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Estado de Minas FASHION REVOLUTION

Revisão de valores

Atemporalidade de produtos, desaceleração dos processos da cadeia produtiva e valorização do conceito de sustentabilidade estão entre os pilares que sustentarão a moda pós-Covid-19


postado em 17/05/2020 04:00

Norberto Resende(foto: divulgação)
Norberto Resende (foto: divulgação)


“Como a pandemia, com seus inexoráveis impactos sociais, políticos e econômicos, pode ajudar a pensar e repensar novos valores e mudanças para a cadeia produtiva da moda mineira?” Essa pergunta foi enviada a vários jornalistas e agentes da moda locais dentro de uma campanha divulgada nas redes sociais por ocasião da Fashion Revolution Belo Horizonte (FRBH), realizada virtualmente no fim de abril.
 
Impedida de ocorrer fisicamente,  a jornalista e professora Valéria Said e Lívia Monteiro, organizadoras da semana na capital mineira, usaram os recursos digitais disponíveis para não deixar a data passar em branco e destacar pontos importantes do movimento, cada dia mais difundidos, como ética,  slow fashion, sustentabilidade, moda circular, transparência na comunicação das marcas, políticas públicas para o setor, entre muitos outros temas que vão ganhando terreno a partir da exaustão dos velhos modelos professados até então.
 
(foto: divulgação)
(foto: divulgação)
 
 

"Haverá uma acelerada revisão drástica de valores agregados ao campo da moda. O ativo mais valoroso pós-Covid-19 será a criatividade"

Valéria Said

 
 
Os sinais estão em toda a parte e o surgimento da Covid -19 contribui para que eles avancem. Um deles veio de Giorgio Armani, que, em meados de abril, publicou uma carta visceral, onde ponderava: “O declínio do sistema da moda, como o conhecemos, começou quando o setor de luxo adotou os métodos operacionais de moda rápida com o ciclo de entrega contínuo, na esperança de vender mais… Não quero mais trabalhar assim, é imoral. Não faz sentido que minhas jaquetas ou roupas, que ficam na loja por três semanas, tornem-se imediatamente obsoletas e sejam substituídas por novas mercadorias, que não são muito diferentes das que as precederam...”, alertou, alegando, ainda, que é necessário que o setor desacelere e acabe com o desperdício.
 
Editorial Híbridos da marca Norb(foto: Agência Fotosite/divulgação)
Editorial Híbridos da marca Norb (foto: Agência Fotosite/divulgação)
 
 
Muito antes, em 2015, Li Edelkoort, uma das mulheres mais influentes no mundo da moda, já havia profetizado ideias semelhantes em seu Manifesto Anti-fashion. No texto, a trendhunter holandesa afirma que o sistema da produção de moda contemporâneo está obsoleto e pressagia que a tendência para o século 21 é a sustentabilidade como contracorrente a um consumo ir- responsável. Li também denuncia a indústria do fast fashion, sinônimo do “compre e jogue fora”.
 
Justamente essa seara – o fast fashion – gerou o embrião para o início do Fashion Revolution (FR), que se espalhou por cerca de 90 países. O ponto de partida foi a quarta maior tragédia da indústria da moda, ocorrida em 2013, em Bangladesh, quando o edifício Raza Plaza, que abrigava cinco fábricas de confecções de roupas, desabou e matou 1.138 trabalhadores, deixando outras 2.500 pessoas feridas, em sua maioria mulheres jovens e crianças.
 
Valéria Said explica que ativistas dos direitos humanos tiveram que pesquisar as etiquetas pelos escombros para provar quais marcas foram corresponsáveis pelo desastre. Daí a premência de repensar a cadeia produtiva e de suprimentos de moda e também uma urgente política de transparência e de prestação de contas por parte das mesmas. “O movimento global Revolution existe desde 2014 e incentiva mais transparência, sustentabilidade e ética nessa indústria A partir daí, grandes empresas do gênero fast fashion, como a espanhola Zara, a sueca H&M e a holandesa C&A, cujas etiquetas estavam nos destroços do Raza Plaza, passaram a rever suas políticas de comunicação com o público a respeito das suas práticas sociais e ambientais com fornecedores e trabalhadores”, observa.
 
A notícia de que elas, entre outras, mantinham funcionários trabalhando em condições análogas à escravidão ganhou o mundo, particularmente a partir da tragédia de Bangladesh, manchando a reputação das mesmas.
 
Roupas atemporais e produção slow fashion na Lóris(foto: marcos cardoso/divulgação)
Roupas atemporais e produção slow fashion na Lóris (foto: marcos cardoso/divulgação)
 
 
Segundo a jornalista, no início de 2018, 64 grifes, inclusive as três citadas, comprometeram-se a tornar sua produção o mais sustentável possível até 2020, de acordo com a Global Fashion Agenda/2018, além de se esforçar para publicizar a rastreabilidade das suas roupas, isto é, a divulgação da lista de fábricas, instalações de beneficiamentos e fornecedores, além de mitigar questões relacionados ao dumping social – precarização do trabalho com o objetivo de reduzir custos e aumentar a competitividade no mercado – e impactos ambientais, conforme o Índice de Transparência da Moda de 2017, produzido pelo Fashion Revolution em parceria com um comitê pró-bono de especialistas do setor.

Debate Valéria enfatiza que um dos objetivos da realização da semana FR é colocar esses assuntos, entre outros, na pauta de discussão da imprensa. “Cada país foi se adaptando de acordo com suas singularidades e processos de fabricação.” No Brasil, porém, o trabalho tem sido desafiador – das 20 marcas nacionais indicadas, no ano passado, para participar do Índice Brasileiro de Transparência, metade nem respondeu ao questionário enviado pelos organizadores. “Ainda é difícil para elas adotarem a transparência na comunicação e passar informações que são de interesse público”, afirma.
 
