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Estado de Minas

Amor por cores e pela elegância

Talento, dom, ousadia, criatividade e determinação marcaram sua trajetória


postado em 14/07/2019 04:08

(foto: marcos vieira/em/d. apress)
(foto: marcos vieira/em/d. apress)



Costureira. É assim que a estilista Águeda Chaves se define depois de 40 anos de profissão. Ainda muito jovem, trabalhando com computação e cursando economia, percebeu que aquilo não era o que queria para sua vida. A profissão surgiu por acaso. A paixão por cores, o bom gosto, a criatividade e a ousadia a levaram a criar um vestido do jeito que queria e não encontrava em lugar nenhum. Usou e virou sonho de consumo das moças que viram a bela Águeda usando ousado, colorido e despojado modelo exclusivo. Foi o começo da confecção e a definição do que ela faria para o resto de sua vida, apesar da mudança de gênero ao longo do caminho: do pret-à-porter para a alta-costura.
 
De onde veio esse seu talento para a costura?
Minha avó Cândida, que chamávamos de vovó Candura, mãe da minha mãe, apesar de ser fazendeira muito rica, amava costurar e fazia isso para toda região com muito talento. Minha mãe costurava para nós quando éramos pequenas. Na época não existia butique. Elas só começaram a surgir quando éramos pequenas. As primeiras foram a Garbe e a Tágide, Iaia Ioiô, Sapeka e Betina. E tinha também a Dona Gininha, que morava atrás da Igreja São José e trazia umas coisas indianas. Então a costura era comum nas casas. Deve ter sido por aí.
 
Sempre gostou de costurar?
Não. Essa coisa de fazer roupinha de boneca não era comigo, e olha que eu brinquei de boneca até meus 14 anos, adorava. O que  pontuou minha vida na questão da roupa, quando comecei a ser estilista, sem nem saber o que era isso – porque nunca fiz faculdade –, era a cor. Ganhava caixa de lápis de cor e o coração vinha na goela. Sabe aquela caixa da Faber Castel que ia abrindo e abrindo e tinha uma enormidade de cores? Eu pirava. Podia ficar o dia inteiro olhando para aqueles lápis coloridos. Amava. Desde que  comecei, usei e abusei das cores. Eu tinha talento e coragem para misturar cor. Tudo que gostava, que enchia minha vista – apesar de eu não fazer igual – era o que tinha liberdade no uso das cores. Geralmente eram roupas que vinham dos orientais, africanos, indianos. Tudo do lado de lá do Eufrates. Eles são coloridos, misturam oito, dez, quinze cores em uma coisa só, um vestido e fica maravilhoso, não importa se é gordo, se é magro. A mulher pode ser enorme, negra, linda, bota aquela coisa gigantesca na cabeça descombinando com o que está amarrado no corpo, é gorda, linda e fica tudo maravilhoso. Esse povo tem muita coragem. Essas coisas sempre me fascinaram. Era onde eu bebia minha água, era minha fonte. Era inovador.

Quando descobriu que queria trabalhar com moda?
A primeira coisa que fiz foi um vestido para eu usar, sem nem pensar em vender. Uma peça que hoje não chama a atenção, mas que na época foi chocante porque era pano de colchão. Queria um vestido que não achava em lugar nenhum, um camisetão até no pé, bem colorido. Fiz um vestido de chitão. A chita era vendida para fazer colchão de palha. Fui na cidade e comprei esse chitão, tirei a goma dele e ficou aquele mingauzinho estampado. Chamei uma costureira lá em casa, d. Cajubica, que tinha quase 80 anos – depois ela ficou comigo um tempão. Pedi a ela para fazer o vestido. Saí com ele e o povo enlouqueceu. Todo mundo quis igual.

O que você fazia na época?
Estava no segundo ano de economia, detestando. Já tinha descoberto que não dava conta de patrão, bater ponto, horário e rigidez. Tinha trabalhado com processamento de dados por dois anos. Fiz um curso de computação quando tinha 17 anos, porque queria ganhar dinheiro para sair de casa e ser independente. Fiquei lá dois anos e meio, tinha patrão, colega de trabalho, bater ponto, horário.  Fazendo economia comecei a raciocinar: “vou sair da faculdade de economia e vou ter que trabalhar em um escritório com patrão, com gente, com horário”. Não ia dar certo.

Aí investiu no vestido?
Quando vi que todo mundo queria o tal do vestidinho de chitão laranja com verde, decidi fazer para vender. Chamei d. Cajubica e fui fazendo o vestido e vendendo. Vendi 12 na maior facilidade. Criei outro modelo com o mesmo tipo de pano, outras cores, acrescentei um detalhe em malha, e parti daí. Achei muito bom trabalhar com isso. Decidi abrir uma confecção sem falar com ninguém. Larguei a Faculdade, pedi demissão da empresa, contratei quatro costureiras, comprei máquinas de costura com prestação a perder de vista, porque não tinha um tostão. Só tinha o dinheirinho da venda dos vestidos.

