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Estado de Minas

Fotógrafa mineira lança projeto na quarentena de ensaios a distância

'Closer' é resultado de experimentações de Leca Novo com cliques através de chamadas de vídeo


postado em 14/06/2020 10:19 / atualizado em 17/06/2020 09:38

Bruna Boechat(foto: Leca Novo/Divulgação)
Bruna Boechat (foto: Leca Novo/Divulgação)

Toda a cadeia da moda tenta encontrar meios de continuar ativa em meio à realidade imposta pela pandemia. A fotografia também precisa se reinventar. A busca da mineira Leca Novo por novos formatos resultou no projeto Closer, que revela sua experimentação com ensaios virtuais. “Sou uma pessoa inquieta e só a possibilidade de criar algo completamente inovador já me deixa feliz”, aponta. A ideia também é novidade para os modelos e para as marcas.

O editorial da Jacquemus com Bella Hadid, há mais de um mês, marca o início desta história. A modelo nos Estados Unidos, o fotógrafo na França. Nada de cabeleireiro, maquiador, stylist, só um celular e um quarto como cenário. Leca viu esse e outros ensaios virtuais, mas acompanhava, desconfiada, o movimento de fotografar por chamada de vídeo. “Num primeiro momento, tive muito preconceito. Fui a primeira a falar que não enxergava como isso poderia funcionar, tinha a sensação de que a pessoa estava simplesmente fazendo uma selfie”, conta.

Ari Westphal(foto: Leca Novo/Divulgação)
Ari Westphal (foto: Leca Novo/Divulgação)

Em casa, tentando descobrir como se manteria ativa durante o isolamento social, Leca começou a ver mais ensaios virtuais interessantes, fotos bonitas e entendeu que dava para fazer o seu trabalho a distância. Escalou a modelo Carol Dias, que já fotografou várias vezes e até virou uma amiga, para os primeiros cliques e não parou mais. Depois vieram mais modelos, atrizes e influenciadoras digitais. “Trabalho muito com moda e influenciadores, esse é o mercado em que mais atuo, então quis dar continuação ao que já faço”, justifica.

A fotógrafa começa o ensaio por um tour virtual pela casa da modelo para ver os cenários possíveis. “Brinco que não sou eu que escolho o cenário, é o cenário que me escolhe.” No shooting com Bruna Boechat, aconteceu exatamente isso. Enquanto a modelo andava pela casa, Leca se deparou com um céu azul “maravilhoso” na parte externa da casa e fez vários cliques com ele ao fundo. “A Bruna ficou morrendo de rir, porque pedi para ela tirar a blusa, virar de costas e de repente ela estava sem blusa do lado de fora da casa posando para o celular.”

Escolhido o cenário, Leca dá os comandos para a pessoa posicionar o celular no melhor ângulo. Mais para o lado, está torto, inclina a tela. “Tripé ajuda muito, mas quase ninguém tem, então na maioria das vezes vai no improviso. A pessoa coloca o celular em cima de livros ou numa cadeira”, comenta. Só depois que o ensaio começa. Além de indicar a posição do aparelho, a fotógrafa dirige a distância a modelo, indicando poses, movimentos, giros e os ajustes na roupa.

Gabriel Gontijo(foto: Leca Novo/Divulgação)
Gabriel Gontijo (foto: Leca Novo/Divulgação)

Que fique claro, não é selfie. Em alguns (raros) momentos, a modelo segura o aparelho. Como na foto em que Ari Westphal está de cabeça para baixo segurando uma flor próxima ao rosto. A modelo, que mora em Londres, estava deitada no sofá, então seria difícil encontrar um apoio diferente da mão para a tela. “Talvez em 10% das fotos as modelos seguram o celular. Na grande maioria das vezes, ele está posicionado longe, a pessoa não consegue nem acessá-lo. Está modelando enquanto eu clico.”
Apenas em um dos ensaios Leca contou com uma ajuda extra. A atriz Mariana Rios pediu para o noivo segurar o celular enquanto posava para a tela na cama, nua, enrolada no lençol.

O ensaio virtual com Mariane Calazan rendeu cliques inusitados. Já no fim, Leca pediu para a modelo mostrar a vista da sua janela, em um apartamento em São Paulo. Mais uma vez, o céu azul “maravilhoso”, sem nenhuma nuvem, apareceu, só que em um ângulo diferente. “Pedi para a Mari esticar o braço para fora da janela e levantar o queixo. Ela estava segurando o celular, mas não enxergava nada”, descreve. Na foto, vemos ao fundo da modelo a fachada branco do prédio em contraste com o céu azul.

