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Estado de Minas ENTREVISTA/DANIEL MARTINS DE BARROS - 43, ANOS PSIQUIATRA

O que podemos aprender?

Em vez de tentar se livrar das emoções negativas, experimente enxergar o lado útil delas


postado em 29/03/2020 04:00

(foto: Editora Sextante/Divulgação)
(foto: Editora Sextante/Divulgação)


Irritação, ansiedade, desesperança, medo. Nada estranho se ver diante de sentimentos negativos como esses em um momento de confinamento forçado dentro de casa, sem saber ao certo o que está por vir. Em vez de tentar se livrar destas emoções indesejadas, use cada uma delas ao seu favor. É o que ensina o psiquiatra Daniel Martins de Barros, autor do livro O lado bom do lado ruim. Com base em pesquisas científicas, o professor colaborador do Departamento de Psiquiatra da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Usp) mostra que as emoções ruins servem de alerta para algo que não anda bem em nossa vida e, exatamente por isso, não devem ser tratadas com indiferença ou sufocadas. Pelo contrário, Daniel defende que elas podem nos ajudar em diferentes situações. Por exemplo: a tristeza melhora a nossa capacidade de discernir a verdade da mentira, a ansiedade (na medida certa) tem impacto positivo na memória, o nojo protege a grávida e o feto de substâncias potencialmente nocivas presentes nos alimentos e a raiva nos ajuda em negociações. O primeiro passo é aprender a identificá-las.
 
Para começar, fale um pouco sobre você.
Sou psiquiatra de formação, mas a minha carreira me levou para a área de comunicação e divulgação científica. Comecei a escrever um blog, depois virei colunista de jornal e acabei indo falar em uma rádio e na televisão. Com isso, ocupei um espaço de comunicação de assuntos médicos, principalmente na linha da psiquiatria. Então, foi um caminho natural começar a escrever livros que levassem à reflexão sobre psiquiatria. Tenho 17 livros publicados, incluindo os técnicos. A universidade se pauta em três tripés: ensino, que é levar conhecimento aos alunos; pesquisa, que é gerar conhecimento; e extensão universitária, que é levar conhecimento para a sociedade. Uma das maneiras de contribuir com esse tripé é através da divulgação científica, é isso o que eu faço. Além de atuar com psiquiatra em consultório, levo conhecimento para as pessoas comuns. Faço esse papel da extensão universitária. As pesquisas têm conhecimentos superinteressantes para o dia a dia, mas ficam fechadas, são difíceis de entender. Quando você consegue traduzir para as pessoas, elas despertam a atenção.
 

As pesquisas têm conhecimentos superinteressantes para o dia a dia, mas ficam fechadas, são difíceis de entender. Quando você consegue traduzir para as pessoas, elas despertam a atenção.

 

Como e quando você percebeu que as emoções ruins poderiam ser tema de livro?
Fui percebendo a negação das emoções negativas, falar para o filho não ficar triste, não ter medo, não sentir raiva. Esse discurso um pouco ingênio, de que não se pode ficar com raiva, ter medo ou ficar triste, não dá certo. Comecei a pensar um pouco sobre isso e entender que estas emoções existem por alguma razão. Pesquisando, concluí que elas podem ser muito úteis para o nosso dia a dia.

Por que somos educados com esta ideia de que devemos estar sempre felizes?
Basicamente, porque ficar triste é chato. Então, não queremos sofrer e nem queremos que as pessoas que amamos sofram. Mas não adianta achar que tampar os ouvidos para não ouvir é a solução. Como falo no livro, não podemos desligar um alarme que está incomodando sem tentar entender o que está acontecendo. Precisamos aprender a entender os sinais.

Pelo que você observa no seu consultório, esta dificuldade de lidar com os sentimentos negativos é generalizada?
De forma geral, a nossa sociedade não gosta de prestar atenção em emoções ruins, então todo mundo acaba tendo dificuldade para lidar com elas, uns mais, outros menos. Quem tem mais dificuldade para discernir as emoções são aquelas pessoas que mais sofrem de depressão. As emoções negativas acabam tendo um impacto maior na nossa vida.

Qual é a sua relação com os sentimentos ruins?
De tanto pensar nisso, fui aprendendo a entender que eles fazem parte da nossa vida e que não podemos tentar ignorá-los. Precisamos entender o que estamos sentindo e por que para identificar a raiz do problema. Às vezes com mais ou menos sucesso, todo mundo pode e deve tentar fazer isso. Estamos falando de um exercício psicológico, uma habilidade que você pode desenvolver.

Como desenvolver essa habilidade?
Uma das primeiras e mais eficazes dicas é aprender a dar nome para o que você está sentindo. Falo de desenvolver um vocabulário para nomear se é medo, desânimo ou angústia. À medida que enriquecemos o nosso vocabulário, e isso só conseguimos com leitura, acesso à arte, romances, filmes, teatro, começamos a discriminar melhor o nosso mundo interior e conseguimos com menos dificuldade ter acesso ao que estamos sentindo.

Por que as emoções ruins são mais numerosas que as boas?
Alarme é para sinalizar um perigo. Você não coloca na estrada uma placa dizendo “estrada tranquila à frente”, vai colocar “cuidado, curva perigosa”. Ninguém instala um alarme na janela para saber quando ela está fechada, quer ser avisado se ela for violada. Como as emoções ruins são alarmes, elas mostram o que está acontecendo, então provavelmente precisamos de mais alarmes para nos proteger. No livro, listei as cinco emoções primárias, que estão presentes em praticamente todas as pesquisas. São elas: alegria, medo, tristeza, nojo e raiva. Achei que valia a pena falar de todas elas. O que trago de novo é a analogia do círculo das emoções com o círculo das cores para facilitar o entendimento.

