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Estado de Minas

A força do coletivo

Diante da necessidade de toda a população se proteger contra o coronavírus, empresas de moda se unem para produzir e distribuir voluntariamente máscaras. Meta é chegar a um milhão


postado em 19/04/2020 04:00 / atualizado em 18/04/2020 21:44

A equipe da marca Sonia Pinto contribui com a campanha
A equipe da marca Sonia Pinto contribui com a campanha "Um milhão de máscaras" (foto: Álvaro Fráguas/Divulgação)


Um exército numeroso está na guerra contra o coronavírus. Empresas de moda de Belo Horizonte enfrentam a pandemia com as armas que estão ao seu alcance: tecido, linha e costura. Com a produção de roupas paralisada, elas usam a força da criatividade e do coletivo para produzir voluntariamente máscaras que são úteis para que pessoas comuns se protejam contra a doença. A questão é que enquanto a procura por estes equipamentos aumenta, a matéria-prima fica cada vez mais escassa.
 
Uma das iniciativas é o movimento “Um milhão de máscaras” (1MM), do qual participam mais de 100 empresas e 40 costureiras autônomas. A meta é ousada, mas funciona como um estímulo para a produção em todo o estado, tanto que não existe um prazo determinado. “Criamos um movimento de conscientização para que outras cidades se engajem para produzir máscaras e entrem no nosso contador. Queremos inspirar pessoas e empresas”, destaca a professora de moda Gabriela Marcondes Schott, curadora da Ecomaterioteca, que cataloga tecidos sustentáveis. Ela é uma das coordenadoras da campanha, que começou com um pedido de ajuda do comitê de crise do governo para a professora Rita Engler, da Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg).
 
Costureira da marca Isabella Paes produz máscaras de proteção de TNT contra o coronavírus(foto: Isabella Paes/Divulgação)
Costureira da marca Isabella Paes produz máscaras de proteção de TNT contra o coronavírus (foto: Isabella Paes/Divulgação)
 
 
O movimento trabalha em três frentes, entre elas a produção de máscaras de “tecido não tecido” (TNT) para distribuir a pessoas que trabalham na administração, copa, recepção, segurança e outros setores de hospitais, além de visitantes e pacientes não infectados por coronavírus. Já foram entregues 11 mil unidades ao Hospital Municipal São Judas Tadeu, em Ribeirão das Neves, Ipsemg, Instituto Mário Penna, Santa Casa de Belo Horizonte e Faculdade Ciências Médicas. Mais 100 mil estão em produção.
 
Em paralelo, as empresas confeccionam máscaras de tecidos diversos (malha, algodão, poliéster) que serão doadas para asilos, trabalhadores de serviços essenciais e comunidades carentes. Na Uemg da Praça da Liberdade, funciona um balcão de tecidos que conecta quem doa com quem está interessado em produzir. Outra frente de trabalho usa o SMS (outro tipo de “não tecido” usado especificamente para embalar instrumentos do bloco cirúrgico). “Reaproveitamos esses resíduos, que eram jogados no lixo contaminado, para fazer máscaras para a equipe médica”, explica. Os hospitais entregam as sobras de SMS e recebem de volta os equipamentos de proteção prontos.
 
O estilista Luiz Cláudio Silva, da marca Apartamento 03, é um dos parceiros na produção de máscaras(foto: Álvaro Fráguas/Divulgação)
O estilista Luiz Cláudio Silva, da marca Apartamento 03, é um dos parceiros na produção de máscaras (foto: Álvaro Fráguas/Divulgação)
 
 
Somando financiamento coletivo e depósito em conta, o 1MM arrecadou em torno de R$ 40 mil. Para alcançar a meta, eles precisam de R$ 700 mil, considerando que pagam R$ 0,50 para as costureiras por cada máscara e R$ 0,20 de imposto para retirar o dinheiro da conta. “Todo mundo pode sair da inércia e ajudar de alguma forma. Se conseguirmos tecidos, empresas engajadas, mão de obra e dinheiro, fazemos quantas máscaras forem necessárias. Vontade não falta”, diz Gabriela.
 
O alerta veio de um amigo médico que está no Canadá: a indústria têxtil vai ter que ajudar fazendo materiais de proteção para os profissionais de saúde. Bem cedo, Pedro Rabelo, responsável pelos setores comercial e de marketing da marca de jeans Cláudia Rabelo, começou a pesquisar sobre o assunto e, vendo a escassez do TNT cirúrgico, indicado para quem tem contato direto com infetados, decidiu trabalhar com o TNT normal. “Os médicos não podem usar esse material, mas ele serve para a administração do hospital, acompanhantes e pacientes que acabam de chegar.”
 
As máscaras são doadas para hospitais, clínicas, asilos e pessoas em situação de vulnerabilidade(foto: Isabella Paes/Divulgação)
As máscaras são doadas para hospitais, clínicas, asilos e pessoas em situação de vulnerabilidade (foto: Isabella Paes/Divulgação)
 
 
A marca começou sozinha a produção de cinco mil máscaras. Desenvolveu o molde na fábrica, que está em férias coletivas, e distribuiu o material para as costureiras terceirizadas. No meio do processo, Pedro se juntou à Plural e Isabella Paes e uniu forças com Rita Engler, que já havia recebido o chamado do estado. “Começamos a discutir ações, foram surgindo mil ideias e, nessa conversa, já conseguimos material para produzir 70 mil máscaras. Foi a primeria vez que consegui trabalhar sem planejamento”, destaca Pedro, que participou do início do movimento 1MM.
 
