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Estado de Minas DESAFIOS DE MINAS

Consumo, cidadania e culpa

Artigo de economista publicado no Caderno Pensar reflete sobre a obrigação de consumir para ser cidadão: "somente consumindo faremos parte deste maravilhoso mundo globalizado"


postado em 09/07/2012 10:46 / atualizado em 23/04/2013 10:27

Lixões insalubres servem de meio de vida para o lixo humano rejeitado pelo sistema(foto: Sérgio Moraes/Reuters)
Lixões insalubres servem de meio de vida para o lixo humano rejeitado pelo sistema (foto: Sérgio Moraes/Reuters)

O consumismo, o chamado consumo exacerbado, hoje tão alvejado, não é peculiar das classes trabalhadoras. Pejorativamente utilizado, pretende atribuir a amplos segmentos da população, mormente os historicamente menos privilegiados, um desvio comportamental, hoje denominado técnica e pomposamente de “compulsão ao consumo” e que deve, por isso, ser tratado como uma doença, um problema de natureza individual que exige a assistência de um psiquiatra para amainar a ânsia de seu portador. Este, de praxe, deve ainda pagar caro em dinheiro para expiar seu pecado e, sobretudo, por causar tantos males ao sistema econômico vigente.

Muito recentemente, ouvimos aos quatro ventos os ataques proferidos às famílias norte-americanas que extrapolaram dezenas de vezes sua renda disponível na compra de imóveis para moradia, levando ao que se convencionou chamar de crise do subprime. “Sub”, evidentemente, porque não se tratava de clientes de primeira linha. Episódio semelhante ecoou em outros países, como a Espanha. Ecos também se propagam por aqui, no Brasil, após o ingresso de milhões de pessoas nas chamadas classes de renda C e D, quando Lula implantou o Bolsa Família e outros expedientes para criar e aumentar o poder de compra dessa população, ou seja, para incluí-la no mercado consumidor capitalista.

Consumimos, sim, mas não o fazemos porque somos inatamente doentes ou inclinados a sê-lo. Consumimos o que o mercado, ou melhor, o “moinho satânico" (na precisa e feliz denominação de Karl Polanyi, em A grande transformação) nos oferece de seu caldeirão para realizar (materializar) os lucros ali gerados pelos trabalhadores na produção crescente de mercadorias. E a produção de mercadorias, em grande parte constituída de inutilidades, é crescente porque se produz cada vez mais com as novas tecnologias de produção que aumentam em escala sem precedentes a produtividade, o que se traduz num amontoado de coisas que inundam os mercados todos os dias, horas, minutos e segundos. E se não forem vendidas, todas, os lucros simplesmente não existirão, ou cairão, ou ficarão apenas no papel.

Somos bombardeados todos os dias com propagandas veiculadas pela mídia, em geral, para consumirmos, a qualquer custo, as maravilhas que os empresários capitalistas produzem em suas instalações nacionais, multinacionais e transnacionais. Somente consumindo alcançaremos o estatuto de cidadãos e cidadãs; somente consumindo faremos parte deste maravilhoso mundo globalizado; somente consumindo pertenceremos a este paraíso terrestre construído pelo capital.

Mas como aos salários (já restringidos pela base econômica) não vêm sendo repassados os ganhos de produtividade, mesmo e em particular nos países avançados, e como uma parcela crescente dos que hoje trabalham o fazem em condições absolutamente precárias, os capitalistas vêm abrindo generosamente as torneiras do crédito, induzindo os consumidores a se endividarem ad infinitum de maneira a continuarem a exercer sua cidadania: comprando, gastando, enriquecendo-se das coisas inúteis, supérfluas e descartáveis que as empresas capitalistas produzem e ofertam no mercado. Economia movida a crédito, alternada e sincronizada com a expansão dos gastos públicos para criar poder de compra, ampliando o consumo ou demanda de mercado. E garantindo o lucro do capital.

Os capitalistas quebraram todas as fronteiras, eliminaram todos os obstáculos para que seus produtos excedentes e permanentes penetrassem todos os cantos do mundo, seduzissem mesmo os mais recalcitrantes ou resistentes habitantes dos diversos países, destruindo seus costumes, suas tradições, suas idiossincrasias, suas ideologias, suas formas particulares de vida. Se não há salários ou outras rendas de trabalho suficientes para comprar as mercadorias produzidas com fins de lucro, o sistema de crédito vem em socorro do mercado provendo os consumidores com dinheiro, que não lhes pertence, mesmo condenando-os a escravos ad eternum do capital; mesmo que a vida desses seres se dissolva, que seus bens já precários se vão, suas raízes se percam.

Não há consumismo no interior das classes trabalhadoras, antes prevalece o subconsumo das massas, já há tempos tão bem discutido por Rosa Luxemburgo em outro contexto histórico. Subconsumo convertido em consumo efetivo pela ação tática do próprio sistema para que este não submirja em mais uma crise de superprodução, ou seja, em uma crise devida à impossibilidade dos capitalistas de vender o que foi produzido lucrativamente.

Veneno no prato
Não só consumimos, mas somos culpados e responsabilizados pelo que consumimos, pelos produtos infestados de pestes que pomos à mesa; pelos elevados percentuais de colesterol, de sódio, de gorduras saturadas, de conservantes químicos, de açúcares e outros ingredientes nocivos neles contidos. Consumimos erradamente, fazemos escolhas erradas. É o que nos dizem... Obesos, diabéticos, hipertensos ou cancerosos por livre escolha, por livre escolha individual no mercado, esta entidade abstrata que assim se exime de toda e qualquer interveniência nesse processo.

Não só consumimos, mas somos culpados e responsabilizados pelo lixo que produzimos ao consumir. Lixo orgânico e nao orgânico a serem absorvidos pela sociedade. Lixo que provém desta abstração chamada mercado que nos transfere o ônus do que não produzimos, mas que consumimos, dizem, por livre e espontânea vontade. Punidos e culpados somos pela poluição dos céus, dos rios, dos mares e de tudo que nos cerca, bem como pelos lixões a céu aberto das periferias das cidades, os mesmos lixões que servem também de meio de vida para o lixo humano rejeitado pelo sistema. Nós, consumidores, nos é dito, enfim, degradamos o meio ambiente e a natureza com nossos dejetos: os plásticos e os mil outros materiais derivados do petróleo, todos nocivos à natureza.

Mercadorias produzidas pelo capital para sua perpetuação. Mercadorias que têm de ser vendidas para que o círculo virtuoso do capital não se interrompa. Mercadorias que nós compramos e consumimos continuamente porque de outra forma não podemos sobreviver. Não existiremos tampouco como cidadãos e cidadãs. Não existiremos ainda como homens e mulheres livres nesta democracia criada pelo capital. Não existiremos, sequer, como seres humanos, pois que este planeta nos foi roubado e construído à imagem e semelhança do capital. Não basta, no entanto, interpretarmos o mundo em que vivemos, “trata-se é de transformá-lo” (Karl Marx).

Concessa Vaz é economista, professora da UFMG (aposentada) e doutora em história econômica pela USP.

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