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Estado de Minas entrevista/Simone Jordão - 54 anos, consultora para expansão internacional de moda

"A hora é agora"

Carioca avisa que este é um bom momento para marcas brasileiras pensarem em exportação


04/04/2021 04:00

(foto: Miguel Sá/Divulgação)
(foto: Miguel Sá/Divulgação)


Simone Jordão está otimista com o quem vem por aí. Focada em negócios internacionais de moda, a consultora carioca acredita que o segundo semestre será promissor, com a retomada de feiras presenciais, principalmente nos Estados Unidos, e o interesse declarado dos compradores em ver novidades. Ou seja, este é um bom momento bom para se pensar em exportação. O recado também vale para o mercado mineiro, visto por Simone como muito potencial. Como curadora da feira Coterie, que é realizada duas vezes por ano em solo norte-americano, ela está sempre em busca de produtos que encantem os estrangeiros. “Vamos incentivar a exportação da moda brasileira”, defende a consultora, que trabalha planejando estratégias e ações para as marcas chegarem ao mercado internacional.
 
Por que você escolheu estudar moda?
Não sei ao certo, sempre quis moda. A única coisa que posso dizer é que sempre costurei, isso vem da minha avó, que era uma grande costureira. Sempre estive entre retalhos. Passei no vestibular de comunicação com 17 anos, decidida que queria jornalismo de moda. Mas achei melhor fazer moda e fui para a Europa. Saí muito cedo do Brasil para estudar em Paris. Depois que terminei o curso, fui para a Grécia com a Ralph Lauren e lá tive a minha primeira experiência com internacionalização de marca.

O que você aprendeu lá?
Apesar de ser uma marca internacional, a Ralph Lauren também teve que passar por um processo de adaptação para entrar em outro mercado. Foi ali que entendi como funciona este universo de trabalhar com outra moeda, de adaptar o produto para o clima, para a temporada, para os hábitos culturais. Naquela época, o mercado da Grécia era muito fechado. A Ralph Lauren foi uma das primeiras marcas, junto com Versace e Armani, a chegar com loja própria. Até então, só estava em multimarcas. Abri o primeiro contêiner e fiquei lá por sete anos.

Como surgiu a ideia de 
virar consultora?
Quando voltei para o Brasil – já estava há 10 anos fora, comecei a trabalhar no projeto de internacionalização da Osklen. A marca já estava no mercado internacional, tinha loja em Portugal, mas queria crescer. Lembro-me de que fiz a abertura de uma loja própria na Itália. Nisso, comecei a enxergar as necessidades das marcas brasileiras e abri a minha empresa para atendê-las.

Quais eram as maiores dificuldades das marcas brasileiras?
Toda vez em que estava em um evento internacional, fosse feira ou showroom, percebia como as marcas brasileiras chegavam despreparadas. Uma vez, estava em uma feira em Paris e veio uma pessoa de uma marca pedindo ajuda. Compradores árabes estavam lá no estande dela dizendo que eles não queriam preço em euro, queriam o preço ex works (EXW). Não é só converter do real para o euro, você tem colocar taxas, impostos, e as pessoas não tinham nem ideia, como até hoje é assim. Quando você está no mercado internacional, trabalha com diferentes moedas, dependendo do país que está comprando, não importa onde está vendendo. Você pode estar na Europa e vender para os Emirados Árabes ou estar nos Estados Unidos e vender para o Japão. É preciso considerar todos esses detalhes.
 
