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A hora e a vez das gordinhas

Ala de mulheres plus size mostra que remelexo e samba no pé cabem em qualquer tamanho de corpo e que no carnaval não existe preconceito


postado em 10/03/2019 05:06

(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

No ano em que o carnaval caiu no mês da mulher, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Canto da Alvorada, vencedora em 2018 e detentora de 16 títulos de campeã em Belo Horizonte, fez algo inédito no estado: lançou uma ala feminino plus size. Intitulada Plusamba, e carinhosamente apelidada de Empoderadas, a ala levou 23 mulheres para a avenida, que se esbaldaram e mostraram que peso não é empecilho para sambar.

A inspiração veio dos desfiles do Rio de Janeiro, que já contam com ala de mulheres plus size nas escolas de samba. A coordenadora da Canto da Alvorada Sicátria Paula sugeriu à diretora e carnavalesca da escola de samba, Maria Elisa Moraes, que criasse a ala para o claro recado à sociedade de que basta de preconceito e que estar fora do padrão ditado pela sociedade está “por fora”, afinal, mais da metade da população mundial tem sobrepeso. Sugestão dada, sugestão aceita.

“Já namorávamos a ideia há algum tempo, porque a ala já existe em São paulo e no Rio de Janeiro. Conseguimos 23 inscrições e mostramos para todo mundo que a mulher gordinha pode sambar tão bem quanto qualquer outra. Qualquer um pode dançar”, diz Sicátria, coordenadora de passistas profissionais. “Elas estavam se sentindo poderosas e absolutas. Foi muito bacana, uma cura de depressão para muitas delas. Foi um empoderamento, uma inclusão. Era isso que queríamos. Vamos repetir ano que vem com uma ala maior. Teve muita gente na avenida pedindo nosso contato para entrar no próximo desfile”.

Para montar a ala, a escola convidou Nilton Mattos, professor e coreógrafo de dança e diretor de moda do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões (Sated-MG), para ajudar na coordenação. Ele foi o primeiro profissional a levar mulheres plus size para fazer curso de modelo e manequim. Segundo Nilton, a mulher plus size é aquela que está acima dos padrões tradicionais da ditadura da moda, com um manequim de 46 para cima.

Ele conta que a valorização da mulher plus size como modelo surgiu depois que a brasileira Fluvia Lacerda foi descoberta pelo mundo fashion, dentro de um ônibus em Nova York, e se tornou modelo fotográfica. Depois dela, veio a americana Ashley Grahan. Foi Fluvia quem levantou a bandeira afirmando que “gordo” não era palavrão e sim um adjetivo como outro qualquer.

Mas nem toda pessoa que é gorda pode ser modelo plus size. Até fora do padrão existe um padrão. Para exercer a profissão, a mulher precisa ser curvey, ou seja, ter cintura fina, um bom quadril e nada de abdômen. E um requisito a mais, que não é pedido para as modelos magrinhas: ter um rosto bonito.

A mulher tem rompido fronteiras nesta área, a prova disso são as modelos que tem ganhado cada dia mais espaço nas passarelas e capas de revista, como a canadense Chantelle Brown-Young, que tem vitiligo, e a russa Nastya Zhidkova, que é albina. Segundo Nilton, “quando a moda é um veículo do bem, a inclusão, a diferença, o respeito e o amor falam mais alto do que qualquer preconceito”.

O coordenador conta que muitas das integrantes da ala Plusamba chegaram com histórias de vida destruídas, com desprezo e desrespeito, e puderam ver o quanto são importantes para si mesmas e para todas as pessoas no seu entorno. Foi feito um trabalho com cada uma delas, baseado no que ele faz em sua escola, para descobrir como cada uma está e o que a levou a querer participar, e ajudá-la a vencer as barreiras e preconceitos.

“No dia seguinte do desfile, recebi uma mensagem de uma das integrantes dizendo que sua participação devolveu a ela a vontade de viver e a fez se sentir bonita e respeitada. A ala não foi só para o carnaval, mas para a vida toda. Queríamos dar um recado para o público, e acabamos fazendo um trabalho com elas e para elas”, avalia o profissional, que relata que depois do desfile só se viam sorrisos, lágrimas e suspiros de conquistas. “Foi como se elas tivessem tirado o peso do pré-conceito das costas e da cabeça. Foi a valorização do eu, um legado para a vida.”

INESQUECÍVEL
Amanda Barros, de 42 anos, modelo plus size, Miss Minas Gerais Plus Size Oficial Senior 2015, viveu um momento inesquecível no desfile da Canto da Alvorada. Gordinha desde pequena, ela nunca teve problema com seu peso e afirma que a mulher tem que se aceitar do jeito que é, desde que esteja com a saúde em dia. Sempre foi a maior da turma, era a pivô no handebol, e sempre teve um quadril muito largo, mas na época de sua infância e adolescência não existia o bullying como nos dias de hoje. Sempre foi fora do padrão, mas nunca muito obesa. Nunca pensou em concursos de beleza, foi seu marido quem a incentivou quando ouviu o jornalista Ricardo Carlini divulgando o concurso Miss Minas Gerais Oficial etapa sênior. Tanto insistiu que ela decidiu participar para ter seu dia de princesa e acabou levando o título, ficando depois em quarto lugar no cenário nacional. Na preparação para o concurso, participou de um workshop e os organizadores a convidaram para seguir carreira de modelo. Se profissionalizou e virou inspiração para muitas mulheres. Sobre o desfile, afirma ter sido maravilhoso e que foi preciso sair da zona de conforto para adquirir pique e fôlego para sambar por tanto tempo. Mas valeu a pena, principalmente pela reação inesperada do público, que aplaudiu e gritava “maravilhosas”.

