Coronavírus, crise econômica e confinamento social não intimidaram Eliane Dias, Naiara Albuquerque e Domenica Dias. As três estão à frente da marca feminina de streetwear Yebo, que foi lançada no fim de agosto, em São Paulo. O trio aposta no e-commerce, que experimenta um boom nestes tempos de pandemia.
Yebo quer dizer “sim”. Domenica aprendeu essa palavra quando visitou Johanesburgo, na África do Sul. A proposta da marca é afirmativa, assim como seu nome: valorizar a brasileira, sobretudo a mulher negra que não se dobra ao racismo estrutural de nossa sociedade.
O trio busca oferecer roupas confortáveis e de boa qualidade, sintonizadas com o momento desafiador que o planeta está vivendo, em meio a home offices, novos arranjos sociais impostos pela pandemia e multidões nas ruas defendendo o fim das injustiças e da discriminação social.
Negras, Eliane, Naiara e Domenica querem provar que o empreendedorismo não tem cor. Questionam o racismo no universo fashion, que não poupa modelos e estilistas, entre outros profissionais.
Naiara, de 29 anos, e Domenica, de 21, são as diretoras de criação da Yebo. Advogada, CEO da produtora Boogie Naipe, que administra as carreiras do Racionais, o aclamado grupo de rap brasileiro, e da cantora Liniker, Eliane é a diretora-executiva. Está entre as feministas mais respeitadas do país, militante incansável pelos direitos humanos.
MODELAGEM Naiara Albuquerque diz que a marca cria moda para a “mulher real”, acostumada a se desdobrar para dar conta dos filhos, estudo, afazeres domésticos e do trabalho. De acordo com ela, a roupa Yebo respeita o corpo da brasileira, com modelagem adequada a esse biótipo. É roupa para durar, garante a estilista.
A marca questiona padrões estéticos que têm minado a autoestima feminina. O tamanho G, por exemplo, corresponde ao número 48. “Geralmente, quando as mulheres veem que determinada marca oferece até o tamanho G, já descartam o produto, pois acreditam que aquela roupa não serve nelas. Na Yebo não é assim, não nos enquadramos nisso.
Stylist experiente, a jovem paulista trabalha com as atrizes Jennifer Nascimento e Juliana Alves, além de Manoel Soares, novo apresentador do programa É de casa, da TV Globo. Naiara também assessorou a cantora Anitta e a banda As Bahias e A Cozinha Mineira.
A paleta de cores e os tecidos das peças Yebo não se restringem às tendências da temporada. A coleção número 1 destaca tons neutros (branco, bege, mostarda, verde, cinza e preto) em tops, camisas, camisões, camisetas, vestidos, calças, shorts, jardineiras, bermudas, macacões e trench coat, entre outras peças. Sarja, moleton e emana são tecidos trabalhados pela marca. Os preços das peças variam de R$ 120 a R$ 480.
“Priorizamos o bom caimento, o conforto e a elegância, com um olhar inspirado na alfaiataria”, explica Naiara. A coleção foi desenvolvida antes do desembarque do novo coronavírus no Brasil, mas chegou como uma luva para estes tempos de home office e confinamento, oferecendo comodidade e praticidade, diz Domenica.
A streetwear da Yebo é a releitura feminina de roupas masculinas, aquelas que as mulheres adoram confiscar do armário de pais, irmãos, maridos e namorados. Há blusas amplas para usar com legging e calças largas, por exemplo.
A streetwear, por sinal, surgiu para atender o público masculino, dialogando com artistas urbanos, grafiteiros, skatistas, surfistas e músicos do rock e do hip-hop.
“A gente se inspira no vestuário masculino, mas com olhar feminino. É uma outra estética, com novas possibilidades para a moda das ruas”, comenta Domenica Dias.
TACTEL Desde pequena, ela usa roupas do irmão, Jorge, e do pai, o cantor Mano Brown. Tem no armário camisetas, camisas e calças tactel “confiscadas” dos dois – claro, adaptadas para seu corpo. “Fiquei com uma jaqueta vermelha linda do meu pai, mas agora ele pediu de volta. Devolvi”, revela, aos risos.
Domenica destaca que o estilo Yebo se conecta ao mundo contemporâneo. Com a mesma roupa, a mulher trabalha, vai estudar, leva os filhos ao colégio, faz supermercado e pode tranquilamente ir à reunião no escritório – embora, ultimamente, esses encontros presenciais sejam meio raros.
Trata-se de uma roupa que atende tanto à agenda mais formal de Eliane Dias quanto à de sua filha Domenica, que estuda teatro, música e cinema. Também oferece conforto a mulheres como Naiara, que têm de compatibilizar a vida profissional corrida com a criação dos filhos.
A empresa já nasceu de olho no comércio on-line. Desde o início, descartou investir em lojas físicas, que demandam investimento de porte e cuja operação vem sendo severamente prejudicada nestes tempos de confinamento social. Porém, a proposta da Yebo não se limita a vender roupas pela internet. Domenica Dias informa que o site da marca é também um espaço para a mulher se expressar – a programação contemplará artistas, pensadoras e ativistas, por exemplo.
A estreia da Yebo já deu uma pista sobre como essa “rede de mulheres” vai funcionar.
A plataforma Yebo, reforça Domenica, extrapola a moda. “Queremos quebrar barreiras, fazer acontecer, expressar nossa criatividade.” E também chamar a atenção para o talento da mulher negra à frente de empreendimentos.
Jovens do século 21, as duas diretoras da Yebo falam com carinho e orgulho da herança feminina que receberam. Domenica conta que foi muito influenciada pela avó paterna, a vaidosa dona Ana, com suas roupas coloridas, brincos e bijuterias. Cida, a avó materna, é craque no crochê e nos bordados.
A jovem usa as roupas da mãe, Eliane, da época em que ela “modelava”, nos anos 1990. Garotinha, Domenica já desenhava seus croquis – alguns deles foram postados no perfil da marca no Instagram.
RUA AUGUSTA Naiara também é filha de ex-modelo. O gosto pela alfaiataria e por cortes elegantes veio de Miriam Albuquerque, que trabalhou como manequim de provas em ateliês da Rua Augusta, point da elegância paulistana nos anos 1970/1980.
Menininha, Naiara já inventava roupas, “encomendadas” à mãe. Meio descrente, dona Miriam, na máquina de costura, cumpria as ordens de sua pequena estilista. Ao final, sempre se surpreendia. “Quando a roupinha ficava pronta, ela dizia: 'E não é que deu certo?'”, diverte-se Naiara.
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