Em que consiste exatamente o seu trabalho? 
A minha área é de projetos e ações no mercado internacional. Digo que a minha consultoria é operacional. Não só falo o que a marca tem que fazer, vou lá e faço junto com ela. Trabalho com marcas que estão avançadas no processo de internacionalização, como a mineira Iorane. Ela já estava no mercado internacional, já fazia vendas no e-commerce, já tinha aberto loja própria em Miami, mas queria estruturar o atacado. Outro modelo é trabalhar com marcas novas, como uma de calçados, que tem seis meses de Brasil e já quer estruturar a empresa para o mercado internacional desde o começo. Faço o trabalho para a necessidade da marca, muitas vezes identificando a necessidade dela, fazendo adaptação de produto, definindo preço. Ainda mais agora, com o dólar a R$ 5,50, existe a noção de que o Brasil ficou barato. Não, o Brasil agora é competitivo, o nosso produto não é barato. Muita gente me procura por essa oportunidade, mas o câmbio não pode ser o único motivo para exportar. E quando a moeda não estiver assim, você fecha a exportação? Temos que pensar a longo prazo, ainda mais no mercado internacional, onde você precisa de muita continuidade. As pessoas querem te ver e te ver de novo. A minha consultoria é sempre voltada para o atacado, mas não para por aí. Já fiz projeto para cliente quer queria abrir e-commerce para o mercado internacional e já fiz campanhas lindas de marketing, como a da Skazi com a Camila Coelho no lançamento internacional. Tenho envolvimento no processo inteiro.

O que uma marca precisa ter para chegar ao mercado internacional?
Produto e preço competitivo, o que não significa ser barato. Trabalho agora com uma marca super high-end que faz um blazer de alfaiataria que poderia ser de qualquer marca internacional. O produto fala por si só, e não é barato, mas, quando você compara com o mesmo produto no mercado internacional, faz sentido. O produto made in Brasil é muito bem-visto e aceito, o que considero uma vantagem no mundo globalizado, com tantos estereótipos, como o made in China. Lá os produtos podem ser maravilhosos, mas não têm apelo. Falo que as marcas brasileiras devem explorar isso. Mas o produto não precisa ser caricato do Brasil, a marca não precisa gritar que é brasileira.

Quais pontos mais chamam a atenção dos compradores internacionais para os produtos brasileiros?
As marcas brasileiras hoje conseguem passar confiança. As primeiras já desbravaram o mercado e conseguiram mostrar que temos capacidade de produção e de entrega. Neste último ano, foi tudo muito interrompido, mas as marcas que já estavam no mercado internacional conseguiram atender o comprador internacional. Passaram sufoco, mas entregaram as coleções vendidas. Fora isso, brasileiro não tem medo de trabalhar com cor, tem bastante criatividade e ainda tem o diferencial do produto handmade. Não precisa ser uma peça inteira de crochê, mas um acabamento, um toque do feito a mão.

O Brasil está mais representado pela moda feminina no mercado internacional?
Moda feminina e calçado são as duas maiores categorias de exportação. Acessório vem bem forte também, incluindo bolsas. Acho que isso tem a ver com a oferta mesmo.

Como está hoje o mercado internacional? É um bom momento para entrar?
O momento é muito propício para quem quer começar. Principalmente nos Estados Unidos, a pandemia não parou o mercado de atacado internacional, ele migrou para o digital. Tanto que, nas duas últimas edições da Coterie, tivemos muitas marcas brasileiras: 51 em setembro e 31 em fevereiro. Os contatos continuaram sendo feitos e as marcas continuaram lançando. É claro que os lançamentos no digital trazem muitos desafios, principalmente pelo fato de o produto não ser visto, mas, pela continuidade, que é muito importante no mercado internacional, foi muito válido ter esse contato digital. Até eu na consultoria acabei me aproximando de compradores. A gente se encontra em feiras e semanas de moda sempre muito com muita pressa, atrasados, tendo que estar em 10 lugares no mesmo dia. Agora, marco um horário para falar com a pessoa. Outro dia, fiquei duas horas com uma compradora de Chicago. Vejo uma proximidade e a possibilidade de apresentar muitas marcas. Você está olhando coleção de tricô, mas se interessa por acessório? Quer dar uma olhada? Sinto uma abertura.

