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Estado de Minas ENTREVISTA/LíGIA COLUCCI - 43 ANOS, MéDICA

Chamada para a medicina

Médica explica como estresse afeta o organismo, principalmente pele e cabelos


postado em 10/05/2020 04:00

(foto: João Avelino/divulgação)
(foto: João Avelino/divulgação)


De criança tímida, que sempre gostou muito de história, Lígia Colucci acabou se tornando médica por influência de uma tia. Queria se especializar em otorrino, mas, de novo, o destino a encaminhou para outra especialidade: dermatologia. Hoje, tem sua clínica, e a tímida menina agora encara auditório com mais de dois mil médicos dando palestras e treinamento de técnicas avançadas, a convite das fabricantes de maquinários de última geração, dos quais ela é referência no uso, aqui no país. Atualmente, com o isolamento social, tem atendido a muitos casos de problemas de pele e queda de cabelo devido ao estresse e à ansiedade causados pela situação do momento, principalmente em pessoas mais jovens.
 
Como foi sua infância?
Sempre fui mais tímida e introvertida. Fico impressionada hoje quando me vejo dando aula em um auditório para mais de duas mil pessoas. Penso: Como essa menina consegue subir no palco e falar por uma hora?. A gente vai trabalhando, amadurecendo nossas características. Eu sempre fiquei em casa brincando com minhas bonecas, nunca fui a garota popular.

Quando decidiu fazer medicina?
Nunca pensei em ser médica, apesar de ter muitos médicos na família da minha mãe, inclusive uma tia, que é dermatologista. Ela acabou sendo uma influência positiva. Eu gostava das matérias básicas, era boa em biologia e química. A gente escolhia a área para qual ia prestar vestibular pelas matérias em que  éramos bo- as, e por isso acabei indo para  medicina, apesar de gostar muito de história. Sempre estudei muito o passado porque  aprende muito com ele. Depois que entrei para a faculdade é que realmente despertou meu amor pela profissão. Acho que a gente não escolhe,  é chamado, quando escolhemos, muitas vezes, não é o que estávamos esperando, acabamos mudando de curso e decepcionando. Quando entrei na faculdade só pensei em me especializar em dermatologia depois que me formei.

Como foi isso?
Quando estamos na faculdade a anatomia é no primeiro ano. Nos anos subsequentes eu fui monitora de anatomia, ajudando os alunos. Fiquei praticamente seis anos na anatomia, e os professores da Ciências Médicas eram todos otorrinos e cirurgiões de cabeça e pescoço. Fui atraída para isso. Quando me formei fiz todas as provas para essa área.

O que mudou?
Não existe coincidência, mas providência. Passei nas provas teóricas, mas não passei nas entrevistas, provavelmente porque viram que meu perfil não tinha nada a ver com otorrino. É o que falei antes: não é a gente que escolhe,  é escolhido. Aí minha tia que é dermatologista, na época era chefe do serviço de dermato em Juiz de Fora, me chamou para ajudá-la. Aceitei e quando comecei a trabalhar na área vi que era o que eu gostava. Fiz as provas para a residência e passei em todas.

Dentro da dermatologia atua em tudo?
No início, atendemos tudo. Não quer dizer que não faço tudo, mas tenho uma paciência maior com as queixas estéticas, então, acabo atuando mais nessa área, porque fui mais procurada para isso. É aquela história, a gente é escolhida. Não é estética por estética, é você se sentir bem com você mesma. O maior órgão que temos no nosso corpo é a pele, então estamos melhorando o que é mais visto. Ao curar ou melhorar algumas doenças de pele – porque algumas doenças não curam – estamos melhorando o bem-estar com a gente e no relacionamento com o outro. Traz um bem-estar físico, mental e social.

Atualmente dá aulas e palestras. Como venceu a timidez?
Começou na monitoria na faculdade. Os monitores ajudam o professor a dar aula para facilitar os alunos nas mesas. Temos que preparar as aulas. Sempre fui muito inovadora na clínica. Há uns 13 anos, quando houve lançamento das novas técnicas de tratamento de rejuvenescimento para o rosto – e eu fui uma das primeiras a usar essas técnicas –, me tornei referência na área e passei a treinar os colegas a pedido da própria indústria, que me convidou para dar os treinamentos. Essa prática acabou quebrando ou superando minha timidez.