Esse foi um aspecto abordado no evento de BH. Para incentivar tal comportamento, foram feitas algumas perguntas: Como sua marca pratica a transparência na comunicação com seus fornecedores e parceiros?; Qual a composição de suas roupas e como tem dirimido seus impactos na saúde de seus funcionários, do solo e das águas?; Qual a sua ação sobre reaproveitamento de resíduos têxteis?.
“Oferecemos divulgação de ações locais na rede de comunicação do FR para dar visibilidade e ações de marca, associações e iniciativas governamentais de combate à disseminação do coronavírus por meio da moda, além de divulgar reflexões acerca de novos valores e processos alternativos para a cadeia produtiva do setor mineiro pós Covid-19: socialmente justa, ambientalmente correta, economicamente viável, eticamente transparente e esteticamente criativa e admirável”, frisa a jornalista.
 
Os temas abraçados pelo movimento são amplos. Entre eles, a questão dos resíduos têxteis, cuja responsabilidade pelo descarte correto no meio ambiente deveria ser do fabricante. “O consumidor deveria devolver a peça usada ao comerciante e este, por sua vez, para o fabricante, que vai saber fazê-lo de acordo com a composição de materiais usados naquela roupa. É um trabalho de conscientização, a imprensa teria que ter responsabilidade de contribuir para isso.”
 
Ao redor dessas ideias, outros nichos vêm crescendo e se destacam, como o dos pequenos produtores, que flertam cada vez mais com conceito de comunidade, o mercado dos brechós e de roupas compartilhadas, as lojas de aluguel, os outlets. A pluralidade estará em voga privilegiando a diversidade, o agênero, o plus size, a criação fashion para cadeirantes.
 
“Estamos cientes de que haverá uma mudança radical de comportamento e uma inevitável desaceleração do consumo, com transformações profundas, não só pelos impactos globais da recessão econômica, mas promovendo uma acelerada revisão drástica de valores agregados ao campo da moda. O ativo mais valoroso pós-Covid-19 será a criatividade”, assegura Valéria.

Slow fashion Enquanto grandes lojas de departamento, como a Neiman Marcus e a J. Crew, saem do mercado, causando perplexidade, o movimento do slow fashion vai se fortalecendo por meio de pequenos produtores, que ficam longe dos esquemas tradicionais do mercado. Esta será uma tendência forte daqui para a frente. Exemplo é Norberto Resende, de 25 anos, um estudante de moda que lançou sua marca, a Norb, em 2017, a partir dos conceitos de atemporalidade, inclusão, sustentabilidade, com foco no comércio local e trânsito entre os gêneros.
 
Em outubro do ano passado, suas criações desconstruídas foram escolhidas por Paulo Martinez para abrir e fechar o desfile coletivo do Minas Trend. Mas, antes disso, a marca já tinha estado presente na edição anterior da feira, selecionada para participar de um estande coletivo da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemig), na safra de novos talentos. Seu trabalho impressionou e ele recebeu premiação da Fiemg e da Apex para participar de uma imersão de uma semana na Esmod, em Nova York, a primeira escola de moda do mundo, com direito a visitas técnicas ao ateliê de bordados da Dior e no de Louboutin, entre outras experiências. “Das 30 empresas que foram, a Norb foi considerada a mais preparada para o mercado pela sua diferenciação. Aconselharam que eu procurasse o Bon Marché, mas ainda é cedo para isso”, admite.
 
De origem humilde, Norberto é daqueles que correm atrás de tudo: se precisar, senta-se à máquina e costura – aprendeu com a mãe, costureira no Espírito Santo. Recentemente, vestiu artistas em voga, como Duda Beat, Gaby Amarantos e Pablo Vitar. Tem patrocínio da Cedro: as sarjas e jeans que usou na coleção House of Norb, no Minas Trend, vieram da empresa. É patrocinado também pelo Estudio 1 Incomum, referência em estamparia em Belo Horizonte. Quanto à distribuição das roupas, ela é feita entre amigos, admiradores, clientes do Instagram. “Consigo vender tudo que eu faço”, ressalta o estilista, que começou o negócio com capital de R$ 1 mil, garimpando tecidos baratos em algumas lojas de Contagem, e reaplicando o lucro. “Minha moda é autoral. Acredito que estamos passando por uma época de recolhimento em que o consumo será repensado, assim como questões relacionadas com sustentabilidade e meio ambiente. Vou me preparar para isso.”

Lóris Flávia Oliveira Souza é advogada com mestrado em Lisboa, comanda um escritório de direito internacional, mas resolveu dar vazão a um outro lado que estava latente dentro dela. A influência de ter mãe costureira, o fato de ter aprendido a costurar aos 8 anos autodidaticamente e o potencial para exercer uma outra atividade pesaram bastante na decisão. E foi assim que a Lóris se materializou.
 
Nasceu em 2017, com a proposta de produção pequena, colaborativa, afastada das tendências do calendário. “São peças com modelagens amplas, que podem ser usadas por homens e mulheres de qualquer idade”, ressalta a dublê de advogada e estilista. Vislumbrando o futuro, Flávia crê que o slow fashion é um movimento sem volta. “O impacto deste vírus vai ser grande na humanidade, mas também será positivo. Haverá uma corrente de pessoas voltadas para os pequenos produtores, preocupada com a origem das peças e se perguntando quem está por trás da produção”, ela resume.

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