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Estado de Minas

Arquitetura do amor

Paulista Guto Requena ganhou o mundo com seu trabalho, unindo design à tecnologia


postado em 31/03/2019 05:09 / atualizado em 12/04/2019 12:27

A instalação da Praça da República, em São Paulo, intitulada Meu coração bate como o seu(foto: Ana Mello)
A instalação da Praça da República, em São Paulo, intitulada Meu coração bate como o seu (foto: Ana Mello)

 


O arquiteto, urbanista e designer paulista Guto Requena fez palestra em Belo Horizonte, a convite de Beatriz Maranhão, para comemorar os 28 anos do BM Office Concept, e surpreende pela inovação de seu trabalho. Assina como arquiteto e ativista da empatia e tem como pilar de seus projetos o amor e a tecnologia. Aos 39 anos, já fez palestras em mais de 30 países, tem uma instalação em Paris que foi premiada e está desenvolvendo um grande trabalho em Portugal. Trabalha nas mais diferentes escalas, e independentemente de qual for, existe uma metodologia de criação na inspiração, em como desenha e faz os protótipos, até a fabricação. O profissional desenha praças, fachada de prédios, edifícios, mobiliário, chegando à escala mínima que são objetos de vestir.

Nascido em Sorocaba, no interior de São Paulo, passou a infância e adolescência no sítio da família em Araçoiabinha da Serra, e esta criança livre em contato com a natureza influenciou muito no seu jeito de ser. “Crescer livre e sem medo foi muito importante. O medo é uma construção muito triste, viver fechado em condomínios, trancados dentro de casa e apartamento, presenciar a violência, um assalto, um assassinato faz muito mal para a psique”, explica Requena.

A Faculdade de Arquitetura, na USP São Carlos, foi o divisor de águas na sua vida, por ter sido lá que teve contato com as primeiras tecnologias cibernéticas – a primeira conta de e-mail, as primeiras redes sociais, como o extinto Orkut, MSN, etc. Aquele universo digital se abriu para Guto no primeiro ano e a paixão pela tecnologia o levou a uma crise com a arquitetura, pois de um lado tinha os professores ensinando arquitetura modernista, concreto, tijolo, Oscar Niemeyer, e do outro, ninguém falava do universo digital, seu maior interesse. Na USP, entrou em um grupo de pesquisa em que ficou por nove anos como pesquisador bolsista, chamado Nomades, que é o centro de estudos de habitares interativos da universidade (nomads.usp.br). Ali foi sua segunda casa, a segunda escola, onde teve contato com as pesquisas de tecnologia de cibercultura que estavam engatinhando naquele tempo. “Estudei cibercultura, arquitetura interativa, sensores, criando uma base teórica, que permitiu abrir meu escritório em 2008. Foi ali que percebi que poderia unir a tecnologia com a arquitetura para construir o que eu chamo de arquitetura híbrida, que é a arquitetura que une o analógico com o digital”, explica.

Paixão Fez mestrado e ficou na dúvida se fazia doutorado, se seria professor acadêmico ou abriria seu escritório. Decidiu colocar a mão na massa. O primeiro projeto no qual conseguiu unir o que estava estudando há anos com o mercado foi para o Sesc  Pompeia. Uma cenografia para uma exposição sobre tecnologias vestíveis. Construiu uma parede interativa de baixo custo feita com plástico-bolha. Espalhou um conjunto de sensores no prédio para detectar presenças e a parede mudava de cor de acordo com a presença das pessoas. “Algo muito simples ainda, mas tive a certeza deque era isso que queria fazer para sempre.” Guto é um ativista, por isso a maioria de seus projetos levanta a bandeira dos direitos humanos ou do aquecimento global, é o que mais o atrai.

