Jornal Estado de Minas
Entrevista/Júnia Gomes/Estilista/62 anos

Sapateira com orgulho


Um engenheiro e uma administradora de empresas resolveram entrar no mercado dos acessórios, na década de 1980, época em que a cidade vivia em efervescência fashion. Primeiro vieram os cintos, depois as bolsas e, finalmente, os sapatos, que ganharam o mundo, aportaram em feiras e desfiles, representando a rica cultura calçadista artesanal de Minas Gerais.

Jânio e Júnia Gomes criaram a Júnia Gomes despretensiosamente, há 36 anos, e podem ser considerados pioneiros do setor a partir desse período. A marca é também uma das poucas que mantiveram seu negócio de pé ao longo do tempo. Embora Júnia, uma legítima aquariana, flerte com o futuro e não goste muito de olhar para trás, a retrospectiva de um trabalho consistente e sério é digna de orgulho.

Além da presença garantida nos principais eventos do país, a label protagonizou momentos importantes, desfiles memoráveis, como o que apresentou uma coleção em parceria com os bailarinos da Mímulus Cia de Dança, além das participações no Salão de Acessórios do Belo Horizonte Fashion Week, entre outras ações que ajudaram a consolidar o branding da empresa e amplificar seu alcance.

Fetichista assumida, responsável pela criação das coleções, a estilista mantém um olho nas referências da moda e outro no bloco de pedidos. Otimista incurável, ela tem ainda vocação para vendas e faz questão de estar na linha de frente nos estandes, nas feiras, para receber os clientes. Júnia é uma mulher movida pelo trabalho. Em tempos incertos, mantém uma certeza inabalável: “Amo o que faço e sei que vou continuar fazendo o que gosto”.


Qual o segredo para manter um negócio por tanto tempo em um mercado tão instável como o da moda?
Não existe fórmula nem segredo para sobreviver no mercado  de moda, só muita determinação, muito empenho e muito trabalho. O glamour das passarelas e vitrines é o resultado dessa maratona.

Você e o Jânio são autodidatas.
Como e com quem aprendeu a trabalhar no setor sapateiro?
Jânio e eu sempre trabalhamos juntos, ele me dando carta branca, eu nem tanto, me intrometendo em tudo. Apesar de ter cursado administração de empresas e ele engenharia, montamos a fábrica, crescemos e seguimos, aprendendo com a escola da vida, caríssima, os erros ensinando a acertar. Iniciamos produzindo cintos em casa, depois bolsas, já numa pequena fábrica e, de repente, calçados, o que acabou virando uma paixão.

Quem a inspirou e inspira até hoje?
Sempre me inspirei em filmes e livros que eu amo e também em tudo que me seduz pela beleza e harmonia.

Como você está atuando neste momento pandêmico? O que tem aprendido com ele?
No momento, diante dessa reviravolta que a pandemia causou na nossa vida, a escola da vida mais uma vez tem ensinado a objetividade, a necessidade de muita criatividade. E mais esforço, empenho e determinação para se manter no mercado.

O que o mercado quer hoje? Seria conforto e casualidade?
Reinventar-se no sentido exato da palavra, quase diariamente, de acordo com os acontecimentos. O mercado atual pede conforto, autocuidados, mas ainda está em busca da beleza e das novidades.

Você acha que, em breve, as mulheres voltarão a subir em saltos estratosféricos?
A pessoa que se gosta, se cuida, e os valores mudaram para a autossatisfação, mais uma selfzinha também, é claro, para mostrar nas redes sociais que está lindinha em casa, porque ninguém é de ferro, né? Com relação aos saltos altos, sempre vai ter quem ama e não desce deles nunca, mas, no momento, só os apaixonados mesmo aderem. Penso que basta os eventos voltarem que ele também voltará reinando. Sou a primeira na fila!

Você começou em uma época de muito glamour.
Ainda é possível trabalhar esse conceito hoje em dia?
O glamour atual é estar bem, se cuidar física e psicologicamente, tudo de verdade. Investir em roupas e calçados que você gosta e ficar bem onde estiver, mas sempre se sentindo bonita. Eu sempre achei que uma roupa nova, um sapato novo, cabelo arrumado e maquiagem, esse combo todo é o maior remédio para todos os males, já que dá prazer e autoconfiança.

A sua marca protagonizou ações muito expressivas, lançamentos para imprensa em BH e em São Paulo, muitos desfiles. Elas ajudaram a consolidar o branding da Júnia Gomes?
Nossa fábrica completou 36 anos no mercado. No começo, com produtos diferenciados e arrojados, tivemos o apoio e reconhecimento da mídia nacional. Muita mídia espontânea. Nossas coleções estavam em várias edições mensais de revistas e jornais. Na TV também, em diversas novelas e programas.
Aqui em Belo Horizonte, sempre tivemos o apoio e, para ser sincera, o carinho do Estado de Minas por meio do Caderno Feminino. Posso ver minha trajetória completa ali, em fotos e reportagens lindas, uma grande emoção. Fizemos lançamentos criativos em Beagá e em São Paulo, que foram aplaudidos e amplamente divulgados por toda a imprensa do país. Participamos até hoje dos grandes eventos de vendas, feiras como Francal, Couromoda, TM Fashion, Minas Trend.

