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Estado de Minas

Criador de clássicos

Espanhol Cristobal Balenciaga, que resistiu ao %u2018new look%u2019 dos anos 50, garantiu lugar na história da moda com corte e modelagem perfeitos


postado em 30/12/2018 05:03

(foto: reprodução)
(foto: reprodução)



Em qualquer levantamento que se faça sobre a influência dos grandes estilistas franceses na história da moda, um nome aparece sempre: o de Cristobal Balenciaga, espanhol que nasceu em 1985 e que só deixou de impressionar o mundo quando, voluntariamente, saiu de cena em 1968. Sua última revolução foi indireta. Quando a moda francesa teve que enfrentar o avanço da swinging London e a paixão da juventude por Mary Quant, a criadora da minissaia, o nome mais forte que apareceu foi o de Courrèges. Depois de passar 10 anos trabalhando com Balenciaga, Courrèges criou o impensável: um vestido curtíssimo, mas sabiamente estruturado, perfeito. Tinha aprendido todos os segredos da alta-costura com seu mestre.


Balenciaga começou cedo. Aos 20 anos abriu sua primeira maison de couture, em San Sabastian. Outras logo se seguiram, em Madri e Barcelona, batizadas como Eisa, para homenagear a mãe, que se chamava Eisaguirre. Quando a guerra civil explodiu na Espanha, ele tomou o caminho de Paris. Não desconhecia o meio, tinha seus truques. Já nos anos 20, comprava vestidos e mais vestidos de alta-costura de Paris, que desmontava e depois tornava a montar a seu modo. Autodidata, conseguiu, dessa forma, desvendar todos os segredos que deveria normalmente aprender trabalhando para outros profissionais do meio.


Sua estratégia deu tão certo que já em 1937 ele abriu sua primeira casa em Paris, num endereço e tanto: Avenida George V. Seu estilo fez sucesso desde as primeiras coleções, por causa da perfeição de seu corte. Balenciaga tinha um diferencial: cortava tanto com a mão direita quanto com a esquerda, era ambidestro. Já na época, chamava a atenção a modelagem de suas mangas de mantô, de cava quadrada, absolutamente perfeita tanto na frente quanto nas costas da peça. Nos seus desfiles, outra coisa que chamava a atenção era o uso constante do preto (“um preto espanhol, profundo, junto do qual todos os outros pretos pareciam ser cinza”).


A guerra chegou e a maison Balenciaga atravessou o período com a austeridade que era sua marca. Quando acabou, o clima continuou o mesmo. O estilista cortava cada peça, que depois modelava incansavelmente em suas manequins prediletas. O silêncio do ateliê era absoluto, a concentração total. A escolha das manequins que deviam participar de seus desfiles era completamente diferente de todos os outros costureiros da época. Em lugar de escolher só moças muito bonitas, ele levava em consideração o estilo e a personalidade. Ele gostava “de vestir puros-sangues”, como dizia na ocasião.

CONTRA O NEW LOOK Nos anos 50, quando o new look criado por Christian Dior redesenhou a silhueta feminina, com sua cintura muito ajustada e suas saias amplas e no meio das pernas, Balenciaga tratou de nadar contra a corrente. Nascia então o semi-fitted look, que passou a simbolizar a elegância da época. Os decotes descobriram o pescoço, o busto era vagamente percebido através de criativos drapês, que formavam a parte superior da roupa, deixando os ombros desnudos. A moda deve ao estilista espanhol a maioria de seus clássicos. Em 1952 foi a vez do estilo marinheiro, que nos dias atuais é o carro-chefe das coleções de Jean-Paul Gaultier; em 1955 ele criou o robe tunique; em 1957, o robe chemise, integralmente assumido por Chanel, e também o ‘vestido saco’. Esse tipo de silhueta provocou o maior espanto, mas como tendência é tendência, acabou sendo integralmente assumido pelas mulheres do mundo inteiro.


Arquiteto do estilo, escultor, Balenciaga pode ser classificado também como pintor. O uso que fez das cores em suas criações deixa isso bem evidente. Depois do ‘preto espanhol’, freqüentemente associado ao marrom, ele partiu para as cores. Foi o estilista que mais soube usar o rosa intenso, chegando até ao violeta.

INSPIRAÇÃO ESPANHOLA Mesmo tendo feito toda a sua carreira em Paris, Balenciaga não se esqueceu da Espanha onde nasceu, país cuja força inspirou muitos de seus sucessos. E alimentou seu gosto pelo fausto, pelo luxo. Inspirou-se nas capas dos toureiros, no penteado das mulheres, na rede dos pescadores. Mas também nos quadros de Velasquez e suas gloriosas infantas; Goya e seus jogos de rendas pretas sobre fundo rosa; Zurbaran e seus volumes, seus drapeados, seu bombé. Nessa seqüência de telas, de jogos de luz e sombra, foi que Balenciaga se apaixonou pelos tecidos irisados e os veludos, todos de difícil execução. A partir dos anos 50, criou um verdadeiro império familiar, entregando suas casas em Madri, Barcelona e San Sebastian a irmãos e parentes. Com uma atração extra para o consumidor: as telas de modelos alta-costura executados em Paris eram reproduzidas na Espanha, com tecidos espanhóis. Os modelos chegavam às lojas com preços menores. Mas a etiqueta era uma garantia de qualidade e status. Então, não era incomum as mulheres deixarem a França para se abastecer de Balenciagas em terras espanholas.

QUEM USAVA Costureiro das cabeças coroadas européias, Balenciaga era o preferido também das grandes artistas e dos nomes mais importantes do jet set internacional. Ele vestia everybody who is somebody. Barbara Hutton, a milionária norte-americana, comprava de uma só vez 30 modelos; Ginger Rogers, a atriz, exigia que as provas de suas roupas fossem feitas no Plaza de Paris, e Marlene Dietrich fazia questão de dizer que “uma só prova de roupa em Balenciaga vale por três de qualquer outro costureiro”. O vestido de noiva que criou para a princesa Fabiola da Bélgica, em cetim orlado de vison, transformou-se em notícia internacional.

NOVOS TEMPOS A transitoriedade da moda encaminhou os compradores para novos estilos. E os compradores norte-americanos, os que realmente conseguiam manter as grandes maisons francesas, começaram a se interessar por Londres. A efervescência dos sixties não interessava nem um pouco a Balenciaga. Então, ele apresentou em 1967 uma coleção na qual os minivestidos de cingaline (tipo de tecido que se parece com organza de seda) deslumbraram a imprensa especializada. Mas percebeu que a moda e os gostos da época já não eram mais para ele. Em 1968, anunciou que estava se retirando – e as manchetes diziam que “a moda sem Balenciaga nunca mais será a mesma”.


O último trabalho que fez foi o vestido de noiva da duquesa de Cadix – ele deixou a moda como se fosse um desfile. Que, como manda a tradição da alta-costura, terminam todos com uma noiva.


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