalo bem alto com as mãos; segure-o bem rente ao couro cabeludo, e sentirá se continua com o mesmo volume de cabelo. Outra coisa importante é ver se o cabelo está caindo ou quebrando; para isso, é preciso ver se em uma das extremidades do fio que caiu tem uma bolinha branca. Trata-se da bainha radicular intern. Se tem, é queda; se não, o fio apenas quebrou.”
ALOPECIA Nos referimos à alopecia para qualquer forma de mudança na dinâmica de crescimento dos fios. Alopecia não quer dizer a ausência de fios, a perda definitiva, é simplesmente perder cabelos. Dentro das alopecias temos dois grandes grupos: as cicatriciais e as não cicatriciais. A queda de cabelo está dentro das alopecias não cicatriciais; o afinamento genético feminino, que é o equivalente da calvície masculina na mulher, está dentro das não cicatriciais. Temos também algumas alopecias por condições autoimunes tipo lúpus, líquen plano, algumas foliculites que resultam em fechamento definitivo dos fios, quando substitui uma unidade folicular regular por uma unidade pilo sebácea e, naquele ponto, troca a estrutura por uma cicatriz, por um colágeno de uma estrutura diferente que lembra realmente uma cicatriz, e o folículo não está mais viável. Temos a queda diária, a esporádica e a crônica. A queda crônica já está incluída no grupo das alopecias não cicatriciais.
Quando falamos de calvície feminina estamos diante de um tipo de alopecia areata, que causa falha local, como se fosse uma plaquinha sem cabelo, que é um tipo de alopecia não cicatricial possível de reversão. Acredito que o estigma ficou daquela coisa assim: calvície, falha, ausência de cabelo, rarefação extrema, mas até uma queda discreta crônica entra dentro do quadro de alopecia.
“Eu sempre brinco que queda de cabelo tem nome e sobrenome. Tem que falar ‘queda por isso’. Quando alguém chega no meu consultório e diz ‘eu tenho queda crônica’, ok, mas não existe queda crônica de causa desconhecida, da mesma forma que a alopecia areata – que a do tipo da esposa do Will Smith –, tem uma causa, a dela é uma doença autoimune, é genética. Não foi o estresse que causou, tem um gene, mas pode ser que alguma circunstância estressante tornou a coisa visível. E apesar de ser genética, tem tratamento. Se não tratar, fica sem cabelo; se tratar, pode parar a progressão e melhorar bastante. É um cabo de guerra, quem puxar mais forte ganha. Se você deixar a genética puxar e não fizer nada, ela vai ganhar.”
“O eflúvio, que é a queda, se for causado por baixa da vitamina D pode ser recuperado e acabar com o problema se suplementar a vitamina D, mas o paciente terá que manter o nível da vitamina em alta, para sempre. Se o problema for pontual, combatemos a causa e é vida que segue; porém, se for genético, é tratamento para o resto da vida.”
O fundamento do tratamento capilar é prolongar as fases do fio. Quando há perda, elas estão encurtadas, os fios estão passando prematuramente da fase de crescimento para a fase de queda. O que a dermatologista faz é dar um “resset” no processo para começar tudo de novo. “Vamos pegar os fios 'doentes', jogar fora e começar um ciclo capilar novo, adequado, mantendo o fio novo saudável por um tempo maior na fase de crescimento.”
Quando o problema já está avançado é fundamental procurar o tricologista, e não adianta desesperar e querer partir para implante ou transplante capilar. É preciso ter calma para tratar. Marcela Mattos tem um aparelho que faz um exame digital de todo o couro cabeludo por meio de uma lupa que aumenta em 100 vezes a imagem, e é acompanhado pelo paciente por uma tela. Ali é possível ver a realidade da situação. Nese exame, a médica vê todas as unidades sebáceas e se dentro de cada uma tem uma glândula de onde saem os fios. Para quem tem muito volume de cabelo pode ter até de 4 a 5 fios em um mesmo orifício, mas o normal são três fios. Quando tem queda, existe apenas um ou nenhum fio em muitos orifícios. Isso não é uma impossibilidade de tratamento, apenas significa que está com contagem de fios reduzida, e existe uma maneira de estimular para voltar a nascer mais cabelo. Quando não tem mais fio nenhum e ainda é não cicatricial, mas mostra alguma atividade, é possível tentar ativar e recrutar o processo de formação de fio, mas não é garantido.
Nos casos cicatrizados, não é possível recuperar os fios. E em alguns casos nem o transplante é garantido. “Tem condições autoimunes que, se transplantamos em pontos cicatriciais e a paciente tem, em volta, uma condição inflamatória ativa, podemos gerar a perda do transplante e do cabelo que está sob a inflamação”, explica.
além dos hormonios No homem, a calvície está ligada ao hormônio masculino. E na mulher? “Mulher sempre dá um jeitinho de ser estranha. Temos que ser diferentes em tudo. Tem várias coisas associadas, a ferritina, que já citei, o estresse, questões hormonais próprias, ou seja, uma doença dentro de outra doença. Temos uma categoria diferente de apresentação de alopecia androgenética que não é igual à do homem. E ainda faltam muitos dados, o que dificulta a cura, de certo modo, porque tem multifatores, somos mais complexas. Nosso estilo de vida é outro fator. Queimou sutiã, lascou. Vai trabalhar fora, em casa, passar noite em claro e por aí vai. Esse estresse contínuo é uma causa absurda de queda de cabelos, chips de hormônios, alimentação industrializada, dietas malucas que as mulheres são mestres em fazer, ficam horas sem comer para emagrecer, depois comem bobagem, o índice glicêmico alto, carboidrato, as químicas, alisamento, tinta o tempo todo, até desenvolver alergia. Isso mostra que temos muito mais fatores para desencadear perda capilar, porque tudo isso gera queda. Nos preocupamos mais e nos autoagredimos mais. Tudo isso melhora umas coisas, mas piora o cabelo. E a pandemia pirou muita gente e isso afetou a queda também.
Descobrimos também – e ainda estamos estudando – que existe também associação com síndrome metabólica. Estamos ficando com colesterol, glicose mais altos por sedentarismo, obesidade, má alimentação e isso também tem sido fator para a calvície feminina. O que amplia ainda mais a questão, pois antes era apenas a genética e o hormônio, e agora surgiram esses outros coadjuvantes não menos importantes na jogada. Nossa capacidade de diagnosticar aumentou e estamos vivendo mais.”
Aumenta o problema, cresce também a busca por solução. Existem várias medicações sendo desenvolvidas para combater a alopecia androgenética feminina, já liberadas para mulheres, e outras em fase de aprovação. “Todo esse bafafá do patrocínio do Oscar pela Pfizer é verídico, ela está lançando um medicamento para a alopecia areata. Isso não tira o valor dessa questão, porque a calvície mexe muito com a autoestima de todos. Dizem que o homem se aceita sem cabelo. Os homens jovens têm buscado cada vez mais tratamentos contra a calvície, e várias clientes falam que não ligam para ruga, mas não querem ficar carecas”, conclui.
Há algum tempo, muitas pessoas têm feito um microagulhamento no couro cabeludo para estimular o nascimento de mais fios. A Dra. Marcela ressalta que isso é um tratamento pontual, para dar uma alavancada inicial e sempre como suporte ao tratamento principal. Não pode ser o único tratamento, porque assim, quando acabarem as sessões, o cabelo cai novamente.
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