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Estado de Minas EXPOSIÇÃO

O DESIGN COMO OBJETO DO DESEJO


postado em 13/10/2019 04:00 / atualizado em 11/10/2019 10:48

Wagner Penna
 
Arquiteta Maddlena D%u2019Alfonso(foto: STUDIO CERRI/Divulgacao)
Arquiteta Maddlena D%u2019Alfonso (foto: STUDIO CERRI/Divulgacao)
 

O belo revelado pelos contornos sedutores do design de reconhecida qualidade e sua influência na implementação da indústria italiana é o mote da exposição Beleza em movimento – Ícones do design italiano, que a Casa Fiat de Cultura apresenta até o inicio de novembro e cuja força criativa contribuiu para fortalecer a economia do país no pós-guerra.
 
Embora os destaques sejam os automóveis, não são apenas os modelos de carros belíssimos nascidos nas pranchetas das suas prestigiosas ‘casas de desenhos automotivos’ que estão lá. Há também outros objetos usados no cotidiano, como cadeiras, mesas, sofás, luminárias e utensílios diversos – além do design gráfico, moda, cinema, escultura, arquitetura e muito mais.
 
Exposição Beleza em movimento %u2013 Icones do design italiano(foto: STUDIO CERRI/Divulgacao)
Exposição Beleza em movimento %u2013 Icones do design italiano (foto: STUDIO CERRI/Divulgacao)
 
 
A importância dessa economia criativa para a restauração da Itália, após a destruição de grande parte de seu patrimônio durante a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), é assinalada em cada ponto dos três andares da expô. A originalidade do design e a qualidade dos objetos construíram o prestígio da indústria italiana na segunda metade do século 20 – mas é uma história que começa bem antes.

FUTURISMO Segundo a arquiteta e historiadora Maddalena d’Alfonso, curadora da mostra ao lado de Peter Fassbender (diretor do Design Center da Fiat Chrysler Automóveis para a América Latina ), embora a longa tradição do país nas artes seja histórica (lembrando o Renascimento), um avanço significativo foi o movimento chamado Futurismo – no início do século 20. Ali, um novo conceito de ocupação do espaço foi proposto por artistas como Umberto Boccioni, cuja escultura Formas únicas de continuidade no espaço, de 1913, está na mostra da Casa Fiat de Cultura e é o ponto de partida para se conhecer o rico mostruário dessa arte aplicada à italiana.
 
Sofa boca studio 65(foto: STUDIO CERRI/Divulgacao)
Sofa boca studio 65 (foto: STUDIO CERRI/Divulgacao)
 
 
Em seguida, na década de 1930, o trabalho de Gio Ponti propôs um design utilitário, porém (ainda) artesanal. Após a Segunda Guerra, os investimentos do Plano Marshall (dinheiro norte-americano enviado para reconstrução da Europa) na Itália, foram aplicados na industrialização – usados com o diferencial de estimular o design elaborado e criativo. Nesse período, que marca o início do consumismo na sociedade ocidental, os nomes importantes na área são (além do pioneiro Gio Ponti) Gae Aulenti e Gaetano Pesce, Achille e Pier Giacomo Castiglioni , Mario Bellini , Piero Gilardi , Roberto Sambonet, Studio 65 – entre outros –, todos representados na exposição. É quando o exclusivismo artesanal dá lugar a uma democrática, mas controlada, produção industrial.

VELOCIDADE Neste momento, enquanto os carros italianos começam a se transformar em objetos do desejo em todo o mundo, os studios criadores do estilo automotivo italiano começam a ganhar força. Eles transportam as formas, a aerodinâmica, o processo criativo e a aplicação da tecnologia inovadora na indústria automobilistica. As mais prestigiosas casas de desenhos automotivos contribuem para essa evolução, entre elas Bertone (1912), Zagato (1919), Touring Superleggera (1926), Pininfarina (1930) e GFG Style (1960). Depois, esse estilo torna-se globalizado, inclusive assumindo outros sotaques – caso do design criado no Brasil para os modelos Fiat Fastback e Fiat Toro.
Para o presidente da Casa Fiat de Cultura, Fernão Silveira, a mostra reforça o compromisso da instituição em promover e difundir expressões artísticas e culturais, além de sua vocação à construção de diálogos contemporâneos entre as culturas italiana e brasileira. Lembra que “a exposição nasceu com o objetivo de exaltar e homenagear a pluralidade das criações italianas”.
Nesse aspecto, a coleção de miniaturas de automóveis, os vídeos sobre as corridas em sala miltimídia e o ambiente imersivo com roncos dos motores diferenciados de cada modelo das marcas italianas completam o quadro da beleza em alta velocidade.

COTIDIANO Na esteira dos carros, outros objetos do cotidiano ganham novas formas e tornam atos banais um pouco mais interessantes, imprimindo um requinte visual na simples composição de um aparelho de jantar, na elaboração de um chá, no descanso em uma chaise longue ou de um corriqueiro sofá. Alguns desses utilitários assumem estética funcional, caso das câmeras Ducatti 1950 e da máquina de escrever Valentine, de Ettore Sottsass para Olivetti, 1968. A cenografia internacional também ganha contornos essencialmente italianos, com trabalhos das designers Cini Boeri, Nanda Vigo e Gae Aulenti – esta última responsável pela reforma do Musée d’Orsay, em Paris.
Falar de ‘beleza em movimento’ sem mencionar o cinema seria uma falha – principalmente na terra do neorrealismo. Por isso mesmo, um espaço dinâmico foi instalado para mostrar cartazes e trechos de filmes clássicos desse movimento (para muitos, bem mais que isso – uma escola), com destaque para as cenas onde desponta a beleza eternizada em película de Sophia Loren. Imperdível. Mas há também cenas de filmes como Morte em Veneza , Ladrão de bicicletas e Dolce vitta, entre outros.