Com que idade devemos começar a cuidar preventivamente contra o envelhecimento?
Devemos nos cuidar desde que a gente nasce. Desde a idade que já se pode usar protetor solar. O cuidar é proteger a pele do sol, ter uma alimentação saudável. A genética é responsável por 30% das alterações da pele ao longo da vida, os outros 70% são resultado de hábitos como alimentação, sol, cigarro, sono, estresse, ou seja, o envelhecimento extrínseco, que vem de fora. Quando a pessoa nos procura é porque está incomodada. Se não procura é porque está se sentindo bem. Quando me formei há 20 anos, minha mãe tinha 40 e poucos anos e tinha feito uma plástica no rosto. Hoje, isso é um absurdo, existem vários tratamentos a serem feitos para regenerar a pele e as substâncias que perdemos com a idade e com isso conseguimos protelar a necessidade de um lifting (plástica de face) para 60 a 65 anos. Conseguimos atrasar 20 anos.

Qual a idade ideal para começar a se tratar, para retardar o envelhecimento?
O ideal é começar cinco anos antes da menopausa, ou até mais cedo. Quanto mais cedo melhor, mas o importante é não estigmatizar de forma que exagere e acabe deixando de ser quem você é. Quando a mulher entra na menopausa perde 30% de colágeno. A partir dos 30 anos perde 1% de colágeno por ano. Com 40 anos já perdeu 10%. Vamos supor que vai entrar na menopausa aos 50 (então já perdeu 20%), dos 50 aos 55, mais 30%. Isso vale também para homem, só que a perda deles é mais tardia e em menor percentual. Se começamos a perder colágeno a partir dos 30, o ideal é começar a cuidar nessa idade ou um pouco mais cedo, dependendo dos hábitos de vida da pessoa. Se fizer a conta, fica deprimida, mas não precisa desesperar porque tem jeito de criar colágeno novo.

Como se cria colágeno novo?
Tem vários procedimentos, desde lasers que vão trabalhar na camada mais superficial da pele; ultrassom microfocado, que vai trabalhar na camada mais profunda, muscular, da pele; e intermediária, onde temos mais colágeno (derme) e entre essas duas camadas temos o recheio, que são o músculo e a gordura do rosto. Tem uma comparação que gosto muito de fazer. Quando a pele está muito flácida e a puxamos, só tem 4mm de espessura, é como um sofá, a pele é a capa. Mas o sofá também tem molas e espuma. As molas são os músculos e a espuma é a gordura. Se quero melhorar o sofá posso renovar a espuma, controlar as molas, que podem estar desreguladas, e posso melhorar e clarear a capa. A estrutura de ferro do sofá, que é o osso, não tem como trocar, mas é possível segurar o processo de envelhecimento dela com tratamento, e às vezes, com ajuda de medicação. Como tratar a mola? Botox. Para a espuma temos o ácido hialurônico, que devolve o que foi perdido, e um bioestimulador de colágeno que devolve a elasticidade. Os tratamentos se complementam. Não dá para fazer um só. Se tratar a espuma e deixar a capa velha, ninguém verá a diferença.

E o preenchimento?
Cada vez estamos tratando menos a área central do rosto, que é onde vemos os exageros, o bochechão, o bocão. Estamos focando mais na lateral, tratando muito a lateral, que é a chave para o rejuvenescimento natural. E depois partimos para a área central.
O que acha da bichectomia?
É uma cirurgia que vai tirar uma gordura que não fará diferença no emagrecimento do rosto. Essa gordura é importante para o processo de envelhecimento do rosto. Quem retira, no futuro terá um rosto mais flácido. Os maratonistas, por exemplo, têm o  rosto mais chupado porque consumiram essa gordura. Ela ajuda no deslizamento muscular dessa região do rosto. Ela se perde naturalmente no envelhecimento. Quando envelhecemos, perdemos gordura do rosto. Temos outros procedimentos para afinar o rosto, em cima de análise do rosto de cada paciente, porque fazemos o assessement do rosto do paciente, a expectativa dele, o que podemos fazer, quais os meus limites e os limites do rosto dele.

