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Resistência em Nova York

Mesmo sem grandes nomes e quase sem verba, semana norte %u2013americana de moda masculina segue com a missão de mostrar que todos os homens podem se vestir com charme, estilo e liberdade


postado em 10/02/2019 05:04

Joseph Abboud(foto: dan & croina/divulgação)
Joseph Abboud (foto: dan & croina/divulgação)


Na edição em que os estilistas foram lançados à própria sorte, a Semana de Moda Masculina de Nova York resiste. Mesmo sem perspectivas de patrocínio, as marcas participantes – a maioria jovem e independente – conseguiram mostrar que as roupas para homens podem e devem surpreender. Entre as coleções outono/inverno 2019, muitas levantaram a bandeira da moda sem gênero e da liberdade de se vestir, numa tentativa de traduzir o que se imagina para o homem contemporâneo.
Alejandro Gómez Palomo é um dos que resistem. À frente da marca Palomo Spain, o espanhol trocou Madrid e Paris por Nova York – onde fez a sua estreia internacional há dois anos – com a justificativa de que a cidade norte-americana tem uma “energia diferente”, que ele define como jovem e de mudança. Defensor de uma moda sem gênero, o estilista ganhou fama depois de desenhar a roupa que a cantora Beyoncé usou para apresentar os filhos gêmeos.


Intitulada 1916, a coleção apresentada na passarela se volta para o ano em que a companhia de balé do russo Serge Diaghilev se exilou na Espanha para fugir dos conflitos da Primeira Guerra Mundial. Para reviver esse contexto, Palomo escolheu trabalhar a alfaiataria com elementos que remetem ao seu universo, feminino, mais fluido e sensual, que tem tudo a ver com a dança. Dessa forma, ele une o luxo russo e a exuberância espanhola, o que faz lembrar trajes de flamenco e até de tourada.


Cortes clássicos da alfaiataria se misturam a rendas, transparência, plissados e babados. Ao mesmo tempo, o jovem estilista ousa nas modelagens ao mostrar, por exemplo, terno que vira macacão, blazer com recortes que simulam a sobreposição de duas peças e camisa com gola plissada. Há também casaco com uma pegada sportwear, só que de veludo. Sobre as estampas, os poás dominam, oscilando entre minúsculos e exagerados (em uma delas, as bolas vão ficando disformes até desaparecer).


O norte-americano Joseph Abboud organizou o seu desfile em um píer de Nova York. Como nesta temporada ele fala sobre imigração, quis que os modelos surgissem na passarela como se estivessem desembarcando para uma nova vida. Um dos poucos nomes antigos que se mantêm no line-up da semana de moda masculina, o estilista fez uma homenagem aos viajantes de todo o mundo que chegaram à Ilha Ellis, a principal porta de entrada para os Estados Unidos no século passado. Em especial, ele relembra a história dos seus avós libaneses, que atravessaram o mundo em busca do sonho americano.


Intencionalmente, as roupas têm um aspecto surrado. Tweeds lavados, veludos e flanelas gastas, todos em tons sóbrios, ajudam a criar esse efeito, que automaticamente nos remete aos trajes de quem viajou por um longo período. Abboud ainda costurou partes de tapetes orientais em algumas peças para dar a ideia de remendos, espalhou botões diferentes em um mesmo blazer e apenas dobrou as barras das calças. Para reforçar o ar vintage, boinas, luvas e lenços amarrados ao pescoço.


O estilista consegue misturar (artesanalmente, como ele faz questão de dizer) tecidos, padronagens e texturas com harmonia. As sobreposições, que são uma característica marcante do seu trabalho, chegam ao extremo com três ou mais peças, entre camisas, coletes, blazers, casacos e capas, que envolvem os “viajantes” como cobertores. Mais largas que o habitual, as calças também traduzem a busca pelo conforto. Os cintos, que aparecem em praticamente todos os looks, são enrolados ao corpo fora do cós.


“Como neto de imigrantes libaneses, sinto muito orgulho de celebrar a rica tapeçaria e o patrimônio diversificado da América da melhor maneira que conheço: fazendo roupas atemporais, autênticas e de qualidade para todos os americanos”, escreveu Abboud.


O desfile de Todd Snyder entrou no clima dos anos 1970. A proposta era recriar na passarela um porão suburbano para mostrar a coleção com estilo retrô. Muitas roupas parecem ter saído do brechó. Coletes estampados de lã (quase em extinção nos dias de hoje), suéteres com aparência surrada, veludo de cima a baixo, xadrezes de vários tamanhos e listras coloridas. Destaque também para gola rolê, cintura alta e calças com a barra mais curta, deixando à mostra as meias combinadas com tênis e mocassim.


As roupas esportivas continuam a ser exploradas pelo norte-americano, que já trabalhou para Polo Ralph Lauren e Gap. A nova coleção tem moletons com capuz – alguns com o escrito Iowa, estado onde o estilista nasceu –, jaquetas bomber, parcas e casacos de comprimento abaixo do joelho. Uma das peças chamou a atenção por ser amarrada ao corpo com tiras de mochila. Além do veludo, Snyder utilizou nas roupas de inverno couro e tecido tecnológico. As cores fluorescentes, como laranja, amarelo e roxo, reforçam o lado contemporâneo da coleção.

RELÓGIO Nesta temporada, o estilista apresentou duas collabs de peso. Uma com a marca japonesa de roupas de esqui Descente. Logo, não poderiam faltar casacos, coletes e calças de gomos para enfrentar o frio intenso, entre lisos, estampados e com uma mistura de cores vibrantes. A outra parceria é com a fabricante de relógios Timex, dos Estados Unidos. Snyder lançou, inclusive, um acessório que desenvolveu inspirado em um modelo clássico da marca, datado de 1977. A sua criação, com pulseira de couro e cara vintage, ganhou o nome de Mid Century.


No primeiro desfile em Nova York, a marca No Sesso, há quatro anos no mercado, ganhou os holofotes por vários motivos. Pierre Davis, já reconhecida em Los Angeles, é a primeira estilista transexual a participar da semana de moda. Ao lado de Arin Hayes, ela lidera uma marca de nome italiano (que significa sem gênero) disposta a desafiar as convenções da moda e da cultura. O próprio Conselho de Designers de Moda dos Estados Unidos anunciou que faria história com o desfile, e isso se comprovou.


Outro motivo para o frisson: as roupas fogem de tudo o que se viu em três dias de desfiles. Não só pela proposta de vestir todos os corpos, independentemente de idade, gênero ou raça, mas também pela iniciativa de revelar esses corpos sem pudor. A saia curta e colada tem fenda que sobe até a cintura, a calça tem um rasgo no meio da coxa, o blazer não tem uma das mangas, a jaqueta curta deixa toda a barriga de fora e o espartilho tomara que caia faz as vezes de blusa. “É importante que todas as pessoas tenham a chance de lutar por sua identidade”, avisou a estilista.


Para desenvolver a coleção, Davis se inspirou nas roupas dos executivos, mas, obviamente, passou longe do convencional. Os looks misturam a formalidade do que se usa em escritório com elementos da moda esportiva. Em alguns momentos, ficam em evidência os ombros estruturados e as mangas que ultrapassam os braços. A estilista ainda exibiu bordados manuais e materiais que ela garimpa em brechós da sua cidade, por isso vemos vários exemplares com patchworks.


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