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Estado de Minas De volta

Cores e energia na Clements Ribeiro

Em voo solo, Inácio Ribeiro retoma as atividades da marca londrina com a nova coleção distribuída pela plataforma Net-À-Porter


26/12/2021 04:00

Verde
Clements Ribeiro (foto: Divulgação)


A boa notícia que chega de Londres é que Inácio Ribeiro reativou a sua marca Clements Ribeiro, nome emblemático da cena londrina, depois de uma pausa sabática. Com shapes multicoloridos e repletos de energia, a nova coleção já pode ser conferida no site Net-a-Porter.
 
Para quem não acompanha a história, vai aí um briefing: ligado a uma família da área da beleza, o estilista mineiro escapou da tradição e começou uma carreira autodidata projetando vitrines para as lojas da Savassi, até então a região mais fashion da cidade.
 
Listras
Clements Ribeiro (foto: Divulgação)
 
 
Quando o empresário Armando Gaudêncio resolveu expandir a lendária Divina Decadência em um cenário completamente favorável à moda em Belo Horizonte, ele foi fazer parte da equipe de estilo. Naquela época, meados dos anos 1980, Papaulo, como é conhecido por aqui, já cultivava um repertório refinado, que ia além das tendências das estações, buscando inspiração nas artes, sobretudo as artes plásticas e a música.
 
Marca Clements Ribeiro
Clements Ribeiro (foto: Divulgação)
 
 
E quando tudo caminhava muito bem, obrigada, ele resolveu deixar as conquistas já alcançadas para trás, ou seja, um emprego bem remunerado, o carro, o prestígio, para tentar vida nova em Londres, se aprofundar no ofício na também lendária Central Saint Martins, berço de vários talentos que emergiram internacionalmente. Foi lá que conheceu a mulher Suzanne Clements, sua parceira e sócia em muitas aventuras que se iniciaram desde então.
 
Inácio Ribeiro
Inácio Ribeiro reativou a sua marca Clements Ribeiro (foto: Zac Frackelton/Divulgação)
 
 
A trajetória do casal é uma história de superação. Formados, depois de buscarem emprego em várias empresas europeias e precisando sobreviver, resolveram empreender e criar a própria grife, no início da década de 1990, que nasceu caseira, mas  ganhou notoriedade particularmente pela matéria prima escolhida, o cashmere, e pela forma que ela foi explorada pela dupla. As listras coloridas e vibrantes se tornaram um selo de identidade no mercado.
 
Para resumir, o trabalho da Clements Ribeiro chegou até Suzy Menkes, autoridade máxima da moda em Londres naquela época. As opiniões da jornalista no The Independent eram como alto falantes que amplificavam o que pensava. E ela aprovou a novidade, que despertou atenção também de profissionais dos demais veículos de importância. Darling da vez, as malhas em cashmere da label começaram a ser vestidas por artistas, músicos e atrizes como Madonna, Gwyneth Paltrow e Kate Moss, entre outros famosos. Consequência natural do sucesso, a marca entrou para o calendário londrino de lançamentos, tornando-se um dos desfiles mais esperados das temporadas.
 
Durante esse hiato de sete anos, Inácio manteve colaborações com grifes de conglomerados poderosos, como a Toast e a Loro Piana, do grupo LVHM, famosa por suas lãs fabulosas e por roupas e acessórios muito exclusivos, enquanto Suzanne se encontrou nas artes plásticas, tornando-se pintora. “Foi uma paixão que ela desenvolveu nos últimos três anos e à qual se dedica em tempo integral. Ela ainda “olha sobre meus ombros” e participa de decisões, mas a Clementes Ribeiro hoje é um voo solo”.

Pandemia Na verdade, o casal nunca considerou a interrupção definitiva das atividades da Clements Ribeiro. A possibilidade da volta sempre esteva aberta. “Meu trabalho de consultoria foi sempre muito interessante, mas comecei a me frustrar ao ver que muitas das minhas ideias mais fortes não eram aproveitadas. Percebi que o retorno a um trabalho próprio seria inevitável. Já estava pensando nisso por vários anos”, ele comenta.
 
O pensamento foi maturando durante o período do lockdown. “Nós tivemos a felicidade de ter uma casa de campo em Shropshire, onde fomos passar o Natal de 2019 e terminamos ficando lá por nove meses, trabalhando remotamente. Nessa época, eu prestava consultoria para uma empresa na China. Foi um bom tempo para refletir, burilar o conceito e criar coragem de tomar a decisão de retomar”, relata.
 
Assim nasceu a primeira coleção com apenas 10 estilos, mas com 38 opções de cores e combinações diferentes. A exuberância de tons, as listras multicoloridas e os chevrons, são parte importante dessa nova Clements Ribeiro, conforme Inácio explica. “Estou trabalhando exclusivamente com cashmere escocês, produzido no Barrie Knitwear, do grupo Chanel. Essa relação comercial vem desde o início da marca e sou o único estilista independente com o qual eles aceitaram trabalhar”.
 
Ele faz questão de frisar que esse é o melhor cashmere do mundo - o material bruto é original de rebanhos sustentáveis da Mongólia e filados e tintos na Escócia. “Executados pela Barrie, o produto final é de altíssima qualidade e durabilidade e isto nos coloca no mercado do luxo, especializado em malharia de cashmere. Porém, penso que os meus desenhos e minhas cores são igualmente fortes, frutos da minha paixão pela arte”, atesta.
 
A partir dessa consideração, as referências para as novas criações vieram do pintor norte-americano Kenneth Nolan e das bandeiras Palio de Siena -  que integram os rituais da corridas de cavalos da cidade de Siena, na Itália. Elas foram vitais para desenvolver novas listras e intársias, conforme o vocabulário da marca. Vestidos, saias, túnica, calça, cardigã, twinsets e suéteres integram o mostruário.
 
De acordo com os planos, serão duas coleções anuais, a cruise e a pre fall, compactas no início, mas com expansão prevista à medida que a distribuição aumente. Para os que quiserem acompanhar o trabalho da Clements Ribeiro, as peças foram lançadas em novembro no site Net-a-Porter, que fará a comercialização no mundo inteiro. Segundo o estilista, a grife estará presente também na Joseph, em Londres, e em lojas independentes nos Estados Unidos, Japão e Europa. “No próximo ano, reativo meu website para venda direta”, adianta.

Nova ordem Sete anos se passaram, existe uma nova ordem no universo da moda, e o Caderno Feminino quer saber como a marca se situa agora. Inácio ressalta que está trazendo um produto que, além da alta qualidade e sustentabilidade, é produzido localmente e com baixa cota de poluição. “Para completar, é um trabalho honesto e original, de produção controlada. Não é um exercício de luxo de massa ou fast fashion e estou oferecendo, ainda, o discurso de cores que não existe no mercado. Penso que o mundo precisa urgente da energia das minhas cores”.
 
Em um planeta que está, teoricamente, em fim da Covid-19, com a diminuição de casos e mortes, ele observa que a indústria da moda foi devastada pela pandemia. “Esse período proporcionou uma oportunidade de reflexão, que trará alterações grandes ao sistema. Você já pode ver isso ao constatar a dispersão dos desfiles e apresentações fora do calendário oficial, entre outras mudanças”. O estilista constata ainda que o consumidor está mais consciente dos hábitos de consumo e sente a necessidade de produtos que tenham um valor implícito mais legítimo e original.
 
 
 


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