Como foi esse processo de construção de marca?
Aconteceu naturalmente devido ao ambiente em que vivíamos nos anos 1980.  Belo Horizonte era cidade polo de moda e recebia um fluxo muito grande de lojistas interessados no que se passava atrás das montanhas mineiras. O Grupo Mineiro de Moda era uma força motriz nesse processo, atraindo não só compradores como também a mídia, que chegava à capital mineira patrocinada pelas 10 etiquetas que o compunham. Como só uma delas – a Mônica Torres – era do ramo de acessórios, a Júnia Gomes passou a criar e desenvolver produtos para os outros componentes que eram da área de vestuário, em dobradinhas  bem-sucedidas. E isso nos deu bastante prestígio.

A participação nas feiras em São Paulo também foi muito importante, não é?
Sim, a marca precisava crescer e com essa possibilidade das feiras contratei uma assessoria de imprensa em São Paulo. Por meio dela, promovemos muitos encontros, almoços e jantares em restaurantes renomados, que geraram um relacionamento mais estreito com os jornalistas e produtores de moda importantes da época, como Costanza Pascolato, Regina Guerreiro, Fernando de Barros, Rita Segreto, Cláudia Berkhout, Jussara Romão, entre outros. A gente convidava ainda representantes de jornais e revistas semanais importantes, como a Folha de S.Paulo, a Veja, a IstoÉ. Além de a imprensa conhecer de perto a marca e os produtos, essas ações geravam muita mídia espontânea.

E os desfiles? Alguma recordação especial?
No princípio da década de 1990, Eloysa Simão e seu sócio Giorgio Knapp, da Dupla Comunicação, deram o start nas semanas de moda do país, lançando a Semana Leslie de Estilo, no Museu Nacional de Belas-Artes.
A Mabel Magalhães, que era muito minha amiga, ia participar da segunda edição do evento e me convidou para entrar com os calçados da coleção desfilada. Nessa época, também, a Júnia Gomes promoveu alguns almoços e desfiles importantes para a imprensa aqui em Belo Horizonte, nos restaurantes Café Ideal (junto com as marcas Mary Design e Celina David) e Esplêndido. Lembro-me de que, nesse último, o clima era meio Barbarella, bem anos 1960. Eu fiz todos os acessórios, inclusive as roupas em verniz branco fechadas por velcros e chapéus no estilo Paco Rabanne. Nós sempre fomos parceiros das marcas amigas nos desfiles, criando sapatos e bolsas especiais para esses momentos, ou mesmo linha de acessórios especiais para elas.

Houve um desfile também na Mimulus Cia de Dança...
Sim, foi um happening, na verdade. Os dançarinos calçavam os modelos mais expressivos da coleção, que foi mostrada assim, entre boleros e tangos. Repercutiu muito pela forma criativa que mostramos o trabalho da Júnia Gomes.

Nesse tempo todo, imagino que vocês enfrentaram grandes desafios, particularmente econômicos...
Passamos por todos os planos econômicos nesses anos, vivemos as reviravoltas do mercado, vivemos prosperidade e apertos com a mesma simplicidade e coragem que cada um exigiu. Fizemos um patrimônio e adquirimos know-how. Mudamos para um produto mais comercial, apesar de ainda continuar acreditando em coisas que só vão para o grande mercado um ou dois anos depois.

A Júnia Gomes tem também um braço especializado em produtos corporativos. Como ele vem funcionando?
Sim, estamos no mercado corporativo, criamos e fabricamos brindes especiais, uma nova grande e desafiante paixão.

Se tivesse que voltar atrás, o que mudaria na sua forma de trabalhar?
Olhar para trás é um exercício muito difícil para mim, aquariana total.
Só gosto de olhar para a frente, mas vejo uma carreira linda, muita paixão, muito empenho, muitos amigos, muitos empregos gerados, muita coisa linda que eu fiz. Sinto-me muito orgulhosa, grata e emocionada, cada palavra dessas só Deus sabe o que contém.

Você nunca foi uma pessoa que correu atrás da mídia e hoje as redes sociais exarcebaram esse comportamento. Como vê isso?
Atualmente, com as redes sociais, trabalho, vida pessoal, vida social, tudo ficou meio embaralhado. Sigo me expondo ou me escondendo de acordo com meus momentos. Agora eu sei que posso escolher. Poder estar em qualquer lugar do mundo, isso é um espetáculo! Gosto de tudo que é novo, quero entender e participar.

A Júnia Gomes ainda tem uma fábrica com prédio próprio, ao contrário de muitas empresas, que partiram para a terceirização de produtos. Quais as vantagens desse modelo de negócios?
A compra do prédio, no Bairro Nova Suiça, aconteceu em janeiro de 1988 e foi uma excelente aquisição. A gente tinha disponibilidade financeira e resolveu investir no imóvel. São 1.100 metros quadrados de construção e tínhamos uma estrutura maior na época. É lá que funciona também o showroom da Júnia Gomes, mas estamos pensando, agora, em alugar um dos andares, já que o espaço é enorme.

Você é uma pessoa sempre otimista, mesmo nas adversidades. De onde vem esse traço?
Amo o que faço. Apesar de, às vezes, achar que essa mudança mundial causada pela pandemia é um sonho, sei que vou continuar fazendo o que gosto.
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