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O poder do discurso

Jovem à frente da LED ganha o mundo ao apostar em uma moda que defende a diversidade


postado em 26/05/2019 04:08

Desfile na última edição do SPFW(foto: Gil Biachini/Divulgação)
Desfile na última edição do SPFW (foto: Gil Biachini/Divulgação)



Não precisou de muito tempo para a ideia estourar. Em menos de três anos, a marca LED venceu o concurso Ready to go, desfilou no Minas Trend, pulou para o São Paulo Fashion Week e participou de uma feira em Milão. Já era de se esperar, afinal, Célio Dias chegou disposto a quebrar preconceitos e chacoalhar um mercado de moda que andava um tanto acomodado. Sem gênero definido, as roupas da LED falam abertamente sobre diversidade. “É pouco tempo, mas parece muito”, analisa o designer de Caratinga, que enxerga na curta trajetória da marca um aprendizado intenso. De São Paulo, para onde se mudou no fim do ano passado, Célio relembra a sua história e fala sobre sonhos.

 

 

 Qual é o seu propósito na moda?
Mostrar diversidade, principalmente. Hoje temos muitas questões ligadas a esse assunto, mas poucas bandeiras são levantadas.

Ter uma marca era um sonho antigo?
Vem da época da faculdade. Quando tinha 15 anos, me mudei para Juiz de Fora para terminar o ensino médio e estudar medicina. É aquela história de interior. Venho de Caratinga, família de classe média, nunca me faltou nada, mas pensava em estabilidade. No meio disso tudo, disse: não quero. A minha avó, que tem mais de 40 anos de loja, falou que não seria tão fácil, mas tudo bem. Se era isso o que eu queria, ela estava lá para me dar apoio. Então, fiz faculdade de moda em Juiz de Fora, depois me mudei para Belo Horizonte e as coisas foram acontecendo. Tive que ir conquistando o meu espaço com uma moda que não é típica mineira e tenho muito orgulho do que construí até aqui.

O seu envolvimento com a moda tem a ver com a loja da sua avó?
Estar no meio da moda não era algo tão instante para mim. A distância era em relação às pessoas. Nunca poderia imaginar o Paulo Borges (fundador do SPFW) dentro da minha casa, comendo pão de queijo e tomando café, como aconteceu.

Como surgiu a ideia da LED?
A minha trajetória é bem diferente. Quando me mudei para Belo Horizonte, trabalhei em vários escritórios de representação, e me acomodei. Tinha colegas estilistas e via como era difícil no início. O mercado não dá oportunidade para quem está começando. Trabalhar em escritório foi uma escola para mim, aprendi a ter uma visão comercial, mas sempre tive uma inquietude de fazer a minha roupa. Em 2014, tomei coragem de botar a LED para fora. Como não tive experiência de chão de fábrica, a marca acabou sendo uma escola também. A cada coleção, é um aprendizado diferente.

Na época, você já tinha claro o que queria fazer?
Não, fazia uma roupa com a qual não me identificava. Queria que a LED não tivesse distinção de gênero, muito antes disso virar pauta, porque tive uma educação dentro de casa neste formato. Nunca fui privado de usar o que queria. Mas a LED começou como uma marca feminina. Fui para um caminho comercial porque imaginei que seria mais fácil, mas não estava feliz. Então, dei uma reviravolta.

Isso era medo da aceitação do público?
Tinha 22 anos. Era um menino que estava acreditando num sonho e não imaginava para onde iria. Por mais que você faça um planejamento estratégico, a realidade é muito mais complicada. O primeiro convite para o SPFW mexeu com a minha cabeça. Precisava colocar para fora o Célio lá de atrás, estudante de moda, que tinha os seus desejos. São muitos “nãos” que levamos no começo, muita aprovação que buscamos, talvez isso tenha me podado demais, então precisava florescer de novo. Foi uma virada de vida maravilhosa.
Por que o trabalho artesanal é tão presente
no seu trabalho?
É uma referência de interior. Comecei a olhar para trás e percebi justamente que era um resgate do passado, de infância mesmo, porque cresci no interior. Faço algo que já existe, claro, a linguagem que é nova. Tento ressignificar materiais. Fiz a última coleção do Minas Trend com descarte da indústria. Temos que aproveitar o que temos. Não acredito que as modelagens acabem de seis em seis meses. Somos muito pequenos para não aproveitar modelagem, e temos que falar sobre isso, não é vergonha para o estilista. Para muita gente pode soar como preguiça criativa, mas, na verdade, não é. Primeiro você constrói a peça em sarja, depois em linho, troca o acabamento, aí muda a cara dela. Precisamos repensar a criação. Criar algo nova é muito mais fácil, mas adoro esse desafio.

Pensar em sustentabilidade também significa
fazer coleção menos datadas?
Aqui no Brasil não temos estações bem definidas como lá fora. Óbvio que, às vezes, quero fazer roupa de frio. Por exemplo, na última coleção o meu desejo era usar mais camadas de roupa, e isso tem a ver com o meu trabalho. Queria misturar tricô com lã e ficou com mais cara de inverno mesmo, mas, no meu ponto de vista, não existe inverno e verão, são coleções. Acho que uma coleção complementa a outra, é uma forma de consumo consciente.

Para quem você cria as roupas da LED?
Para uma pessoa que não se pauta no estereótipo, que não tem medo de se arriscar, de ousar, que quer experimentar algo diferente. Crio para pessoas que não têm preconceito. Hoje na LED existem peças muito extravagantes, mas, desmembrando o look, você encontra outras que qualquer pessoa pode usar.

