Jornal Estado de Minas

ESPORTE

9 horas na academia por dia: como vive o fenômeno do jiu-jítsu de 11 anos

O que você fazia quando tinha 11 anos? As respostas mais comuns para essa pergunta provavelmente são estudar ou brincar. Coisas que Ícaro Moreno também faz. Mas elas não ocupam a maior parte de sua rotina. O principal foco do garoto está no jiu-jítsu.





Faixa amarela no esporte, Ícaro é o melhor do mundo em sua idade. Ele lidera o ranking da IBJJF (Federação Internacional de Jiu-Jítsu Brasileiro), faturou cinco títulos do Pan Kids, o principal torneio do planeta, e está invicto na federação há seis anos.

O garoto já vive rotina de profissional. Ícaro e sua família moram em Costa Mesa, na Califórnia (EUA), para ficarem perto da academia Art of Jiu Jitsu. Ele passa mais de um terço dos dias de semana treinando. Seu tempo fora da academia também é dedicado ao jiu-jítsu, com sono e alimentação regrados.

A ROTINA DE ÍCARO MORENO

5h: acordar e fazer a primeira refeição

6h: treino de fundamentos

7h: treino de competição

8h: treino de fundamentos

9h: treino de jiu-jítsu sem kimono

10h30: pausa no jiu-jítsu. Hora de estudar (à distância), almoçar e, duas vezes por semana, fazer treino de condicionamento físico

14h: drill (treino de repetição)

16h: ajuda no treino de crianças mais novas (de 3 a 7 anos)

16h30: lanche

17h: aula com crianças de sua idade

18h: pausa para hidratação

18h15: último treino do dia

19h30: jantar e últimas atividades do dia, como revisão do conteúdo das aulas

21h: dormir

ESTILO DE VIDA QUESTIONADO

Com tantas atividades diárias, fica claro que Ícaro não é uma "criança comum". O garoto vive rotina competitiva no jiu-jítsu desde os quatro anos de idade. Ele se diz disposto a passar por todas as privações para avançar em sua caminhada no esporte.





Eu gosto muito da minha rotina, do que eu faço, do que eu treino, do que eu como, de tudo que eu faço. Isso é para o meu bem, para o bem da minha. Eu não sinto falta de nada, eu amo essa minha rotina, eu acho que vai ser para sempre assim Ícaro Moreno, ao UOL

A devoção ao esporte virou objeto de polêmica nas redes sociais. Em setembro, o garoto concedeu entrevista ao podcast 'BJJ Cria' durante viagem ao Brasil. O trecho no qual ele detalha sua rotina gerou debate sobre a dedicação extrema ao jiu-jítsu.

André, pai de Ícaro, relata que recebeu comentários questionando a forma como seu filho vive. Críticas à criação, ao tempo dedicado à escola e até pedidos por intervenção do Conselho Tutelar chegaram via redes sociais. O garoto não lidou diretamente com a reação do público, pois a família administra suas contas virtuais.

O pai do jovem disse que a entrevista foi concedida durante as férias escolares de Ícaro e que por isso a educação foi pouco citada. André diz que a formação de Ícaro é uma de suas prioridades e uma exigência familiar. "Sem notas boas, sem jiu-jítsu".





Ícaro estuda em casa. Adotar o homeschooling foi uma decisão tomada pela família há cerca de um ano, como forma de adequar a rotina do garoto às exigências do esporte. Seu programa de estudos não tem carga horária fixa. O brasileiro recebe notas diariamente por seu desempenho.

"Eu acho muito bom para quem é um atleta de alto nível e quer aprender, quer viver daquele esporte. É bem importante ter uma escola assim. Também dá para aprender muito. Acho que a melhor coisa para mim foi essa decisão", diz Ícaro Moreno.

A família não acredita que a rotina provoque uma adultização precoce. André argumenta que há tempo para brincar, ir à praia e fazer outras atividades que Ícaro goste nos fins de semana em que não há competição. O jiu-jítsu não é esquecido aos sábados e domingos, mas as regras são afrouxadas.





O Ícaro tem um irmão de cinco anos que também treina jiu-jítsu. "Não tem a mesma rotina que a dele, óbvio, ele vai para a escola, mas é uma família normal, a gente joga bola, ele toma bronca como filho, a gente briga, a gente dá risada", diz André Moreno.

EXPECTATIVAS ALTAS, MAS SEM ILUSÃO

Quando Ícaro se tornar adulto, ele e sua família almejam o título mundial de jiu-jítsu. O garoto não perde há seis anos em lutas da modalidade sem kimono e lidera o ranking mundial da categoria Júnior 2, entre atletas faixa amarela.

Todos ao redor de Ícaro sabem que o objetivo final só pode ser alcançado com trabalho em equipe. Ele tem contato frequente com médicos, preparadores físicos e com uma nutricionista especializada em jiu-jítsu. O garoto já tem corpo de atleta e se alimenta como um.





Apesar de todo o sucesso já alcançado, a família sabe que não há certeza sobre o futuro profissional de Ícaro. O jiu-jítsu é prioridade, mas o tempo e o dinheiro investidos não garantem resultados.

"Eu, como pai, tenho a plena consciência que hoje está dando tudo certo. Amanhã ainda é uma incógnita. Por isso que eu não vou tirar a escola dele, lesões tiram atletas do rumo", afirma André Moreno.

"Eu e meu pai somos uma dupla inseparável, a gente ajuda um ao outro. Eu tento me esforçar ao máximo, me dedicar ao máximo, porque mesmo às vezes não conseguindo o resultado que eu quero, eu tenho a plena consciência que me dediquei o máximo possível para estar ali e para levar a medalha de ouro", diz Ícaro Moreno.