Marina Rodarte sabe contar a história da indústria da moda em Belo Horizonte como ninguém. Começou no setor junto com os pioneiros dos anos 1980, na base da intuição e do trabalho, e ao longo do tempo foi deslindando os segredos do ofício, da pesquisa ao desenvolvimento das coleções. Primeiro com a marca Sabor Tropical, presente em todas as feiras promovidas em Belo Horizonte e fora do estado.
A etiqueta, como se falava na época, ia do casual à festa, com ampla opções para os clientes. Eram mostruários imensos, elaborados para três lançamentos oficiais: outono-inverno, primavera-verão e, fechando a temporada, o alto-verão, voltada especialmente para o calor, praia, celebrações, festas de fim de ano. E, para registrar esses momentos, como era comum também, os clientes eram brindados com caprichados catálogos que sintetizavam os temas e registravam os melhores looks escolhidos pela equipe. Ele era a grande peça de divulgação de um ciclo em que não havia internet e que a comunicação era essencialmente gráfica.
Focada, avessa às badalações, Marina sempre teve uma grande capacidade de se adaptar ao mercado, sabendo se reinventar em várias ocasiões, driblando planos econômicos, contornando crises e até dando guinadas bruscas e promovendo mudanças de rota à medida que o tempo passava. Na sua paixão e fidelidade à moda, arrastou consigo o filho, Rafael Nader, que se tornou seu apoio e seu braço direito.
Foi assim, como observadores da cena fashion, que, em determinado ponto, decidiram entrar na área de festas. Lançaram a M. Rodarte dispostos a explorar um novo nicho que nascia em Belo Horizonte, chamando a atenção do Brasil para a produção mineira. Há cinco anos, capitaneada pelo desejo de Rafael, nascia a Marrô, com uma pegada mais fresca e focada na linha coquetel. “As duas marcas são diferentes, mas se complementam. É o que a gente sabe fazer, uma roupa trabalhada, bem-feita, para ocasiões importantes”, explica Marina.
E foi exatamente esse segmento o mais afetado pela pandemia. “Nós saímos das feiras com ótimos pedidos para entregar, vieram os cancelamentos, chegamos a ficar três meses fechados, tentando segurar nossos funcionários e ver como poderíamos seguir”, conta a empresária.
Na falta de um porto seguro, ela resolveu absorver a produção da M. Rodarte, que seria endereçada aos clientes, ciente de que a roupa de festa é atemporal e que poderia ser canalizada comercialmente mais tarde. “Resolvemos retornar com a Marrô e, agora, estamos constatando a volta das comemorações e já colhendo bons resultados”, ela assegura.
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Prevenção de todas as cores no Outubro Rosa do Mário PennaMercado deve antecipar campanhas para não perder vendas na Black Friday Teleton terá 12 horas de atrações na TVRetomada Ciente de que a situação exige que os empresários corram riscos, entre final de setembro e princípio de agosto resolveu participar com as duas labels de uma feira em São Paulo. “Pensei em investir em formas mais fluidas, amplas, esvoaçantes, em sistema de pronta-entrega. Como só havia a gente do setor de festa, nós estouramos. Vendemos o que levamos e tivemos que abrir para pedidos. Participamos do BH à Porter, realizado de 4 a 8 de outubro, e, agora, estamos ansiosos pelo Minas Trend, preparando as coleções. É um evento muito importante para a empresa, comercializamos lá cerca de 60% da produção”, afirma.
Marina é representante legítima de várias outras marcas que se viram privadas de vender seus produtos nos eventos de moda, há quase dois anos. “É um mercado muito volátil, que muda a cada seis meses e isso já nos deixa bastante vulneráveis.Não sabemos se o cliente vai honrar o pedido, não há nenhuma cláusula que garanta segurança nesse tipo de comércio. Então, é preciso ser muito resistente e conservar o entusiasmo para seguir em frente”.
No seu caso, a crença em dias mais positivos se apoia na revisão de vários momentos históricos, como os do pós-guerra, em que a moda voltou a florescer e, com isso, veio a normalização do consumo. “O social faz muita falta, as pessoas estão ansiosas pela retomada de sua vida”, reitera.
Para atrair seus clientes, as últimas coleções cápsulas da M. Rodarte e da Marrô vieram com uma cartela vibrante, repleta de cor. Segundo Larissa Villanova, estilista do Grupo Rodarte há cinco anos, a palavra de ordem é leveza, o que envolve não só um estilo de moda, mas expressa um desejo da humanidade nesse período tão sofrido. “Percebemos que estar confortável em uma silhueta fluida era a fórmula preferida do momento”, assegura. Criar texturas na transparência, explorar os detalhes manuais e as técnicas da moulage foram outros artifícios usados na criação das peças.
Ela consegue explicar bem as diferenças e semelhanças entre as marcas. “Existe um DNA comum a cada uma, mas estamos sempre acrescentando um toque de transformação a cada temporada. Na M. Rodarte, por exemplo, utilizamos tecidos lisos e investimos muito nos franzidos e nos drapeados. Os bordados continuam, já que sempre foram o carro-chefe, mas agora com bases mais leves e mais delicados”.
Já na Marrô, segundo Larissa, predominam as estampas - flores e folhas foram exploradas na técnica da aquarela, o que dá às imagens um aspecto mais aguado. “Nessa coleção predominam também os recortes na cintura, a valorização da pele por meio de looks com aberturas nas partes de cima, laterais de mangas, por exemplo”. Ela cita ainda como característica da label o mix de tecidos, como tule e chiffon, com efeitos 3D, e os volumes que as peças exibem.
Além da leveza, outra palavra que a estilista destaca é natural. “Além do conforto, as pessoas estão querendo ficar mais perto da natureza e as mulheres pedem roupas elegantes e leves para continuarem sendo lindas e elegantes”, sintetiza. A campanha das marcas expressa esses conceitos nas fotos feitas por Gustavo Marx. A equipe de criação contratou a artista plástica Julia Bianchi para pintar um painel simultaneamente à realização do ensaio fotográfico. O resultado imagético é impactante.
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