O primeiro projeto que fez, colocando em prática a pesquisa de mais de 15 anos, unindo memória afetiva e tecnologia, foi em 2011, quando convidou sua avó para contar histórias e durante sua narrativa captou a emoção da voz. Em 2014, lançou o Love Project, mais um desdobramento da pesquisa que vem desde a faculdade que despertou em Guto a vontade de unir afeto com tecnologia. Gravou algumas histórias captando as emoções, escolheu três delas e cada uma resultou em um objeto – uma fruteira, uma luminária e um vaso, todos impressos em 3D. O projeto continua em desenvolvimento até hoje, com melhorias como novos sensores, novas performances e, consequentemente, novos objetos.

“Acredito muito neste projeto porque criamos uma tecnologia nossa que pode se desdobrar em várias coisas. Dele surgiu o Aura Pendant, um aplicativo disponível apenas para iphone e em inglês, através do qual a pessoa pode gravar uma história de amor no celular, colocando o dedo no flash. O programa fará a leitura dos sentimentos e criará uma mandala, pequena, em cima dessas emoções. O usuário pode ver a mandala e se quiser tê-la, pode fazer a compra, ela é feita por impressão 3D. O pingente é disponibilizado em três materiais, prata (US$89), ouro (US$499) e ouro rosê (US$349). Cada mandala é única, como uma impressão digital, porque cada história contada emite uma emoção única. Se uma pessoa contar três histórias diferentes, terá três mandalas diferentes. Podemos coletar 2 bilhões de histórias de amor e todas resultarão em uma mandala diferente, porque cada nuance do sentimento é única. Foi a maneira que criamos de desenvolver um objeto que na verdade, mais que a forma final, pudesse conter a lembrança de um momento especial. É muito simbólico e é algo que você carrega no peito. Enviamos para qualquer lugar do mundo. A pessoa pode ter acesso pelo perfil no Facebook ou no aplicativo Aura Pendent e tem o site loveproject.com.br ou ainda no meu site gutorequena.com que tem vídeos e tudo o que criamos.”

Sonho O sonho de Requena é criar uma obra de arte urbana, uma escultura com histórias dos imigrantes. Coletar o biofeedback deles, os sentimentos na narração de histórias e criar uma escultura sonora, que quando a pessoa entrar nela poderá ouvir os relatos desses imigrantes. Outro sonho é criar uma arquitetura a partir dessa tecnologia. “Imagina que lindo no futuro, em vez de você entrar em um prédio que foi criado apenas pela estética e pela funcionalidade, mas, para além disso, as formas dele terem sido criadas pelo amor. Como seria uma escola criada pelo amor dos professores pelo ensino? Como seria a forma de um hospital gerado pelos médicos, ou como seria um centro de imigrantes gerado pela história dessas pessoas? É um futuro que parecia muito distante e utópico, mas que é possível. Estou provando com esse projeto.”

O foco do arquiteto é a sustentabilidade. Segundo ele, provavelmente seremos a espécie que durou mais tempo no mundo, mas que também está destruindo o planeta, e a única saída, a seu ver, será através da tecnologia, pois ele não acredita que tenha outra maneira de interrompermos o aquecimento global, e essa tecnologia associada ao amor que é o no que ele mais acredita. “O que nos faz humanos é o amor e a sobrevivência da profissão é uma tecnologia com amor. Muita gente pensa que a tecnologia vai nos afastar, nos deixar em uma sociedade pior e mais fria, luto para que seja o contrário, para que a tecnologia nos aproxime e nos faça reconhecer como todo mundo é irmão, é uma raça só e temos todos que dar as mãos”, esclarece.

Para ele, pensar no futuro do design tem de ser a partir de materiais biodegradáveis, impressos em 3D, o que já é uma realidade. Sua proposta é que as lojas tenham uma tecnologia pela qual seja possível o consumidor comprar um objeto único, criado por sua história de amor, para dar de presente para alguém que ele ama. O ciclo de vida desse objeto será muito mais longo, pois não se baseia no que está na moda, mas literalmente vende uma emoção. Quando a pessoa morrer outras herdarão a peça, mas, se ninguém quiser, será possível jogar o objeto no mar porque ele é biodegradável. Esse é o futuro que Requena acha possível, e tem trabalhado para implantá-lo em seu estúdio, pois ele já provou que é possível colocar sentimento na tecnologia.

