Jornal Estado de Minas

CATAR 2022

Taça com roteiro dramático



Enviado especial ao Catar

Faltava a Lionel Messi a glória máxima. Não se tratava de destino ou falta de merecimento, mas uma dívida histórica do futebol com quem tanto lhe entregou nas últimas décadas. Como no mais dramático dos roteiros cinematográficos, o camisa 10 se eternizou na galeria dos campeões mundiais ao comandar a Argentina, ontem, na maior final de Copa do Mundo de todos os tempos. Dada como morta, a França renasceu das cinzas após um início ruim, buscou o alucinante empate por 3 a 3 ao fim da prorrogação com hat-trick de Mbappé e levou a decisão para os pênaltis. De torcedor em 2018 a herói em 2022, o goleiro Emiliano “Dibu” Martínez foi decisivo na vitória por 4 a 2 no suntuoso Estádio Icônico de Lusail e fez vibrar a barulhenta torcida alviceleste, que chorou, sorriu e empurrou a amada seleção ao tão aguardado tricampeonato.





O título encerra uma angustiante espera de 36 anos da Argentina pela terceira Copa do Mundo. Ganhou a primeira das três taças em casa, em 1978, sob a sombra da ditadura militar. Voltou a conquistá-la em 1986, regida pela magia e picardia de Diego Maradona. Do céu, como cantam os “hinchas” (torcedores) argentinos, o ídolo viu o sucessor do trono, Lionel Messi, se eternizar ao lado dos maiores da história neste 18 de dezembro de 2022. A Alviceleste se isola como única tricampeã, atrás apenas de Brasil (cinco), Itália e Alemanha (quatro).

Aos 35 anos, Messi assegura que cumprirá o prometido: esta foi sua última partida em Copas do Mundo. Na chance derradeira, depois de cinco tentativas, o camisa 10 enfim alcança o que tanto sonhou. A trajetória na Seleção Argentina, porém, continua. “Quero jogar mais algumas partidas como campeão mundial. Todo mundo quer isso, é o mais desejado por todos. É uma loucura que tenha acontecido dessa maneira. Eu queria muito. Eu sabia que Deus ia me dar, eu senti que ia ser isso. Agora é aproveitar”, disse, minutos depois de beijar a taça e arrancar um misto de aplausos e suspiros das arquibancadas.

Diante das palavras do craque, o técnico Lionel Scaloni fez um pedido, uma espécie de súplica, ao capitão. “Acho que temos que guardar um lugar para ele no Mundial de 2026. Ele ganhou o direito de decidir o que fazer com sua carreira futebolística e com a seleção”, sugeriu, antes de analisar rapidamente a partida que fez a Argentina. “Na verdade, não estava nos meus planos ser campeão do mundo, mas somos, e o mais importante é a forma que conseguimos. Agora estou mais tranquilo. O jogo foi uma loucura”, resumiu.





E foi mesmo. Dominante, a Argentina abriu 2 a 0 logo no primeiro tempo da decisão, com gols de Messi (em um pênalti contestável) e Di María, maior surpresa de Scaloni na escalação argentina. A festa sul-americana estava pronta depois de uma partida impecável até os 33min do segundo tempo, quando as arquibancadas substituíram o canto de apoio por gritos de “olé”.

Mas os deuses do futebol, como que num sinal de respeito ao gigante que estava do outro lado, puniram a soberba. Brilhante, Kylian Mbappé saiu derrotado, mas fez história. Marcou um hat-trick, feito raríssimo em finais de Mundial. Os dois primeiros (de pênalti e em belo chute) saíram no segundo tempo para buscar o empate e levar o jogo para a prorrogação. Na etapa final do tempo extra, Messi marcou de novo e reaproximou os argentinos do título. Mas Mbappé voltou a balançar as redes de pênalti, deixou tudo igual e adiou a decisão para as penalidades, quando apareceu Dibu.

A festa argentina logo tomou conta de Lusail, lotado com quase 90 mil torcedores. No gramado, a alegria alviceleste contrastou com a lamentação francesa, que viu a chance do tricampeonato mundial escapar por detalhes. “É uma história dolorosa, como todo caso que termina de forma dolorosa. Foi como uma luta de boxe, golpe a golpe. Não vamos procurar desculpas, demos tudo. Temos que parabenizar todos porque não desistimos até o fim”, lamentou o goleiro e capitão Lloris.





De longe, via a comemoração argentina, que coloriu Lusail em azul e branco e testemunhou a história feita por um dos maiores de todos os tempos. “Olha o que é essa taça, é linda. Sofremos muito, mas conseguimos. Mal podemos esperar para estar na Argentina para ver o quanto isso vai ser louco”, sorriu Messi.

FICHA TÉCNICA
ARGENTINA 3 (4) X (2) 3 FRANÇA
Argentina: Dibu Martínez; Molina (Montiel, intervalo para a prorrogação), Romero, Otamendi e Tagliafico (Dybala, aos 16 do 2° da prorrogação); Enzo Fernández, De Paul (Paredes 12 do 2º) e Mac Allister (Pezzella 10 do 2° da prorrogação); Messi, Di María (Acuña 19 do 2º) e Julián Álvarez (Lautaro Martínez 12 do 2º)
Técnico: Lionel Scaloni
França: Lloris; Koundé (Disasi 16 do 2° da prorrogação), Upamecano, Varane (Konaté 6 do 2° da prorrogação) e Theo Hernández (Camavinga 26 do 2º); Tchouaméni, Rabiot (Fofana 6 do 1º da prorrogação) e Griezmann (Coman 26 do 2º); Dembélé (Kolo Muani 41 do 1º), Mbappé e Giroud (Thuram 41' do 1º)
Técnico: Didier Deschamps
Final da Copa do Mundo
Estádio: Icônico de Lusail
Gols: Messi, 23 do 1° e 5 do 2° da prorrogação, Di María 36 do 1º, Mbappé 35 e 36 do 2º e 13 do 2° da prorrogação
Árbitro: Szymon Marciniak (Polônia)
Assistentes: Pawel Sokolnicki (Polônia) e Tomasz Listkiewicz (Polônia)
VAR: Tomasz Kwiatkowski (Polônia)
Cartão amarelo: Enzo Fernández 52 do 1º, Acuña 53 do 2º, Paredes 8 e Montiel 11 do 2° da prorrogação, Rabiot 10 do 2º, Thuram 42 do 2º e Giroud 50 do 2º
Público: 88.966
 
(foto: Kirill KUDRYAVTSEV / AFP)
 

Prêmios individuais da Copa

  • Melhor jogador jovem: Enzo Fernández (ARG)
  • Melhor jogador: Messi (ARG)
  • Melhor goleiro: Emiliano Martínez (ARG)
  • Artilheiro: Mbappé (FRA)