Finalizadas as cinco mil primeiras máscaras, a equipe da Cláudia Rabelo agora administra corte, costura e distribuição de parte das mais de 100 mil unidades em produção. Já prevendo escassez do TNT em BH, eles devem, em breve, partir para o uso tecidos e sobras das fábricas. “A indústria da moda mudou para atender a uma demanda urgente, o que é muito bom. Vejo que existe senso de coletividade, preocupação com o outro e muita gente disposta a ajudar”, observa Pedro.
 
Cinco amigas que atuam no mercado da moda se juntaram para criar a campanha “Costura do Bem”, que tem o objetivo inicial de produzir 24 mil máscaras de TNT. “Não pensamos em uma meta grande, porque, a princípio, queríamos atender a dois hospitais filantrópicos: a Fundação Hospitalar Nossa Senhora de Lourdes, em Nova Lima, e o Hospital Monsenhor Horta, em Mariana (a minha cidade natal, que já tem casos confirmados)”, explica a estilista Denise Valadares, que soma esforços com as marcas Sibele Barony, Chris Gontijo, Jessica Andrade e Prisma Semijoias.
 
Para produzir as máscaras, as amigas tiveram que comprar 1,2 mil metros de TNT. O modelo, indicado por um infectologista, tem ferrinho para moldar o nariz. A etapa de corte se concentrou num lugar só (uma fábrica de etiquetas parceira) e a produção se divide entre cerca de 20 costureiras terceirizadas. “Além de fazer o bem, estamos movimentando a nossa cadeia produtiva e ajudando pessoas que precisam do trabalho para sobreviver. Pagamos R$ 0,50 por máscara para gerar renda e não deixá-las paradas”, observa. O grupo também conta com a ajuda de avós e mães de amigas que, segundo Denise, “querem ser úteis e passar o bem adiante”. A expectativa é entregar as 24 mil máscaras até o fim do mês.

NOVA META A campanha já arrecadou R$ 11 mil em dinheiro e se organiza para lançar nova meta. O problema é que os materiais estão escassos. “Estamos tentando TNT cirúrgico para a proteção de médicos que estão em contato com pacientes infectados, mas está escasso. É um cenário de guerra.” Denise já tinha até adiantado o pagamento a uma fábrica do Sul, mas a empresa devolveu o dinheiro porque não vai conseguir atender ao pedido de novos clientes. As amigas consideram produzir máscaras com tecidos doados e sobras de materiais das fábricas.
 
Para a estilista, toda esta mobilização deixa lições. “Acho muito legal a união dos empresários de moda. A pandemia tem um propósito de nos desacelerar, de nos fazer enxergar o próximo, de mostrar que temos preocupações maiores que o consumo desenfreado.”
 
Com a produção paralisada, Marcella Mafra, uma das idealizadoras da marca Libertees, que trabalha com detentas do Complexo Penitenciário Feminino Estevão Pinto, começou a pensar em uma solução para a falta de máscaras. Daí surgiu a campanha “Máscara do Bem”, que tem a meta de arrecadar R$ 10 mil para a produção de 2,5 mil unidades para a população em situação de vulnerabilidade. “Fiz um apelo para que deixassem os equipamentos de proteção para os médicos, eles que vão cuidar da gente, e resolvi ajudar trabalhadores de serviços essenciais, presidiários e algumas comunidades”, conta.
 
As máscaras seguem critérios da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Segundo Marcella, o tecido tem que ser 100% algodão. Além disso, deve ser resistente e leve ao mesmo tempo, para que permita a respiração sem sufocamento e seja lavado a cada uso. Utiliza-se, ainda, linha e elástico. Escolhidas as estampas, o dono da loja de tecidos envia a remessa diretamente para o corte. “O cotador passa para a minha gestora de produção, que está trabalhando de casa. Ela separa a quantidade para cada costureira, o motoboy faz as entregas e recolhe quando está pronto”, detalha.
 
Marcella e a sua sócia, Daniela Queiroga, estão perto de alcançar a meta inicial: já conseguiram doação de quase R$ 9 mil através de financiamento coletivo. Com esse dinheiro, a marca compra tecido e paga as costureiras. Cada máscara custa R$ 4, sendo que R$ 1 é para a costura. Como as detentas estão isoladas, para diminuir o risco de contaminação, e não podem continuar trabalhando, cerca de 20 costureiras parceiras participam da campanha. “Sinto uma paz no coração por estar fazendo este trabalho. A vontade de ajudar mais pessoas é grande, mas o dinheiro é curto”, diz Marcella.
 
Inicialmente, as máscaras vão para detentas da penitenciária onde funciona a produção da Libertees. Depois, serão doadas para trabalhadores de serviços essenciais, lar de idosos e comunidades carentes.


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