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Vitória do feminismo

Com a faixa de Miss Brasil, mineira de Juiz de Fora quer promover a união entre as mulheres


postado em 31/03/2019 05:09

(foto: Rodrigo Trevisan/Divulgação)
(foto: Rodrigo Trevisan/Divulgação)


Justificar o título pela beleza seria injusto. Com fala segura, objetivos claros e muito entusiasmo, Júlia Horta, eleita Miss Brasil 2019, mostra logo no início da conversa que não quer ser reconhecida apenas pelos atributos físicos. A mineira de Juiz de Fora avisa que planeja usar a visibilidade do título para se tornar uma representante de causas femininas, tanto que no concurso levantou a bandeira da sororidade (união entre as mulheres para alcançar um objetivo comum). “Não tem como lutarmos pelos nossos diretos se não nos respeitarmos”, defende Júlia, que participou de sete concursos de beleza antes de chegar ao Miss Brasil. Formada em jornalismo, a mineira já apresentou o programa da TV Alterosa Casa comigo e não descarta a possibilidade de voltar para a frente das câmeras. Júlia agora mora em São Paulo, onde se prepara para o Miss Universo, ainda sem data definida.


Quem é a Júlia fora do palco e longe das câmeras?

Sou uma menina muito ligada à família e aos amigos. O que mais gosto de fazer nas horas livres é ficar com as pessoas que amo e comer. É só me levar para um lugar de comida mineira que já me sinto realizada. Além disso, sou muito dedicada, desde a época de estudante até hoje.

Conte sobre a sua família.
O meu pai, Eduardo, e a minha mãe, Patrícia, são professores. Estudei a vida inteira como bolsista em uma boa escola de Juiz Fora e isso me fez valorizar muito a educação. Além de ter pais professores, passava o dia no ambiente de trabalho deles, então a escola era como uma família. Lá, tinha um centro muito grande de esportes. Estudava de manhã e de tarde fazia de tudo, handebol, basquete, vôlei. Tenho dois irmãos mais novos (com quem dividi quarto a vida inteira), sempre frequentei a casa dos meus avós e as viagens de férias eram para visitar a minha madrinha, que é jornalista. Então, família para mim é tudo.

Por que você escolheu ser jornalista?
Desde criança, sempre falei em jornalismo. Acho que por causa da minha tia, uma mulher que sempre admirei. Ela era livre, viajava muito e queria ser essa mulher. Cheguei a pensar em direito e psicologia, mas decidi pelo jornalismo mesmo.

Você sempre foi comunicativa?
Eu era a criança que, na aula de português, levantava a mão e pedia para ler os textos e participava de uma oficina de contadora de história, como se fosse um teatro.

O que de mais importante você aprendeu no curso de jornalismo?

Fui produtora e apresentadora de um programa e descobri o que era jornalismo, a responsabilidade de buscar a verdade dos fatos para informar as pessoas e a correria do jornalista. Em outro momento, trabalhei na empresa júnior com marketing e atendimento e isso me ajudou muito com liderança. Mas levo para a vida a importância da comunicação de forma geral. Acredito que ela é essencial para qualquer área da vida. É o que diferencia você. Às vezes, você é uma pessoa incrível, mas, se não sabe se comunicar, ninguém vai saber disso. As pessoas me falavam que o meu dom era falar, mas só com a faculdade entendi que era isso mesmo e passei a valorizar.

Esse dom foi decisivo para a sua vitória no Miss Brasil?

Foi uma parte muito importante para vencer, é um diferencial. Em todos os concursos de beleza, sempre me elogiavam pela minha oratória. Falo que é muito importante falar o que você realmente pensa e sente. Quando as pessoas vão falar em público, buscam a maneira correta de se comunicar, mas isso não existe. Você tem que ser você mesma, e tem que ter muita clareza do que quer falar para se comunicar.

Você tinha planos de ser miss?
Sempre assisti ao concurso pela televisão e achava o máximo, mas não imaginava que poderia ser Miss Brasil. Era modelo na minha cidade, mas lá o mercado era muito fraco, então me convidaram para participar do Miss Minas Gerais CNB, em 2014. Faltava só um mês para o concurso, fui, ganhei e isso me abriu um mundo novo, que não conhecia, e comecei a me apaixonar. Foram sete concursos até chegar até aqui. Brinco que fiz carreira.

O que encantou você neste mundo de concursos de beleza?
Sou movida a desafios. Além disso, os concursos são uma plataforma de muita visibilidade e meu sonho é falar para um número grande de pessoas.

Imagino que não seja um caminho fácil.

Não é fácil mesmo. Envolve muito ego, e nem todo mundo está preparado para ouvir um “não” e não desistir, entender o que precisa melhorar, qual é o seu erro, e não apontar para fora. Não é todo mundo que tem esse lado de resiliência. Devo isso a minha família, que me ensinou valores sólidos, e a todas as sessões de coach, que me fizeram uma mulher confiante, que enxerga o seu potencial e não desiste. Brinco que fazer dieta é a parte mais fácil do caminho. Sempre dou as minhas escapadas. Gosto de comer pizza, hambúrguer, feijoada e doces.

Você faz questão de dizer que o título de Miss Brasil não foi sorte. O que considera ter sido mais decisivo para a sua vitória?
Não acho que teve uma coisa só, foi um conjunto de fatores. A experiência é um deles, por já ter participado de vários concursos de beleza. Sem dúvida alguma, o autoconhecimento também me ajudou. Os juradores me elogiaram porque eu estava muito tranquila e segura. A comunicação também faz a diferença, assim como as pessoas que estavam comigo me apoiando.