Abriu a confecção sozinha, na cara e na coragem?
Nesse principinho éramos eu, Mônica e uma amiga muito chegada. Eu trabalhava o dia inteiro e as duas riam o dia inteiro. Mas foram uma companhia, para eu não começar sozinha. Seria mais difícil. Mas em uma sociedade de três na qual só uma trabalhava, não dava certo. Desmanchamos a sociedade e continuei sozinha. Saí do quintal, aluguei uma casinha pequenininha na Savassi, que dividia com Soninha Parizzi. Ela fazia os sapatos e eu os vestidos. Ainda na onda do chitão. E estou até hoje.
Começou com o casual colorido e como migrou para alta-costura?
Sempre atendi muito corpo a corpo. Como eu era pequena, nunca tinha feito faculdade, aprendia com as costureiras, mas também ensinava muito a elas, porque construía muito em manequins. Minha forma de trabalho é muito construtiva, até hoje. Nunca aprendi modelagem, mas faço a modelagem inteira no manequim.

Nunca fez um curso de corte e costura?
Um curso que me alicerçasse para a profissão? Nunca. Fiz um aos 12 anos de idade, porque menina tinha que ser prendada. Passei a ter uma percepção de algumas coisas, caimentos de pano, por exemplo, mas nem sonhava em mexer com isso na vida.

E a alta-costura?
Foi quando apareceu a primeira noiva, que foi minha irmã, Teca. Eu sempre tive isso de montar a roupa no corpo da pessoa, até hoje ainda faço assim. As pessoas chegam aqui, eu vou pendurando e rasgando o pano, prendendo, cortando, e elas ficam em estado de choque. Em um segundo a base está pronta. Faço isso muito. Eu tinha a facilidade da montagem no corpo, mas não tinha ainda a estrutura interna que faço hoje – daqui a pouco falo sobre isso. Teca pediu o vestido, disse que ia pensar e que depois a chamava. Faltava um mês e meio para o casamento e eu não tinha falado nada. Claro que ela desesperou, chegou no ateliê aos prantos. Entrei com ela no quarto e comecei a montar o vestido em seu corpo e em duas horas o vestido estava prontinho. Cortei atrás, pedi as costureiras para colocarem um fecho eclair. Tinha que montar um cinto. Peguei um negócio que a Many Catão tinha me dado e fiz o cinto, só que eu tinha que ter colocado uma estrutura interna para não estragar, mas eu não tinha muita experiência. Preguei tudo e na porta da igreja caiu um negócio, mas tinha uma costureira comigo, consertou na hora e pronto. De um lado era uma manguinha de pano, do outro uma redinha de pérola que o Camilo Paolielo tinha feito para mim. Estreei com a Teca, aí veio a Sara Santa Rosa. Para ela foi um modelo bem estúpido cupido com uma saia bem rodada e uma cinturinha justa.

Fala da estrutura interna.
O que eu faço basicamente hoje, que é muito difícil e é carreira. E falo que tem que ter um empenho, sempre caminhei para frente e aprimorei e hoje sou muito boa nisso, que é a base do vestido. O resto vai jogando pano por cima e vai dando tudo certo. Quando se tem uma estrutura interna perfeita o vestido sai perfeito, não tem como dar erro. Então eu gasto muito tempo nessa estrutura interna. É um espartilho que eu monto que tem uma saia por cima, inteira, bem pertinho do corpo, toda cortada no viés, só com uma costura atrás. Todo modelado. Depois eu cubro toda essa estrutura com tecido invisível. Tudo o que eu fizer por cima dessa estrutura é zero costura. Não tem costura que incomode em nada. Posso colocar pano transparente, renda, qualquer coisa, que não tem corte nenhum por dentro que vá aparecer. Isso dá um acabamento maravilho e deixa a mulher com um corpo perfeito.

Até para pessoas acima do peso?
Completamente. Elas vêm aqui desesperadas querendo isso. Elas veem minhas clientes em festas e não acreditam que a pessoa ficou assim. E querem a mesma estrutura. Faço cintura em quem não tem. Subo busto sem sutiã. Essa estrutura é um trabalho que faço há muitos anos e venho aperfeiçoando. Faço milimetricamente. É a parte mais difícil do vestido e a que demora mais. Isso é que eu provo muito. Depois que a casca está pronta, é só jogar pano em cima. Se vai ser saia cortada, drapeado, tanto faz. Um vestido sequinho, sem nada, eu acho maravilhoso. Menos para mim é mais, mas internamente tem que estar perfeito. Eu sou perfeccionista. Com as noivas eu vi que tinha mais facilidade e entusiasmo de lidar com esse tipo de roupa do que com o pret-à-porter. Na época, eu fazia muita roupa de linho branco, bem verão. Custei a ganhar dinheiro porque fiquei firme no meu estilo, não mudava. Preferia não vender.

