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Homem sob medida

A Blade Alfaiataria conquistou uma clientela seleta apreciadora de ternos de qualidade, peças criadas de acordo com necessidades, personalidade e biotipo de cada um


postado em 27/01/2019 05:08

Marcelo Blade comanda o atelier(foto: halexander/divulgação)
Marcelo Blade comanda o atelier (foto: halexander/divulgação)



Blade Runner – O caçador de andróides, filme cult do princípio dos anos 1980, mix de gênero noir e ficção científica, impactou decisivamente a vida de Marcelo Durães. Tanto é que, na época, ele lançou uma marca de moda masculina que tinha o mesmo nome da película distópica de Ridley Scott. E a alfaiataria que comanda com a mulher, Simone Martins, há 27 anos, também se chama Blade Alfaiataria. Para completar, o irrequieto Marcelo anexou Blade ao sobrenome – e assim ficou conhecido.


Mas, independentemente dessa história, o dublê de empresário e alfaiate se encaixa perfeitamente naquele ditado antigo que diz que “quem sai aos seus, não degenera”. Marcelo é filho do famoso alfaiate mineiro Hermano, que confeccionava ternos para a fina flor da sociedade de Belo Horizonte. Foi criado dentro de uma alfaiataria, apreendeu os ensinamentos do pai e vem repetindo o mesmo sucesso paterno trabalhando, há quase três décadas, para clientes de classe abastada, de diferentes gerações, que prezam a perfeição do feito sob medida.


São empresários bem-sucedidos, executivos em ascensão, jogadores de futebol, artistas, que frequentam o atelier do Bairro Cruzeiro, cuja decoração arrojada – há até uma bicicleta pendurada na grade que cerca a casa – reflete a personalidade irreverente do dono, atrai os mais jovens e não afasta os mais velhos. A atmosfera do local é bem cool.


Entre tradição e modernidade, Marcelo tem soluções para todos os públicos. Detalhes especiais, como pespontos coloridos nos bolsos ou lapelas e tecidos mais atrevidos para os primeiros e o rigor do clássico para a segunda turma. “Há homens que usam ternos com tênis e querem algo especial. Temos que ter esse diferencial para oferecer. Outros não dispensam o requinte da roupa”, salienta.


Contudo, a maioria das pessoas chega até ele por meio de indicações. “Elas já sabem que o produto é excelente e com a confiança de que vão recebê-lo no prazo combinado.” Entre a clientela variada, destacam-se os noivos. Eles têm um papel importante na economia do ateliê. Cada casamento representa um mínimo de cinco ternos, entre família e convidados, que escolhem ali, com atendimento exclusivo, como querem se vestir na ocasião.


“Recebemos gente de todo o Brasil e do interior de Minas”, enfatiza Marcelo, lembrando que o atelier adota o bespoke, técnica originária da Inglaterra, especialmente das casas especializadas da Rua Savile Row, em Londres, que significa peças únicas, criadas para alguém sob encomenda, margeando a criatividade e anecessidade de cada um, de acordo com personalidade e biótipo.


“Tiramos as medidas e construímos a peça junto com o cliente, que vai escolher o tecido, a padronagem, a cor, o forro e até o botão. É alta-costura masculina”. Resultado da experiência acumulada no setor, a assessoria, não raro, passa também pelos acessórios a serem usados, cintos, sapatos, entre outros detalhes responsáveis pela elegância completa. A excelência do ateliê é garantida, sobretudo, pelos tecidos oferecidos. Sempre importados, eles vão determinar o preço e o conforto. “Trabalhamos com tecidos que vão de 120 a 200 fios, e marcas italianas, como a Zegna, australiana e inglesa, e essa escolha vai interferir no preço”, enfatiza o empresário. Nesse universo, os aviamentos também são importados. O que significa que o valor de um bom terno – paletó e calça – começa na casa dos R$ 3.500.


Marcelo acredita que a primeira visita ao alfaiate é um rito de passagem. É como se existisse uma certa liturgia nesse processo entre o momento da escolha do traje, das provas, até a entrega da peça. Bom lembrar que a confecção de um terno pode consumir até 72 horas de costura a mão. Um trabalho realizado por mão de obra especializada, vocacionada para o ofício, que, com o decorrer do tempo e com o advento da industrialização, está ameaçado de extinção. “Até hoje conto com alfaiates que trabalharam com meu pai, mas o mercado vem ficando difícil”, ele concorda. Porém, o resultado do investimento vale a pena. É bem diferente do produto que se compra nas araras de uma loja, por melhor que seja a grife, um Armani ou Ermenegildo Zegna, garante.


Por isso, são muitos os casos de clientes que compram ternos em maisons famosas recorrerem à alfaiataria para que se façam os ajustes necessários ao bom caimento no corpo. Esse é mais um serviço oferecido pela Blade, cuja lista inclui o atendimento para crianças e mulheres. Sim, mulheres. Desde que Yves Saint-Laurent popularizou o smoking feminino para noites de gala, elas têm investido no modelito glamouroso. A influencer Cris Valias, por exemplo, encomendou o seu modelito na Blade. O resultado é elegância pura. Afinal, voltando mais atrás, o sucesso de Chanel deve-se à sua inspiração no guarda-roupa dos homens.

Linha gourmet Durante alguns anos, Marcelo e Simone alugaram casa em Tiradentes e foram testemunhas de todas as edições do festival de gastronomia da cidade. “Tinha que inventar alguma coisa para contrabalançar os gastos da gente lá. Foi então que inventei o colete-avental, que se tornou um ícone. E assim nasceu a linha gourmet da Blade”. Além de aventais, ela inclui dólmãs, calças e chapéus para chefs, camisas para garçons, entre outros itens, que ganharam corpo, e foram adquiridos pelos restaurantes locais. O avental, segundo o empresário, deixou de ser um suvenir para se tornar o carro-chefe da linha. A peça se diversificou, ganhou versões em outros tecidos: além do algodão, surge no jeans, no jeans com couro. Pode vir também com pinturas abstratas assinadas pelo próprio Marcelo, como os que vestiram os chefs que participaram do núcleo Gastronomia tá na Moda, que fez parte da última Minas Trend. A Blade assina ainda os uniformes do Tif’s Cabeleireiros e de outras empresas.


Revendo sua trajetória, Marcelo relembra os primeiros tempos da empresa. Comunicador nato, batia ponto no Restaurante Chico Mineiro para fazer lobby com os empresários que frequentavam o lugar. “Quase todos fizeram ternos comigo”, afirma. Indo mais longe, recorda a época em que resolveu lançar a Blade Runner, nos anos 1980, em pleno boom da moda mineira, um período de agitação com festas fashionistas, viagens de pesquisa para o exterior, feiras de moda. A sua inspiração foram marcas do perfil da carioca Mr. Wonderful e da mineira Art Man, que apresentavam um homem mais contemporâneo e ousado


“A marca bombou na mídia, Caetano Veloso usou na capa da Vogue. A Blade aconteceu em São Paulo. Tivemos várias lojas nos shoppings de Belo Horizonte”, ressalta. Porém, após quatro anos no mercado, um novo ciclo chegou e com ele veio a ideia de investir em uma alfaiataria paralela à do pai, mas no mesmo formato ateliê. Deu muito certo.


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