Qual foi o maior desafio que você enfrentou para chegar ao título?
Na época do confinamento, ficamos em um hotel vegano em Campos do Jordão e confesso que foi um desafio me adaptar. Não pelo paladar, mas porque o corpo sente a mudança de dieta. Gosto de falar que a preparação de concurso de beleza é uma preparação para a vida. A única coisa que fiz exclusivamente para o dia foi a aula de passarela.

Por que você decidiu levantar a bandeira da sororidade?

Acredito que essa discussão é extremamente necessária hoje em dia. Estamos numa fase em que nunca se discutiu tanto a questão da mulher, não só o feminismo, mas a violência contra a mulher chegou a um nível absurdo. Para conseguir a mudança, primeiro precisamos do apoio entre as mulheres. Não tem como lutarmos pelos nossos diretos se não nos respeitarmos. É muito triste ver que tem muita mulher julgando outra mulher que passou por uma situação de abuso ou violência. Não é possível que não tenhamos pelo menos empatia umas pelas outras. Isso é muito importante.

O que precisa ser feito para conseguir unir verdadeiramente as mulheres?

O mundo nos coloca umas contra as outras, porque sabe que juntas somos muito fortes, mas só depende de nós mesmas a mudança. Vamos causar uma revolução de sororidade porque temos uma força muito grande. Agora no meu reinado, estou buscando me informar o máximo possível. Sou uma voz, porque ganhei muita visibilidade com o título, então quero ser um meio de informação. Além disso, estou pesquisando projetos para apoiar de alguma forma. Desde pequena, participo de ações sociais com a minha mãe. Se eu me identificar com alguma instituição, vai ser um prazer apoiá-la.

Você já foi vítima de machismo?

Várias vezes. Todas as mulheres passam por isso, mas às vezes nem sabem que estão sendo vítimas. Já passei por momentos em que uma pessoa olha para mim e fala: você é inteligente, achei que era só bonita. Além de ser machismo, é preconceito. Assédio tem todos os dias. Uma vez, contei mais de 20 cantadas em um trajeto bem pequeno. Esse é o machismo que mais me incomoda, o homem se achar no direto de fazer isso com você. Me sinto muito vulnerável. Os homens precisam entender, tanto que sempre os convidamos para o debate, porque feminismo é inclusão. Os homens são agentes de transformação porque podem mudar outros homens e lutar com as mulheres.

A beleza já foi um problema para você?

Se falar que é problema, vou ser hipócrita, porque, na maioria das vezes, sempre me favoreceu, mas vou dar um exemplo do contrário. A vida inteira quis colocar silicone. Fiz a cirurgia aos 18 anos, mas nunca coloco decote na rua, não quero atrair olhares. Nesse sentido, a beleza incomoda, sentir que todas as pessoas estão olhando para você.

Como você cuida da sua beleza?
Sempre amei fazer exercício físico. Quando ainda morava na minha cidade, fazia musculação, spinning e muay thai. Tenho a pele seca, então me preocupo com a hidratação, e faço procedimentos estéticos.

Além do silicone, você já fez outra cirurgia plástica?

Não, essa foi a única.

Você sempre teve o cabelo mais curto?

Cortei há um ano e meio. Estava voltando de um concurso fora do Brasil e, naquele época, tinha decidido que não participaria mais. Queria fazer algo que simbolizasse a mudança, então cortei o cabelo. Aquilo me fez muito bem, mexeu muito com a minha autoestima, me senti muito bonita. Quando voltei aos concursos, me perguntavam se não ia colocar megahair, mas nunca quis. O meu cabelo curto é símbolo de confiança e autoestima. Estou recebendo mensagens de mulheres que cortaram o cabelo inspiradas em mim. Querendo ou não, isso mostra outras possibilidades. Os concursos de beleza estão dando mais abertura para a diversidade. Por exemplo, no Miss Universo do ano passado, a representante da Espanha era trans.

Como será a sua preparação para o Miss Universo?

Continuo com exercício físico, aulas de inglês via Skype, vou começar a fazer tratamentos estéticos, aula de passarela e pensar na composição de looks, é muita coisa. Essa é a oportunidade da minha vida, então quero chegar na minha melhor versão. Para isso, preciso me preparar de forma integral. A expectativa é muito alta, me sinto confiante e muito preparada emocionalmente. Estou superfeliz com o reconhecimento, não só no Brasil, mas lá fora, foi uma surpresa muito positiva. Falam que tenho uma beleza simples, que ao mesmo tempo encanta. Teve um japonês que comentou que eu parecia uma deusa na passarela.

Quais são os seus planos para depois do reinado?
O meu sonho e o meu propósito de vida são impactar positivamente o maior número de pessoas. Quero continuar com essa voz voltada para as mulheres, quero apoiar projetos sociais e o meu outro sonho é palestrar. Além disso, espero que consiga apresentar um programa de televisão, é o meu sonho como jornalista. Gosto muito da área de vídeo. Sou uma pessoa que gosta de fazer de tudo um pouco.

O que você fala sobre Minas para as pessoas de fora?
O nosso estado tem muita diversidade, de sotaque, comida, e somos um povo muito acolhedor. Todo mundo chama para tomar um café e comer um pão de queijo.


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