Quem ajudou a mobilizar as mulheres plus size para participar da ala foi a atual Miss Minas Gerais Plus Size Oficial 2018, Gi Freitas, que também foi o destaque da Plusamba. Para ela, o desfile foi a realização de um sonho particular, por que sempre teve o desejo de sair em uma escola de samba. “É de arrepiar, do dedo do pé à ponta do cabelo. Fomos aplaudidas, reverenciadas, enaltecidas. O público nos surpreendeu. Gritava lindas, maravilhosas! Essa ala foi um ganho para Belo Horizonte, um incentivo para a mulher plus size brasileira que, em sua grande maioria, tem a autoestima baixa por vários motivos.

As pessoas podem achar que isso é pouco, mas não é. Uma ação dessas atinge pessoas de várias idades, principalmente as mais novas. Temos que entender e assumir que gorda não é um palavrão, como disse a primeira modelo plus size do mundo, Fluvia Lacerda, essa palavra é apenas um adjetivo como outro qualquer”, diz Gi, que aos 32 anos conta que sempre lutou com a balança e sofreu bullying dentro de casa. Dois dos irmãos são altos, sarados e com barriga de tanquinho. “Eles me massacravam, eu reagia e enfrentava, e quanto mais eu enfrentava, mais eles me instigavam e eu sempre saia chorando, até o dia em que eu me aceitei. Não foi fácil, me sentia mal, me escondia em roupas largas e pretas, e quem me ajudou neste processo de aceitação foi meu atual marido. Um dia ele me confrontou e perguntou como poderia me amar se eu não me amava. Me doeu muito, me olhei espelho e questionei o que tinha de ruim em mim. Parei de me comparar aos meus irmãos e vi o quanto eu era bonita. Depois que descobri minha beleza, as pessoas passaram a me ver bonita também”, conta a miss.

A partir daí os colegas de faculdade começaram a indicar concursos de beleza plus size. Apesar de relutar bastante, a jovem decidiu encarar o desafio e logo no primeiro concurso que entrou, em 2016, levou o primeiro lugar. No processo preparatório, já recebeu convites para vários trabalhos, as portas se abriram e então se profissionalizou. Depois veio o convite de Renata Issas para o Miss Minas Gerais Plus Size Oficial.

Gi tirou de letra o papel de destaque, porque sempre foi muito ativa. Dança forró, samba de gafieira, foi campeã mineira de judô aos 9 anos, praticou jiu jitsu e treina muay thai. Como ela mesma diz, é uma gordinha muito ativa e o samba corre em suas veias. “No princípio as pessoas olhavam assustadas, depois que viam que estávamos seguras, o olhar passava a ser de admiração. Olhei para a arquibancada e todos estavam vibrando, sorrindo, aplaudindo, pedindo para tirar foto. Senti um peso de todas as pessoas que estavam representando quando coloquei a fantasia. Foi surreal, uma sensação única dever cumprido”, conclui.

O mesmo sentimento de alegria, orgulho e alma lavada invadiu as integrantes Suely Luciano, de 55, encarregada de serviços gerais; Nayara Juliene de Almeida, de 31, cabeleireira, e Luciana Henriques Leal Rocha, de 39, funcionária pública. Cada uma teve seu motivo para enfrentar esse desafio. O sonho de sair em uma escola de samba, provar que consegue atravessar uma avenida, provar para a sociedade que gordos podem fazer tudo e estar em qualquer lugar. E fizeram bonito.

A cada passo e a cada batida do samba distribuíam sorrisos e jogavam na avenida um pouco da dor e do preconceito que sofreram ao longo da vida. Saíram de alma lavada. Luciana sempre desbravou lugares que antes pertenciam às mulheres magras. Foi a primeira Plus Fight Girl da Federação Fight de MMA e gosta desses desafios para mostrar para as mulheres com sobrepeso que não existe barreira. Nayara tinha um corpo violão quando adolescente, engravidou do namorado aos 14 anos e na gravidez engordou 60 quilos. Desde então, nunca mais conseguiu emagrecer. Ficou viúva e só quando conheceu seu segundo marido conseguiu se aceitar. “Demorou, meu primeiro vestido mais curto eu usei há três meses e agora saí na escola de samba. Nem acreditei, mas foi a melhor coisa que fiz na vida”. O desfile veio para coroar este momento de mudança e dar força para ela se mostrar para a vida.

Viva a mulher, do jeito que ela é.


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