Foi devagar e sempre...
Um passo de cada vez, mas para frente, não tinha passo para trás. Sobrevivi a todas as falências e a todas as crises. Reduzi a confecção, mas passei por todas as crises, minhas e do país. Porque as clientes que conquistamos no corpo a corpo, não perdemos. Gastamos tempo, não tem nem um vestido na confecção, por mais simples que seja, que eu não demande pelo menos 15 dias para fazer. Muito difícil, porque não tem avesso nem direito. É tudo costura embutida, micro, invisível. Não tem overlock. A bainha que elas fazem é impressionante.

Já pensou em parar?
Sim. Em 2010, coloquei placa de aluga-se na porta e fiquei costurando e esperando alguém bater aqui para alugar a casa. Fiquei cinco anos com a placa. Ninguém veio olhar a casa. Cheguei a fechar por um mês. Dispensei todo mundo. Em janeiro, veio uma cliente e não aceitou minha recusa. “Não parou mesmo, vai fazer esse vestido para mim, preciso muito de você.” Liguei para minhas fieis escudeiras Leuseni e Conceição – que estão comigo há mais de 30 anos –, pedi que voltassem. E depois ia fechar. Aí veio outra cliente, e depois outra, e continuei pingadinha. Nesse meio tempo veio a Antônia, minha filha, que decidiu transformar a casa em um local de eventos. Foi ótimo porque deu um gás novo para o local, que é muito grande. Eu fico pequenininha aqui em cima e ela lá em baixo.

O que fez você mudar tanto e querer diminuir o ritmo?
Há 20 anos minha vida mudou muito. Sempre fiz unha e massagem capilar na casa de uma família que tinha muitos problemas.  Vi que as coisas ali estavam mudando muito e elas me falaram que estavam participando de um grupo de estudo bíblico. Samantha e Mariluce sempre me convidavam para ir, mas nunca aceitava. Meu pai era um grande contador de histórias, isso vem de minha memória de criança e marcou nossa vida. Um dia, Samantha falou uma frase que ganhou meu coração, disse que o rapaz que dava o estudo era um grande contador de histórias. Fiquei interessada e fui com elas. Fiquei abismada com as palavras. Não entendi muita coisa, mas aquilo me ganhou completamente. As histórias que ele contou do livro do Gênesis me encantaram. Voltei na semana seguinte, minha filha foi comigo, e foi tão impactada como eu. Deus me virou de cabeça para baixo nesses 20 anos.

E o que isso refletiu no 
seu trabalho?
Trabalho porque preciso trabalhar, sei hoje que é um talento e um dom que Deus me deu, não desprezo isso em nada, mas o meu maior prazer é trabalhar na obra de Deus. Então, hoje, todas as minhas manhãs eu dedico ao trabalho para as coisas de Deus, faço estudos bíblicos em vários grupos, acompanho algumas mulheres. Minha vida é muito cheia neste aspecto. E de tarde eu me dedico às clientes. Estou pequena e quero que continue assim.

O que é da sua alma?
A alta-costura. Aprendi com o pret-à-porter.  Foi uma toca enre eu e as costureiras. Ensinava elas a mudar o que elas sempre faziam igual. Eu aprendia o clássico e elas a loucura. Atrás de grandes estilistas tem grandes costureiras. Não chegaria aonde cheguei se não tivesse comigo essas pessoas que me acompanham há tantos anos, Leuseni e Conceição. Elas são maravilhosas. Costuram com mãos de fada. Começamos juntas há 30 anos e crescemos juntas. Vou pagar um preço alto por falar isso, mas se uma sair pela porta eu saio pela janela. Começar do zero nessa altura da minha vida? Jamais. 

Você tem um estilo muito único. Segue alguma tendência?
Crio, mas me alimento muito de grandes costureiros do passado, dos anos 1940, 50, 60. Hoje, a moda virou uma grande fantasia. Eu não gosto. Mulheres fantasiadas de vestido de festa. Não são femininas, são um show, quase um Joãozinho 30 na passarela. Tenho um pouco de preguiça disso. Gosto de mulheres femininas, bonitas. Vestido impecável, com um corte lindo. Saint Laurent, Dior antigamente, Lanvin, quando tudo era feito a mão. Isso é maravilhoso. Chique demais. Bebo muito dessa fonte.

Clientes embarcam nessa onda totalmente?
Elas gostam. Fui conquistando esse espaço. Mas também busco muito daquela pessoa que está assentada na minha frente. Não gosto muito de interferir no coração daquela pessoa que está ali, querendo fazendo um determinado vestido, não vou colocar eu o tempo todo no vestido dela. Quero pegá-la e botar um pouco da minha capacidade nas coisas que ela gosta. E se têm coisas que não vão ficar boas, aí eu não faço.

Algum vestido que fez e diz“esse é inesquecível”?
Uma vez fiz uma noiva maravilhosa, toda de pluma de ganso. O busto de bojo, com pluminha subindo na pele, a coisa mais maravilhosa. Uma vez uma revista de noiva pediu um vestido. Pintei os panos de vários tons pastel, fiz rolotês no viés, como se foss- 


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