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Rendendo uma história

Material dos mais nobres do vestuário, em todos os tempos, a renda volta a ocupar seu lugar de direito na moda


postado em 02/12/2018 05:03

Cia da Moda(foto: jair amaral/em/d. a press)
Cia da Moda (foto: jair amaral/em/d. a press)



Uma das razões da eternidade da moda é que suas imagens vão sendo recicladas ao longo do tempo, dos países, da cultura mundial. Nesse vaivém que movimenta milhões de dólares, algumas manifestações de bom gosto sobrevivem. E uma das eternas participantes do banquete do estilo é sem dúvida a renda, que todos admiram e poucos conhecem. Entre cetins, e chifons, veludos e organdis, a renda continua ocupando lugar nobre no segmento moda. E as últimas coleções internacionais e locais evidenciam que esse milagre de tecnologia continua com seu lugar marcado no universo feminino. Numa apropriação romântica do assunto, sem nenhuma base real, podemos pensar que o véu que Penélope tecia enquanto esperava pela volta de Ulisses devia ser uma bela renda. Não que exista qualquer registro sobre rendas naquela época. Mas a Grécia daquele tempo atribuía uma grande importância ao corpo, e os véus e tecidos transparentes eram tidos em grande apreço, produzidos com fios finíssimos de linho. Na realidade, os tecidos de gaze e musselinas constituíram, a partir daquela época, o prenúncio das futuras rendas. Mas o exagerado gosto pelas rendas que se verificou na Europa Ocidental entre os séculos 15 e 18 poderia significar que, nesse período histórico, o culto da beleza plástica das formas femininas teria atingido sua máxima expressão. No que diz respeito à Europa, não foi exatamente isso que aconteceu. A loucura pelas rendas está associada à cultura.

Como começou As rendas de Veneza, Alençon, Argentan, Valenciennes, Malines, Chantilly, Bruxelas, Milão, Genova etc. eram verdadeiras preciosidades, transmitidas como joias de família. A posse e exibição dessas rendas significavam um determinado estatus social – e poder. Por essa razão, seu culto partia dos dois centros de comando: a corte e a Igreja.


Esse símbolo explícito de vaidade estava associado a alguns aspectos curiosos. A Igreja era a maior consumidora de rendas, que não só enfeitavam a roupa dos bispos e padres como os altares. Os homens usavam mais rendas que as mulheres – faziam guerras recobertos de rendas, e os exércitos carregavam rendeiras para fornecer seu trabalho para a tropa. Usadas pelas mulheres, eram sinal apenas de status, uma vez que só a nobreza e a alta burguesia tinha acesso a elas.


A dificuldade da produção era um dos principais motivos para sua valorização. Artesanais, as rendas podem ser divididas em três grupos principais: as de agulha, executadas com agulhas de costura e um fio sobre suporte provisório de papel; a “de bilros”, que aprendemos a tecer com os portugueses, e o crochê. A de agulha nasceu em Veneza, no século 15, mesma época da renda de bilros, e a mais antiga referência que se conhece desse tipo de trabalho consta de uma partilha de bens realizada por família italiana em 1493. Por isso, alguns historiadores acreditam que a de bilros é anterior à de agulha. A de bilros era produzida na Itália; a de agulha, em Veneza – que, nessa época, era uma cidade-Estado independente. Seu uso foi muito difundido principalmente pelos pintores da Renascença – que chegavam ao detalhe de fornecer aos artesãos o modelo de renda que queriam pintar. Nasceu daí o primeiro livro de padrões de rendas de que se tem notícia, editado em 1528 por seu autor, Antônio Tagliante. Veneza auferiu lucros incalculáveis com a venda de rendas para o mundo.

 

 

Paris descobre a renda

 

Catarina de Médici foi quem introduziu o uso da renda na corte francesa – e o modismo foi tão desenfreado, que o dinheiro gasto na sua importação praticamente esvaziou os cofres da França. O baque foi tão forte que o rei promulgou um decreto que proibia seu uso. Daí para descobrir que em lugar de importar era melhor produzir foi um pulo. A ideia partiu de Colbert, ministro de Luiz XIV que fundou, em 1665, na cidade de Alençon, as “Manufaturas reais O ponto de França” – tocadas pelas mãos de 30 rendeiras de Veneza e 200 de Flandres. Nasceu assim o ponto de Alençon, que desbancou rapidamente o ponto de Veneza. Na França de Luiz XIV, o vestuário masculino se tornou um monumento ambulante do trabalho dessas rendeiras. Os homens usavam rendas nas golas encanudadas, nos punhos, nas luvas, nos lenços e até nas botas.


A Revolução Francesa significou um golpe mortal para as rendas. A maior parte dos centros produtores foi fechada – e jamais reaberta, mesmo quando Napoleão Bonaparte se interessou pessoalmente pelo assunto. Outro golpe mortal para a renda ocorreu no princípio do século 19, com o aparecimento do tear mecânico e das máquinas que industrializaram o produto, tornando-o acessível a todos.


A renda de bilros chegou ao Brasil por meio dos portugueses e foi, durante muito tempo, ocupação dos conventos de freiras, que teciam alfaias para os altares das igrejas. Outro ponto de identificação que temos, nessa herança, é que as rendeiras daqui e de Portugal são sempre mulheres de pescadores. Não que elas sejam especialmente vocacionadas para esse tipo de trabalho, mas porque pelo litoral é que chegavam as novidades – e as rendas.


Nas idas e vindas das tendências da moda, a renda nunca desapareceu completamente das coleções, seja vestindo noivas e debutantes, seja detalhando modelos toaletes. A alta-costura francesa tem nesse tipo de produto um grande aliado.
Uma estilista mineira, Danielle Benício, especializada em noivas, acaba de desfilar na Arab Fashion Week uma coleção de 20 modelos com com rendas feitas em teares mineiros com desenhos criados por ela, inspirados em referências barrocas e elementos libaneses, tendo como destaques o arabesco, a flor-de-lis penas estilizadas e a “casinha de abelha”, uma tradicional técnica de bordado brasileira, muito presente nos vestidos da infantis. Em Portugal, de onde herdamos a produção de renda de bilro, que ainda é muito produzida no Nordeste, está sendo criado um novo tipo de renda.  A grife Pé de Chumbo, dirigida por Adriana Oliveira, tem levado, aos principais desfiles importantes do mundo da moda internacional, um tipo de renda produzida a partir de lacês de tecido, que tem feito sucesso. A produção fica em Guimarães, cidade situada no Minho, Norte de Portugal e patrimônio mundial da Unesco.


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