De onde vem o seu desejo de explorar cores?
Nunca gostei muito do termo agênero, porque ele se pautava em branco, cinza, preto e bege. Quando fiz a minha estreia no SPFW, entendi que precisava falar que cor não tem gênero. Foi um exercício trabalhar com tantas cores e ver o quanto gostava daquilo, da imagem forte que criava.

Por que você acha que a marca decolou em tão
pouco tempo?
Pela originalidade, por não ter medo de levantar bandeira, de ter um discurso. Se pararmos para pensar, a moda tradicional do Brasil tem ficado sem graça, chata. Lembro que os desfiles da Vide Bula, que é uma super referência para mim, eram muito interessantes. De um tempo para cá, entramos nessa de achar que o que vem de fora é mais legal e o que é do Brasil não tem valor. Então, a gente chega chutando a porta e consegue trazer originalidade para a moda brasileira.

Você se mudou definitivamente para São Paulo. É mais
interessante estar aí?
Morei sete anos em BH. Já estava fazendo alguns trabalhos aqui em São Paulo e precisava levantar a marca, porque, no fim das contas, precisamos de vendas para a empresa ser sustentável. Via que os meus números em São Paulo eram maiores, então tudo o que precisava estava aqui, apesar de que a produção continua em Minas. BH é maravilhosa, se pudesse escolher um lugar para morar seria aí, mas São Paulo tem um mundo de possibilidades.

Por isso, você focou no SPFW?
O Minas Trend me abriu muitas portas, desde quando ganhei o Ready to go, mas como formato salão de negócios não funcionou muito para a LED. Não descarto a possibilidade de voltar um dia, mas não dá para abraçar o mundo, tenho que respeitar os meus limites. Querendo ou não, o Projeto Estufa (do SPFW) é um apoio para uma marca jovem, sem muito recurso. Funciona como uma porta de entrada para o line-up oficial, e esse é um desejo que tenho.

Como surgiu o convite para participar da feira de Milão?
Pia Rey, corresponde da Vogue na América Latina, já tinha trocado alguns e-mails comigo desde o primeiro desfile. Aí este ano chegou o convite para participar da Super, evento paralelo à Semana de Moda de Milão. Nesta edição, especificamente, existia um olhar para a América Latina. Isso não fazia parte dos meus planos, estava me mudando para São Paulo, mas consegui o patrocínio e tive que criar do zero a coleção para apresentar dentro do salão de negócios. Criei um bordado em acrílico, além do tricô e do crochê. Foi maravilhoso, uma experiência única, a minha primeira vez na Itália. Conheci gente do mundo inteiro, vários convites vieram, mas tive que aterrar. Não posso aceitar tudo, sou uma pessoa só.

O que você ouviu do público de lá?
Ouvi que era um trabalho genuíno e muito único, ouvi do trabalho feito a mão, que é muito mais valorizado lá fora. O meu maior sonho era mostrar o Brasil, tenho muito orgulho de ser brasileiro.

Moda e política devem andar juntas?
Vestir é um ato político. Independentemente se colocou camiseta preta e calça jeans, você está falando alguma coisa. A minha principal bandeira é a LGBT. Já ouviu dizer que a minha roupa é para gay, mas lutar pelas minorias não significa necessariamente isso. Roupa é para pessoas, se você se sentir bem dentro dela ótimo. A minha peça mais comentada e mais vendida, que faço em todas as coleções, é a t-shirt com o escrito “bicha power”. É uma coisa muito simples, que qualquer pessoa pode ter no guarda-roupa, e não deixa de ser um ato político. A partir do momento que você se propõe a fazer roupa, indiferente do corpo que vai usar, isso é um ato político.

Ser gay assumido e literalmente levantar a bandeira é um ato de coragem?
Sim. Isso já me tirou oportunidades, patrocínios que poderiam vir. Para mim, seria muito simples fazer um desfile sem discurso, mas assim mantenho o meu propósito. Sonho com o dia em que não precise discursar por problema nenhum, mas, enquanto este dia não chegar, estou aqui.

Você não tem a preocupação de fazer roupa para um público muito especifico?
A LED foi criada assim e vai continuar assim. Tenho tanto orgulho da minha trajetória que não tenho esse medo. Mas o Célio pode fazer um milhão de outras coisas, roupa de festa, casual, isso que falta as pessoas entenderem.

De que forma o discurso da moda agênero
tem que evoluir?
Acho que não tem evolução nisso, precisamos educar o público. As pessoas precisam entender que, se sentem bem naquela roupa, está tudo bem. Desde muito tempo, vejo amigos (eu me incluo nisso) que encontram roupas em sessão feminina de lojas. Talvez isso seja um sonho utópico para a minha geração, mas é um sonho que estamos construindo para a geração futura. Não tem porque falar de roupa feminina ou masculina. Faço roupa.

Como você está planejando o crescimento da LED?
Para o futuro, quero ter saúde financeira, estar em mais pontos de venda e tenho muito desejo de ter uma loja própria, que talvez não venda só LED, porque acho que tem muita gente boa por aí. Só em Minas existe uma infinidade de marcas que admiro.

Qual é o seu maior sonho?
Meu plano de vida inclui a LED em tudo. O meu maior sonho é ser uma empresa sustentável financeiramente, transparente, com propósito e respeitada no Brasil. Além disso, quero conseguir me estabilizar em São Paulo, sem perder a conexão com Minas, porque nunca vamos deixar de ser uma marca mineira. Acho Minas um dos lugares mais criativos do Brasil, só que, ao mesmo tempo, o tradicionalismo impera. Quero que os novos nomes sejam vistos e respeitados.


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