O enjoo da grávida é um exemplo interessante de “alarme” do corpo.
Sim, mostra como as emoções podem ter até mesmo a função de proteger terceiros. Nesse caso, o nojo, que é uma emoção negativa, tem um efeito tremendamente positivo. Quando era moleque, dei de cara com um bacalhau no supermercado, vomitei na hora e fiquei décadas sem comer peixe. Isso ficou marcado na minha mente como um aviso da emoção de nojo que realmente funcionava como um alarme protetor. Foi o tempo mesmo que me ajudou a voltar a comer peixe.

Por que não devemos tentar nos livrar das emoções ruins? Quais são as consequências disso?
É muito ruim quando você nega as emoções, porque perde informações importantes. Às vezes você está se sentindo desconfortável, com um mal-estar estra-nho. Quando para e olha o que está sentindo, descobre que está com medo, preocupado ou com raiva de alguém. Quando você traz o sentimento para a consciência, consegue gerenciar melhor as emoções. Pode até ser que não resolva o problema, mas vai deixar aquela raiva do chefe, por exemplo, na caixinha e seguir adiante. Negar é perder este tipo de possibilidade. Além disso, expressão emocional é uma forma de comunicação. Passamos e recebemos informações a partir do que expressamos emocionalmente. Se deixamos de reconhecer as emoções, prejudicamos inclusive os nossos relacionamentos. Esse é um tema que interessa ao mundo corporativo e sou muito procurado para dar palestras. Para as empresas é superimportante ajudar os funcionários a lidar com tudo o que sentem. As emoções fazem parte do mundo corporativo e não podemos negar as emoções, temos que usá-las ao nosso favor.

Em que momento a dificuldade de lidar com as emoções ruins se transforma em depressão, 
síndrome do pânico ou transtorno obssessivo-compulsivo?
Falamos de uma doença, de uma síndrome, quando as emoções saem do con- trole. O medo eventual se torna um medo paralisante ou a tristeza toma conta da sua vida, por exemplo. A pessoa não consegue conter aquela emoção ruim e acaba se prejudicando.

Como ensinar as crianças a lidar com as emoções ruins?
Precisamos ajudar as crianças a identificar as emoções. Depois que escrevi o livro, nunca mais falei para os meus filhos que eles não precisavam ficar tristes. Precisamos acolher aquela emoção e falar “você está com medo porque achou que tinha um bicho ali, mas não precisa ter medo porque não tem nenhum bicho”.
 
É normal ter medo ou ficar triste.Em suas pesquisas, você conseguiu descobrir se alguma nacionalidade lida melhor com as emoções ruins?
Não, mas acho interessante, culturamente falando, que existam palavras diferentes para descrever as emoções. No livro, cito palavras que vêm de tribos distantes, como o povo ifaluk, da Micronésia – eles chamam de fago uma emoção que mistura tristeza, compaixão e amor, que sentimos empaticamente pelo sofrimento de alguém e nos mobiliza afetivamente para o seu cuidado – ou que surgem na nossa cultura, como saudade. As nossas emoções não chegam prontas, vamos dando nomes para o que estamos sentindo e isso varia de cultura para cultura. A cultura dá um colorido para aquilo que sentimos.

Conversar com outras pessoas que sentem o mesmo ajuda?
Sim, você começa a entender que não é fraqueza, não é azar, é algo da vida, que outras pessoas também sentem. Isso pode ser um alívio, saber que não é só com você.

Neste momento de quarentena, em que todos devemos ficar em casa, muitos sentimentos ruins podem aflorar. Como lidar com isso?
A ideia não é enxergar o lado bom da tragédia, mas entender que nesta situação trágica emoções vêm à tona e essas emoções, apesar de desagradáveis, trazem informações úteis. Por exemplo, você está confinado em casa, disputando território com família, e pode ficar irritado, com raiva. Isso sinaliza uma briga por espaço. Então, vamos dividir direito os espaços. É importante entender que nesta situação de pandemia as pessoas ficam com medo, não sabem o tamanho da ameaça, o quanto podem se tranquilizar. Isso dá margem para o surgimento de muitas emoções negativas, mas precisamos ver o lado útil dessas emoções que afloram para conseguir atravessar esta situação. Quem não fica com medo da pandemia não toma as medidas de precaução, que são tão importantes.

E em relação à ansiedade que surge ao pensar no que está por vir?
Ansiedade pode nos proteger, é aquela emoção que nos coloca à frente para tentar evitar ameaças e fugir de riscos. Mas existem situações, como a de agora, em que não há o que fazer. Não dá para evitar este perigo. Então, quando a gente tem noção disso, pode se livrar da ansiedade. Se cai a ficha de que não tem o que fazer neste momento, desarmamos aquele alarme. Não tem sentido ficar ansioso.

Como identificar o momento de buscar ajuda?
Quando você tem a sensação de que perdeu o controle, que está mais do que a gente aguenta, que não dá para segurar. Quando você percebe que está exagerado, mas não consegue mudar o rumo da prosa, quando passa do limite, sente que está sendo prejudicado e não consegue medidas para aliviar, vale a pena prestar mais atenção e buscar ajuda. Na dúvida, é melhor procurar um profissional.

Quais assuntos você pretende abordar nos próximos livros?
Estou preparando outro livro sobre os vieses cognitivos, as falhas embutidas no nosso cérebro que nos levam para as decisões que não são as melhores. Quero mostrar como o nosso cérebro nos leva para decisões que não são tão boas e como lidar com elas. Devo lançar ainda este ano o próximo livro. 

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