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Estado de Minas

Em busca do equilíbrio

Sem deixar de lado a poesia, Apartamento 03 apresenta em desfile roupas que podem sair da passarela direto para a rua. Aproximar a moda da realidade é um desejo dos clientes


postado em 12/05/2019 05:06

 

Num mundo em que se busca a imagem perfeita, Luiz Cláudio Silva, fundador da marca Apartamento 03, se esforça para mostrar verdade. “O cliente sempre me cobrava de encontrar na passarela uma roupa que pudesse usar. Achava difícil esse encontro, porque desfile tem mais licença poética que a rua, mas de duas temporadas para cá tenho feito isso”, conta. Na coleção lançada durante o São Paulo Fashion Week, o estilista questiona o excesso de retoques – reais e virtuais – para construir uma realidade que, no fim das contas, não existe.
Luiz se debruçou sobre este tema quando viu nas redes sociais uma foto sua em que não se reconhecia de tantos retoques. Daí, lembrou-se do livro Paraísos artificiais, do escritor francês Charles Baudelaire, que analisa os efeitos do haxixe, do ópio e do vinho, e do trabalho da fotógrafa norte-americana Cindy Sherman, que cria autorretratos extremamente artificiais. Fazendo um paralelo, o estilista enxerga que a “droga” de hoje é a busca por uma imagem irreal. “Temos vivido em um paraíso artificial. Essa procura por tornar tudo liso e jovem em algum ponto faz mal”, opina.

Nesta coleção, o estilista chama a atenção para o que existe de natural no mundo. Por isso, escolheu trabalhar basicamente com linho, tecido renegado por quem busca praticidade e só quer usar roupa que não amassa. “O natural dá muito mais trabalho mesmo. Jardim precisa de água e adubo, fazer comida de verdade exige tempo para comprar os ingredientes e cozinhar e para vestir uma roupa de linho você tem que usar um bom ferro”, analisa. Para o estilista, a beleza do tecido está justamente nas dobras que se formam no sentar, levantar ou dar um abraço.

O linho aparece em quatro cores diferentes (branco, salmão, pink e verde) e em duas versões de xadrez. Luiz descobriu depois que, por coincidência, rosa era a cor preferida de Baudelaire, o escritor que norteia a coleção. Inspirado em uma roupa da cantora Nina Simone, o estilista ainda utilizou fios do linho para desenvolver tramas, semelhantes a redes de pescador, que compõem os looks do desfile. Destaque para a tela branca que está por cima de um macacão. Com franjas na barra e cheia de pontos de luz, ela criou um efeito interessante na passarela.

Normalmente, são os tecidos que dão o start para as coleções da Apartamento 03. “Preciso me apaixonar pela matéria-prima. É isso que faz a roupa ser especial e ter a cara da marca”, justifica Luiz.

PAETÊS
Além do linho, o estilista escolheu trabalhar com o brilho discreto dos paetês, que foram aplicados em uma base de seda e tingidos de amarelo e lilás. Essas mesmas cores são transportadas para o crepe, que ganha bordados em formato de flores (as folhas são de linha e as pétalas de pedras). Luiz também resgatou do seu acervo o tecido que sobrepõe renda a uma organza listrada e, dessa forma, revela outra inspiração: os figurinos da cantora Clara Nunes. “Quando temos referências muito claras, a roupa acaba se parecendo muito com você”, pontua.

De maneira intuitiva, o estilista chegou a uma modelagem descolada do corpo, inclusive na alfaiataria. “Queria uma roupa mais distante do corpo. Acho muito mais confortável quando o que você veste dança no seu corpo”, comenta. Luiz investiu em volumes com mangas exageradas, gola com babados e enormes laços na cintura. Vestidos plissados de georgete de poliéster traduzem a leveza almejada. Para fechar o desfile, peças de paetês de plástico costurados com linha de náilon sobre tela de plástico, numa alusão à imagem irretocável extrema.

As bolsas, desenvolvidas pela marca O Jambu, criam uma ilusão de ótica porque são vazadas. Já os chinelos e os sapatos oxford, representando a busca pelo conforto e pelo básico, foram criados por Virgínia Barros. Carlos Penna assina os acessórios, que misturam metal e flores artificiais.


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