Onde existem mais oportunidades para as marcas brasileiras?
Os principais polos distribuidores da moda brasileira são Estados Unidos e Europa. Quando você está nos Estados Unidos, vende 70% para o mercado norte-americano e 30% para o internacional. Os números são parecidos na Europa, podendo chegar a 80% para o mercado europeu e 20% para o internacional. Os árabes compram bastante, até porque muitas marcas brasileiras têm poder de adaptação. Menos decote, manga mais comprida. Algumas marcas já vão até com as duas opções: tenho este vestido mídi, mas posso fazer ele comprido até o chão e custa tanto. Isso faz parte da preparação da marca. Se você tem essa possibilidade, já vai com desenho e preço, não deixa para pensar quando chegar lá.

Como foram as experiências das feiras digitais?
O número de conexões dentro da plataforma da Coterie foi muito interessante: mais de 55 mil. Teve marca brasileira que fez mais de 250 contatos. Imagina se estivesse em um evento físico, conseguiria receber 250 compradores? Acredito que tenha sido uma ótima oportunidade. Uma marca do Nordeste lançada agora, que faz bolsas de palha especiais, sustentáveis, participou pela primeira vez da Coterie e fechou uma venda de 300 peças para uma das maiores redes de varejo dos Estados Unidos, a Anthropologie. Conseguir um pedido enorme na primeira feira é difícil, o comprador está experimentando, não o conhece, não sabe se você vai entregar. Mercado internacional é relação de confiança. Quanto mais brasileiros fizerem um bom trabalho, mais o mundo entende que estamos preparados. Falo muito isso porque uma marca de tricô acha ruim ir para as feiras concorrer com outra marca de tricô. Esquece isso. Quando você chega ao mercado internacional, está competindo com o mundo todo. Às vezes, vemos 40 marcas italianas num mesmo corredor, 20 vendem a mesma lã, só que uma faz suéter mais largo, outra vestido. O produto vai se diferenciando e todo mundo vende. Italiano não acha que está competindo com o outro, pelo contrário, um quer ficar do lado do outro. As marcas deveriam pensar assim: quando tem outra de jeans, tricô, bolsa fazendo sucesso no mercado internacional, é hora de ir também. Não porque o produto é parecido, mas porque já tem alguém desbravando o mercado. Você vai lá mostrar o seu produto, o seu DNA. Imagina em Minas, quantas marcas maravilhosas de tricô existem? Uma, duas, três já foram, mas tem espaço para 30. As marcas podem até ser concorrentes no Brasil, mas quando você chega ao mercado internacional, seu concorrente é o mundo.

Como você enxerga a moda mineira?
A moda mineira tem muita criatividade e muito potencial. Até porque, existem polos de produção, vocês produzem moda em Minas. Quando estava podendo viajar, sempre ia a todas as semanas de moda de Minas e visitava todos os showrooms que me convidavam. Não só amo a moda mineira, acho que os mineiros trabalham muito sério. Trabalhar com marcas mineiras sempre me deixa muito feliz. E não é um lugar de um produto só, Minas tem potencial pela diversidade.

O que você diria para as marcas que querem entrar no mercado internacional?
A hora de começar é agora. Já está comprovada a positividade do mercado de receber novas marcas no segundo semestre deste ano. Eventos presenciais estão sendo confirmados, principalmente nos Estados Unidos, onde são vacinados 2 milhões de pessoas por dia. Até junho, quem quiser vacinar já vai ter sido vacinado. Imagina em setembro, os norte-americanos já vão poder viajar. Os compradores estão dizendo que não aguentam mais comprar on-line, querem ver produtos pessoalmente. Então, vejo que eles vão estar abertos para novidades e quem vir o mercado internacional como oportunidade vai entrar na hora certa. A fase digital foi positiva, mas os formatos no segundo semestre vão vir híbridos. As marcas precisam estar preparadas digitalmente para atender seu comprador, isso nao tem volta. Fotografar de frente, lado, costas, todos os detalhes, e mandar tudo organizado. O comprador já se acostumou a receber um material de qualidade. Mas acho que isso vai complementar o presencial. 


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