Intervenções

Na maior parte do tempo, Leca faz os cliques usando o próprio aplicativo da chamada de vídeo. Pode ser no computador, notebook ou tablet, depende da sua movimentação. Mas ela também fotografa, com a sua câmera profissional, a tela do equipamento em uso. Nestes momentos, consegue fazer intervenções nas imagens. Por exemplo, Celina Locks estava em um jardim, posando com uma flor branca que encantou a fotógrafa. Foi quando ela teve a ideia de levar o seu tablet para o jardim e o verde da sua casa serviu de fundo para a foto da modelo.

Mariane Calazan(foto: Leca Novo/Divulgação)
Mariane Calazan (foto: Leca Novo/Divulgação)

O mesmo aconteceu com o Gabriel Gontijo, com a diferença de que a fotógrafa usou um tecido para criar um efeito entre a lente da câmera e a tela do tablet. O publicitário e influenciador digital, até agora o único homem a participar do projeto, gostou muito do resultado. “Achei genial a ideia de fotografar pelo celular e tablet e depois ambientar a tela”, comenta.

Apesar do ineditismo, Gabriel conta que não teve dificuldade de se soltar no ensaio virtual, até se divertiu. Durante os cliques, ele e a fotógrafa iam explorando os ambientes da casa, primeiro a sala, com quadro ao fundo, e depois a varanda, para aproveitar a luz do dia. Tudo sem nenhuma produção. “Estamos vivendo numa época de simplicidade e acho que a Leca conseguiu dar esse tom para as fotos, valorizar a pessoa em vez de valorizar produto. Obviamente o cenário é novo, mas acredito que esse formato vai ser mais usado em trabalhos comerciais”, aponta.

Celina Locks(foto: Leca Novo/Divulgação)
Celina Locks (foto: Leca Novo/Divulgação)

Leca percebe um certo estranhamento dos modelos ao posar para um celular. “As pessoas estão acostumadas a posar para um fotógrafo, agora só ouvem uma voz conversando com elas em um ambiente vazio”, observa. Superado isso, depois de alguns cliques, ela não enxerga tanta diferença entre ensaios presenciais e virtuais. O que mais chama a atenção, na opinião dela, é o fato de que a pessoa que está sendo fotografada tem mais trabalho, porque precisa ajudar ativamente no posicionamento do celular.


Sem prazo

O projeto Closer não tem prazo para terminar. Para a fotográfa, é uma realização continuar trabalhando, mesmo que a distância. “O que acho mais legal é a possibilidade de me conectar com pessoas tão distantes, como a Ari Westphal, que está em Londres. Qual seria a próxima vez em que a fotografaria pessoalmente?”, observa. De BH, ela já fotografou pessoas em São Paulo, Rio de Janeiro, Angra dos Reis, Florianópolis e, indo mais longe, Londres e Nova York.

Mariana Rios(foto: Leca Novo/Divulgação)
Mariana Rios (foto: Leca Novo/Divulgação)

Segundo Leca, esta será, possivelmente, a nova linguagem da moda por um tempo, tanto que já surgiram demandas de marcas para fazer campanhas neste formato. Na primeira, ela fotografou três modelos, cada uma na sua casa. “É claro que as marcas precisam fazer lookbook para mostrar os produtos de forma mais técnica, mas, pensando em conceito e campanha, sem dúvida vejo isso acontecendo nos próximos meses”, diz. “Acho que esta linguagem, além de bonita, tem um significado muito forte e mostra que a marca está conectada com a atualidade.”

Com 15 anos de carreira, a modelo Bruna Boechat, que viaja muito a trabalho, nunca imaginou que seria possível ser clicada a distância, e pelo celular. Mas ela topou na hora o convite e amou a experiência. “Achei muito legal a possibilidade de fazer algo novo sem sair de casa”, comenta. Em muitos momentos, a tela estava virada para trás e ela não tinha ideia do que se passava.

Com o cabelo natural, sem maquiagem, Bruna posou para as fotos de sua casa em BH. Apaixonada por fotografia, ela ajudou na escolha dos cenários e fez gambiarras para posicionar o celular no melhor ângulo. Em uma parte do ensaio, a tela ficou em cima de banco apoiado na mureta da área externa. A modelo concorda que este será o novo formato dos ensaios de moda. “Acho complicado nesse momento voltar ao trabalho da forma como que era antes, o tempo todo temos muito contato com a equipe, maquiador, stylist. Acho, sim, que vamos ter que nos acostumar a fotografar a distância”, opina.


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