Sustentabilidade
Outra diferenciação é que o Estúdio Guto Requena cria alguns projetos com código aberto para serem copiados por qualquer um em copy left. Os desenhos são licenciados ,  têm  uma licença, para que as pessoas copiem. Entre eles, há uma coleção de móveis e algumas das obras de arte,  por serem itens que visam estimular a empatia nas pessoas.

O profissional tem paixão por projetar escritórios, interiores. É dele a criação da sede da Google, da Macisa e do Walmart do Brasil, com esta última ganhou o prêmio Bild of the Year  do Archdaily. Seu trabalho mais recente é o escritório da startup de seguros Yuser. “Procuro falar de aconchego, de materiais e acústica para criar um ambiente mais intimista. Estou louco para fazer arquitetura residencial para alguém que tenha o espírito de inovação, quero fazer uma casa que tenha sustentabilidade, aconchegante e que seja brasileira. Estamos pesquisando muito no escritório a tecnologia de madeira, que é a construção do futuro, não tem como continuarmos construindo com concreto e com ferro. A madeira é o que mais está se desenvolvendo no mundo, é sustentável, de fonte renovável, mais resistente e na minha opinião, mais bonito”, conclui.

Interatividade  Um cliente pediu que fizesse uma fachada fantástica para seu hotel, em São Paulo, há quatro anos, e o trabalho foi inovador. O cliente não pediu algo interativo, mas foi o que recebeu. Com base no ar e no som da cidade no seu entorno foi feito um revestimento na fachada que de dia é colorido e à noite as luzes roubam a cena. Quem passa pela Rebouças não tem como não ver, principalmente à noite. As luzes da Criatura dão vida ao prédio e mudam de cor pela qualidade do ar – se estiver vermelha é porque o ar está péssimo, e é a cor predominante, por se tratar de São Paulo. As formas se transformam de acordo com o barulho, captado por microfones instalados no entorno do prédio. Quanto mais barulho maior fica essa criatura. Existe um aplicativo que permite interatividade com as pessoas por meio de avatar de cor. Vendeu a ideia ao cliente e depois de um ano ele concordou. O retorno que teve de mídia foi enorme, quando chegou em seis milhões, parou de contar. Saiu nos telejornais de todas as emissoras, e em todos os jornais, foi para a mídia internacional.

A Intel e a National Geographic encomendaram um trabalho para a Praça da República. Lá foi feito, há 40 anos, o primeiro movimento pró-LGTB, com oito pessoas. O Brasil é o país que mais mata LGTBs no mundo, um assassinato a cada 19horas. Daí veio a inspiração. Foi criada uma escultura interativa como se fosse uma bandeira fincada na praça, com a base servindo de bancos e nas cores da bandeira do movimento, com som e luz.

Guto Requena agora está focado na internacionalização do estúdio, com vários projetos fora do Brasil. Representa a primeira geração de design e arquiteto da internet, porque foi através dela que ficou conhecido no exterior e conseguiu fazer trabalhos fora do país. A publicação de sua cadeira Noise, em 2012, se espalhou pela internet e fez com que ele ficasse conhecido no exterior depois que publicou o trabalho em um blog internacional. Já visitou 25 países por causa dessa cadeira. A Noise surgiu a partir da captação do som das ruas de São Paulo que foram misturados ao arquivo com a cadeira Girafa de Lina Bo Bardi, sua arquiteta preferida. Pegou a cadeira Girafa, tridimensionalizou-a em scanner 3D e uniu os arquivos. O resultado foi uma distorção da cadeira original. O projeto fala muito sobre remix, autoria, cultura digital e a imprensa adorou.

Agora, está fazendo uma sala de música em Lisboa, que ficará pronta em 2021, com sala de orquestra, discoteca, restaurante e será tudo reconfigurável. O estúdio também está desenvolvendo um projeto para a Avenida Paulista, a Praça do Ciclista, em frente ao Instituto Moreira Salles.

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