Em um dos vários documentários feitos sobre sua trajetória profissional, Karl Lagerfeld disse que não era apenas um, mas, sim, uma variedade de personagens que havia interpretado durante a sua vida. O último deles foi o de um superstar que elevou a moda a um patamar um pouco acima da futilidade que a maioria atribui ao setor – embora nenhum civilizado viva sem roupas.
Desde que saiu da Alemanha para estudar em Paris, o objetivo de Herr Lagerfelt (depois Lagerfeld, pois achava o “d” mais comercial) era de se transformar no kaiser da moda. Foi muito além disso. Tornou-se a figura fashion mais popular dos últimos tempos, com seu rabicó nos cabelos brancos, óculos escuros, terno preto, adereços + gravata e as infalíveis mitaines – as luvas escondendo as rugas das mãos.
A repercussão de sua morte (assunto mais acessado na web na semana e chamadas com fotos em 90% dos jornais do mundo inteiro) comprova essa sua proeza – algo que o mundo da moda só viu quando Dior morreu, prematuramente, no final dos anos 1950.
As personagens encarnadas por Lagerfeld, desde a juventude, podiam ser extravagantes, clássicas, generosas, cruéis, explosivas – jamais simplórias. Podia se desviar das celebs no backstage do desfile para ir abraçar, afetuosamente, uma senhora de roupas simples escorada em uma bengala num canto da sala – por saber que ela era a Martine, uma criadora de ovelhas que a própria Coco Chanel procurou, nos difíceis tempos pós-guerra, por ela possuir um tear na sala e que se dispôs a desfiar o tweed (tecido ícone da grife) e, com os fios, tecer a famosa passamanaria trançada que até hoje é marca registrada dos autênticos tailleurs da Chanel.
Mas podia também pulverizar o antigo amigo e, depois, eterno concorrente Yves Saint-Laurent com ironias finas, dizendo que este era ‘uma invenção de Pierre Berger (menager e companheiro de YSL)’. Os passeios, juntos, de carro pela avenida Champs Elysées e as ‘festas particulares’ com os bombeiros de Paris ficaram num passado (convenientemente) esquecido. Não o bastante para lembrar quem foi quando jovem. Foi vanguardista e adorava chocar o público em geral usando roupas espalhafatosas – chamando a atenção nas ruas e nos aeroportos por onde passava, levando dezenas de malas recheadas desses ‘trajes modernos’.
Um talento para se promover que também se revelava na criação.
Tanto quanto a moda, gostava de fotografia e livros. Por isso, atuou como fotógrafo de várias coleções, fez filmes, montou uma livraria e foi editor. Até mesmo de jornal, pois assinou uma das edições do Metro-Paris.
Dizia-se mais ilustrador do que designer de moda e, realmente, seus desenhos explicavam nos mínimos detalhes o que deveria ser feito. Por trás disso, um profundo conhecimento têxtil que permitia saber o exato caimento ou volume de determinado detalhe da roupa. Uma dádiva para costureiras e contra-mestras dos ateliês.
OPORTUNISMO Conhecida de todos, sua acidez em dizer o que pensava e não dar bola para os modismos era o terror dos politicamente corretos. Para ele, movimentos como o Peta (contra uso de peles de animais), #me too, veganismo e outros são apenas oportunismo midiático e comercial – pois, no final, tem sempre alguém lucrando com esses assuntos.
Exigente consigo mesmo, mesmo sua vida privada seguia a rigidez alemã.
A observação mais importante, porém, é que a morte de Karl Lagerfeld apaga uma das poucas fontes de energia fashion cujo núcleo irradiador é a criação. A união de sua força criativa e midiática amenizou (um pouco) o peso do inexorável destino da moda em nossa era digital – onde a criação foi substituída pela gestão.
Fendi fala em “perda inimaginável”
A influência de Karl Lagerfeld na história da italiana Fendi é surpreendente. Foi em 1965 que Paola, Anna, Franca, Carla e Alda Fendi deram as boas-vindas ao jovem designer alemão que logo revolucionaria a marca e a conduziria por cinco décadas de inovação pura e inabalável, dando vida a criações que esticaram os limites da moda.
Desde os seus primeiros dias na Fendi, onde manteve a mais longa relação no mundo da moda entre um designer e uma casa de moda, Karl Lagerfeld foi um verdadeiro visionário em tudo o que criou, desde as campanhas publicitárias até as suas coleções ready-to-wear e couture. Ele se atreveu a empurrar limites. Um gênio moderno com um senso único de destemor estético, que influenciou toda uma geração de designers.
Graças à inigualável criatividade de Karl Lagerfeld, em colaboração com Silvia Venturini Fendi, a marca se tornou sinônimo de qualidade atemporal, forte tradição, experimentação implacável e criatividade ousada. Para a equipe, é uma perda inimaginável. “Ele nos deixa uma enorme herança, uma fonte inesgotável de inspiração para continuar”, disse o presidente da Fendi, Serge Brunschwig.
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