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Estado de Minas

Coragem para arriscar e recomeçar

Mudança de planos e sonhos regem a vida da menina do interior que queria ser psicóloga


postado em 21/07/2019 04:17

(foto: tony yaa/divulgação)
(foto: tony yaa/divulgação)


A menina do interior, criada em fazenda, primogênita de uma família de quatro irmãos, sonhava em ser psicóloga e terapeuta de adolescentes. Conseguiu realizar seu sonho, e quando pensava que ele tinha sido alcançado, uma ousada proposta do irmão abalou todos os seus planos. Helida Mendonça encarou o desafio de abrir uma empresa de congelados ao lado do único irmão – Helder – e da mãe, Maria Dalva, a Forno de Minas, sem saber se daria certo ou não, mas trabalhar em família parecia uma coisa legal. O tiro foi certeiro. A empresa foi sucesso. O produto agradou em cheio e foi muito além do esperado. Venderam e oito anos depois, a recompraram, encarando um desafio ainda maior: reerguer a marca que estava desacreditada pelos consumidores. Foram quatro anos de batalha árdua antes de alcançar o sucesso novamente. Agora, a empresária já está com novos sonhos.

 

Quando vieram para Belo Horizonte?

Somos de João Pinheiro. Na verdade, meus pais moravam na fazenda e cresci lá. Trabalhavam com gado de corte, tinham plantação de tudo, mas só para despesa. Na região não tinha maternidade, então minha mãe foi para Patos de Minas para eu nascer – sou a filha mais velha –, mas só fui conhecer minha cidade natal quando tinha uns 9 ou 10 anos. Eu vim para Belo Horizonte aos cinco anos de idade, morar com minha avó paterna, para estudar.

 

Como foi ficar tão nova longe da mãe?

Sempre tive muita afinidade com minha avó Maria Braga, e meus tios eram muito carinhosos comigo, mas lembro que chorava muito de saudade. Devo ter dado muito trabalho. Fiz o pré-primário e o primeiro ano no Jardim Azul e no Colégio Imaculada. Eu entendi que precisava disso. Mas depois meus irmãos também entraram na idade escolar, e aí não dava para mandar todo mundo para cá. Então meu pai Hélio montou uma casa em João Pinheiro. Ficávamos a semana na cidade com minha mãe e no final de semana íamos para a fazenda. A família mudou para a capital em julho de 1972, também por causa dos estudos, e nosso pai morreu em setembro de 1973, aos 37 anos, de acidente de carro na estrada de João Pinheiro para Patos de Minas que era de terra.

 

O que sua mãe fez para criar quatro filhos ficando viúva tão nova? 

Ela tinha 31 anos. Mamãe vendeu a fazenda porque era longe, nós éramos pequenos e ela não dava conta de tocar a fazenda e criar os filhos. Papai deixou algumas dívidas, tinha trocado a fazenda por outra muito maior, o que ficou mais difícil ainda para ela. A melhor opção era vender. Vendeu e investiu em imóveis. Depois fez um curso de corretora de imóveis e trabalhou com isso por 14 anos, em um mercado totalmente masculino. Chegou a montar uma pequena corretora para ela, a Imperatriz Imóveis.

 

Sentiu muita falta da vida na fazenda? 

E como. Gosto tanto de fazenda que assim que pude comprei a minha no município de Ouro Preto. Passei a infância brincando de casinha, cozinhando guizadinho. Enquanto a mamãe fazia biscoito e queijo, nós também fazíamos, em versão infantil, mas de verdade. Tínhamos minitabuleiros, pequenas formas de queijo. Era ótimo e com isso aprendemos a cozinhar. Nossa mãe sempre teve mãos de fada para a cozinha. No fundo do quintal de nossa casa tinha o córrego Formoso, que caía no Rio da Prata. Lá tem praia de areia branquinha depois do período das chuvas até o mês de setembro. Ficávamos no rio o dia inteiro. A vida era muito boa. Buscávamos goiaba e coco de canoa, andava a cavalo. Já quebrei tudo o que era osso que podia quebrar. Para mim, fazenda e cavalo são um verdadeiro paraíso. Depois que viemos para Belo Horizonte, sempre passávamos as férias na fazenda dos meus avós. Tivemos a felicidade de ter os quatro avós por muitos anos. Cheguei a ir nas bodas de ouro dos meus quatro avós.