Tem percebido problemas depois do isolamento social?
Mais crises de herpes e até herpes-zóster. Só na semana passada foram dois casos em pessoas jovens, o que é raro, e isso comprova ser por estresse. Alergia, dermatite pelo uso excessivo de álcool em gel e lavagem constante das mãos. Pele muito seca e trincando, toda cortadinha. E queda de cabelo. As pessoas estão ficando muito estressadas, e estão com muita queda de cabelo. Tem como tratar. Existem vários tratamentos de boa qualidade, com altos índices de resultado, mas eles demandam paciência e empenho. Parte do tratamento é feito no consultório/clínica e parte tem que ser feita em casa, mas os pacientes não têm disciplina de fazer o tratamento que o dermatologista passa para fazer em casa. Fazem só o do consultório/clínica e querem o mesmo resultado. Tratar cabelo, dependendo do caso, é igual tratar pressão alta, diabetes, e melasma, é para a vida toda. Essa é a parte ruim. Tudo depende da avaliação feita em consultório.

Quando o tratamento é feito corretamente, qual o percentual de recuperação?
Alcançamos uma recuperação mínima de 30%, mas a maioria chega entre 50% a 60%. Mas depende de quanto tempo é a perda do cabelo, a genética do paciente, e o quanto de cabelo já foi perdido. E a base da doença capilar da pessoa. Se nunca teve queda e ela surgiu agora por causa do estresse, acabando o estresse a chance de recuperação total é enorme.

E com relação às unhas?
Unhas fracas e quebradiças pode não ser doença, pode ser envelhecimento da unha. Pode ser de doença interna? Pode. Falta de nutrientes? Pode. Doença da unha? Pode também. Tem que ser examinado. Se for só problema de fragilidade da unha, pode pôr unha de gel. Se a unha tiver boa, dura, tudo bem. Colocar unha de gel é como colocar lente de contato no dente, tem que desgastar o dente para colocar. A unha de gel é a mesma coisa. O dente não volta ao normal. A unha tem a vantagem de crescer nova. O problema é que alguns pacientes tiram as unhas de gel antes de elas saírem e ficam com a unha toda quebrada, isso é bem danoso. Outro problema é colocar unha de gel em cima de uma unha fraca, você vai estragar mais ainda a sua unha.

Existe tratamento estético para unha?
Somos a única clínica que tem Lunula Laser, um laser a frio que não esquenta a unha, é um tratamento indolor, age na matriz da unha, fazendo com que cresça mais forte e se tiver alguma micose trata também. E ajuda bastante quem tem psoríase, porque trata a matriz da unha, fazendo com que tenha um crescimento melhor, mais ordenado e forte. Mas precisa de oito seções, semanais. Tanto no tratamento capilar quanto no tratamento da unha o paciente demora para ver o resultado, é preciso ter paciência.

Esse laser cura psoríase também?
Esse laser não. Psoríase não tem cura. Temos medicamentos imunológicos para um controle mais efetivo, pois age na causa da doença. Não cura, mas diminui muito, são injetáveis, intravascular, e o convênio cobre, a Secretaria do Estado custeia, porque é muito caro. Tem o laser que é o mesmo para vitiligo, que também ajuda muito, mas este não faço.

As pessoas  estão engordando com a quarentena. O que tem para ajudar nessa questão quando acabar este período?
O ideal é um regime e malhação, mas tem o Scoolpcuting, que é uma máquina que trata de gordura localizada, e somos referência nacional e internacional. Ele elimina células de gordura, como se fosse uma lipo sem cirurgia, dentro das suas proporções. Não é um aparelho de emagrecimento, é um aparelho para tratar aquela gordura que mesmo com exercício físico e dieta não se consegue tirar. Até mesmo quem faz crossfit, atleta, etc. Não tratamos a gordura localizada, mas o desejo do paciente de se sentir bem dentro das suas roupas. O resultado depende da área e do número de ponteiras que precisam ser usadas. Dependendo, resolve em uma seção só, mas pode também fazer duas ou três. Cada paciente é único e depende da avaliação médica.

Quais são seus planos?
No fim de maio, início de junho mudo para um novo espaço, bem maior do que ocupo atualmente. Estou no Santo Agostinho e continuarei lá, mas em outo prédio. Estou em uma clínica boutique, menor. Na nova clínica pretendemos colocar ginecologista para olhar a questão do envelhecimento das partes íntimas, e nutróloga. Sou referência na parte corporal e preciso de uma área maior para o trabalho das fisioterapeutas, a distribuição de setores ficará melhor, e poderemos oferecer uma experiência melhor para os pacientes. 

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