CENOGRAFIA A cenografia da mostra acompanha a mesma fluidez criativa dos objetos ali destacados – a começar pela entrada, que teve espaços criados pela dupla de designers mineiros Clarrisa Neves e Paulo Weisberg, onde se pode ver um resumo da história do design italiano através de vídeos, como uma degustação do que se verá a seguir. Ao final da visita, a sala dos espelhos resume o conceito da exposição – com reflexos fragmentados do visitante e do que ali está representado.
 
Uma boa pedida, após mergulhar nesse universo lúdico, instigante e impulsionado por uma tecnologia de alta complexidade que é o design italiano e que nos conduz com uma certa leveza pelo movimento contínuo da sociedade moderna.
 
SERVIÇO

Exposição Beleza em movimento – Ícones 
do design italiano
Casa Fiat de Cultura – Circuito Cultural Praça 
da Liberdade (antigo Palácio dos Despachos)
Até 3 de novembro de 2019
De terça a sexta, das 10h às 21h; sábados, 
domingos e feriados, das 10h às 18h
Entrada franca
A mostra oferece visitas educacionais, 
oficinas e palestras
Informações: www.casafiatdecultura.com.br
A exposição tem patrocínio da Fiat Chrysler Automóveis (FCA), da FCA Fiat Chrysler Participações
 
 
ARTE E SEDUÇÃO CRIARAM NOVA FILOSOFIA INDUSTRIAL
 
Uma das curadoras da exposição Beleza em movimento – Icones do design italiano, a arquiteta e historiadora Maddalena d’Alfonso esteve, mais uma vez, em BH para proferir a palestra “Design dos desejos”, quando abordou a evolução daquilo que considera ‘uma grande parte da filosofia industrial’. Algo que  “influenciou a estética e as relações entre arte, arquitetura e design”, ao transferir para os objetos uma sabedoria artística.Ela ressalta, também, os aspectos políticos da função, no sentido de esse desejo ressaltar novos princípios de liberdade e uma maneira de enfrentar o futuro. Nesse sentido, o design refletiria também momentos da história. Antes de se apresentar no auditório da Casa Fiat de Cultura, ela  falou um pouco sobre o assunto para o Caderno Feminino & Masculino.
 
Qual o objetivo da exposição?
 É contar um pouco da história através do design dos objetos que nos cercam, seja um carro ou um utensílio para a casa. E também identificar o nosso futuro.

Quais referências do design citaria para marcar essa trajetória?
Prefiro falar da evolução do conceito desse design. Primeiro foi a pesquisa expressiva, depois encontrar a dramaturgia do objeto, sua alma e a sua economicidade. Esse ponto, inclusive, comporta vários aspectos (material, linha produtiva, preço, etc.). Seguiu-se a pesquisa tecnológica, descobertas científicas e a capacidade de encontrar uma nova geração de matérias-primas. Chegamos à questão da sustentabilidade, onde se tornou necessário, inclusive, relativizar a importância da economicidade.

Apontaria um item particularmente importante?
 É o desejo de liberdade, que é diferente de expressividade – mas que tem tudo a ver um com outro. Como um objeto utilitário também pode  me libertar do cotidiano repetitivo. Isso foi alcançado pelo design italiano.

Como isso ocorreu?
 A inocência primordial dos objetos permite que eles se transformem em algo mais poderoso. Um exemplo é o caso da moda, onde uma peça de roupa pode assumir aspectos transgressores. Na arte também ocorre isso. A forma de irreverência e de contestação do design é um pouco menos evidente, mas existe.

Em que medida o politicamente correto inibe a criação no design?
Neste momento histórico, enfrentamos problemáticas novas – como inclusão, não desprezar o outro. Essa preocupação corta um pouco a ironia e a irreverência.  Mas  é um desafio que podemos enfrentar na moda, no design e nas artes. Prefiro olhar para frente. Vamos encontrar uma forma de traduzir esse novo vocabulário.

 A gente tem percebido, na arquitetura, a discussão em torno do movimento brutalista – cujo auge foram as décadas de 1950 e 1960. Seria uma metáfora dos tempos atuais?
 O brutalismo valorizava a força estrutural e estética, pois deixava à vista a sustentação em concreto armado. Era também uma questão econômica. O Artigas (arquiteto Vilanova Artigas, da escola paulista, falecido em 1985) é um belo exemplo. Atualmente o ‘brutalismo’ relaciona-se com o minimalismo e utiliza novos materiais – porém, mantém sua forma escolástica. Isso é o mais importante.

Você já veio a BH algumas vezes. O que acha da cidade sob o ponto de vista do design?
A cidade é um grande motor do país em termos de modernidade e  energia. Uma força que lembra minha cidade, Milão. Não a conheço bastante bem para dar um juízo de design, mas conheço a Pampulha – que é importante como referencial no assunto. E é mais aconchegante que outras cidades do país, como Rio e São Paulo. 


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