 

O que queria ser profissionalmente?

Tinha alguns sonhos, fazer intercâmbio nos Estados Unidos, queria muito morar fora do país, e fui para a Califórnia antes de entrara para a faculdade. O outro sonho era ser psicóloga de adolescentes, acredito que por influência da perda de meu pai quando eu era muito nova. Formei em psicologia, fiz estágio no Galba Veloso. Depois fiz terapia ocupacional. Também queria muito conhecer a Europa. Na época, namorava um rapaz do qual minha mãe não gostava, e ela me deu de presente de formatura uma passagem só de ida para a Europa. Formei e viajei. A irmã desse meu namorado morava em Londres. Depois de passear bastante, fui para a casa dela, arrumei emprego como babá de um recém-nascido. A mãe teve depressão pós-parto. Durante a semana cuidava do bebê e fazia curso de inglês, nos finais de semana trabalhava em ruma rede de lanchonete fast food.. Fiquei lá quase um ano, voltei e casei com o namorado.  Comecei a dar aulas de inglês e montei meu consultório em parceria com alguns colegas. E atendi muitos adolescentes, a maioria eram adotivos, e muitos com deficit de atenção. Amava o que fazia. Fiquei cinco anos casada e nos separamos sem filhos.

 

Casou de novo? Sim, em 1997 me casei com um amigo da época que mudamos para Belo Horizonte, Adolfo, do grupo de jovens da Igreja Menino Jesus, no Santo Antônio. Tivemos três filhos, Hélio, Thiago e Matheus.

 

Como surgiu a Forno de Minas?

Meu irmão Helder foi passar uma temporada nos Estados Unidos depois que se formou e retornou entusiasmado com congelados. Chamou minha mãe e a mim e propôs abrirmos uma empresa de fazer e vender pão de queijo congelado, porque minha mãe fazia uma receita muito boa, sempre teve uma mão maravilhosa para cozinha. Era largar o certo pelo duvidoso, mas arriscar com minha mãe e meu irmão valia a pena. Quando estava com tudo pronto na minha vida fui chamada para arriscar em um negócio que não entendia nada. Só aceitei o convite porque era com meu irmão e minha mãe. Isso jamais passaria pela minha cabeça porque não sou prendada, não entendo nada de cozinha. Ficava o dia inteiro para baixo e para cima comprando tudo, eu que vendia e entregava. Nunca tinha mexido com nada parecido. Não dava tempo de questionar. Tudo que é novo dá frio na barriga, era um desafio, mas abrir um negócio com a família era muito convidativo. Se não desse certo, eu voltaria para minha profissão de origem. Primeiro larguei as aulas de inglês, e em pouco tempo tive que fechar o consultório. Lembro que falei com minha bisavó, em João Pinheiro, que estávamos montando a empresa, ela achou absurdo. “Fez dois cursos superiores, morou no exterior, e agora vai vender pão de queijo?”. Ficou decepcionada.

 

Esperava crescer tanto?

Queria muito, mas vender em um supermercado fora de Minas Gerais era um sonho quase utópico. Quando chegamos lá foi maravilhoso. Não conseguíamos atender a demanda de mercado. Trabalhávamos sábado domingo, feriado, faltava produto, logística. Não tinha carro suficiente na frota. Dobrávamos turno, mas conseguíamos cumprir os compromissos assumidos.

 

Qual a sua função na empresa?

Cuido do administrativo, contábil, financeiro, recursos humanos, marketing. Criação da marca, embalagens. Tudo isso é comigo. Minha mãe é diretora industrial, cuida da qualidade dos produtos. Helder é o empreendedor, é generalista, cuida do desenvolvimento de produto e inovação. Começamos pequenos em uma lojinha na Avenida Nossa Senhora do Carmo, depois fomos para Contagem, em um terreno atrás do Ceasa, até que construímos a fábrica no Bairro Nacional.

 

Como é trabalhar com a mãe e irmão?

Agradeço a Deus todo dia por essa oportunidade, nosso relacionamento é excelente. Temos divergências profissionais sim, mas tudo é resolvido com tranquilidade.

 

Foi difícil o processo de venda 

e recompra?

Vendemos em 1999/2000 e recompramos em 2009 a fábrica e a marca. Só foi possível porque mantivemos o laticínio. Ter a produção de queijo nas nossas mãos foi fundamental. O processo de retomada da empresa e da marca foi muito difícil porque ela não estava em zero, estava abaixo de zero. Os antigos donos acabaram com o produto. Minha mãe só faltava ficar doente, porque todo mundo comentava conosco. Eles não cumpriram compromissos tanto com clientes fornecedores (empresas que revendem os produtos) quanto com o consumidor final que era fiel ao produto por causa da qualidade. Trabalhamos três anos arduamente para conseguirmos levantar voo. Foi uma prova de fogo e só respiramos em 2012.

Cresceu bastante a cartela 

de produtos.

Sim. Na primeira vez, além do pão de queijo, tivemos salgados, croissants, folhados e pão de batata, mas 90% da produção e das vendas era de pão de queijo. 1Dez anos depois, o mercado estava muito diferente. Não podia mais ser só pão de queijo. Logo que retomamos a empresa o Helder já comprou a máquina de waffle. Porque não existia oferta desse produto congelado. Depois lançamos as massas recheadas congeladas, outra novidade, pois só existia oferta de massas resfriadas. Depois foi a vez da lasanha. Agora temos os cookies de baunilha com gotas de chocolate,  chocolate com M&M, as quiches, empadas, empanadas, os folhados. Isso tudo além dos produtos para food service, que são exclusivos para bares e lanchonetes, aí temos o burek que é um salgado de massa filo, o pão de canela, etc.

 

Semana passada foi convidada para fazer uma palestra. É comum?

Sim, e gosto bastante. Fui convidada pelo programa Mulheres Brilhantes, e falei sobre empreendedorismo, o brilho de empreender. Sobre o risco e o desafio de empreender. Afinal, empreender é investir, não interessa em que área. Pode ser em um curso, no casamento, nos filhos. Faço palestra desde o início da Forno de Minas, sempre sobre o case da empresa. Semana passada falei no Instituto de Formação de Líderes, em Vitória. A história da empresa é interessante e fascina as pessoas. A vida é isso, tentar, dar errado, tentar de novo. Mudar de ideia e refazer. É isso que dá bagagem para compartilhar. Eu tive filhos mais velha, era meu sonho, outro sonho era ter uma fazenda. Consegui e comprei a minha já tem 20 anos. Amo estar ali. Ajudo nas escolas rurais que têm na região em torno da fazenda. Falo que as alunas são minhas filhas de coração, porque só tive filhos homens. Comecei a visitar e levar coisas que precisavam. Tem anos que ajudo, levo os alunos para minha casa, é minha realização espiritual. Amo muito, e passei isso para meus filhos. É gratificante poder ajudar. Não com dinheiro, com ação, é fazer, dar presença. É exemplo e ensinamento para os filhos.

 

Qual seu sonho?

Ser palestrante profissional mesmo. Estou preparando meus tópicos, além da história da Forno de Minas. Superação, vencer desafios, sonhar e realizar sonhos. Tenho energia e posso inspirar e ajudar pessoas, motivá-las. Sonho é ganhar asas e estar cada dia em um lugar conhecer pessoas e compartilhar minha experiência. Contribuir para o crescimento das pessoas. Esse é meu novo desafio. Tem que investir, fazer cursos, mas se Deus quiser vou conseguir. Temos que sonhar sempre. Não quero aposentar nunca. 

 

 

 

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