Publicidade

Estado de Minas DESAFIOS DE MINAS

Entrevista com Luiz Paulo de Souza Pinto, diretor sênior de Biomas da Conservação Internacional Brasil

Minas tem importância estratégica, mas ainda é o estado que mais devasta a Mata Atlântica


postado em 06/06/2012 10:08 / atualizado em 06/06/2012 14:45

(foto: Divulgação/CI)
(foto: Divulgação/CI)
Minas é o Estado que mais devasta a mata atlântica – menos de 10% da área original ainda estão em pé. Nesta entrevista para a série Desafios de Minas, o diretor sênior de Biomas da organização não governamental Conservação Internacional, Luiz Paulo Souza Pinto, destaca a importância estratégica dos principais sistemas naturais mineiros – caatinga, cerrado e mata atlântica - e manifesta sua preocupação com o ainda alto consumo de carvão vegetal nativo. “Sabemos onde está a maior devastação, porque ela acontece e quem faz. São necessários procedimentos, normas e ações efetivas”, alerta.

Sobre a Rio+20, ele explica que o centro das discussões deve estar mesmo na erradicação da pobreza, porque, quanto mais miséria, maior a pressão sobre a biodiversidade e maior é a dificuldade de envolver o tecido social nas questões ambientais e no esforço integrado. “Apenas com os diferentes setores trabalhando lado a lado - agropecuária, indústrias, prefeituras, ONGs, universidades - cada um com sua expertise, será possível reunir a massa crítica necessária para fazer a tão almejada economia verde ser realmente implementada”, resume.

A Conservação Internacional (CI) foi fundada nos Estados Unidos em 1987 e chegou ao país em 1988. A CI-Brasil tem sede em Belo Horizonte-MG e possui outros escritórios estrategicamente localizados em Brasília-DF, Rio de Janeiro-RJ, Belém-PA, Campo Grande-MS e Caravelas-BA.

O Muriqui é o maior primata das Américas e concentra-se em Minas Gerais, na região de mata atlântica. Espécie está em risco de extinção e é símbolo da necessidade de preservação da biodiversidade.(foto: Daniel Ferraz/Conservação Internacional)
O Muriqui é o maior primata das Américas e concentra-se em Minas Gerais, na região de mata atlântica. Espécie está em risco de extinção e é símbolo da necessidade de preservação da biodiversidade. (foto: Daniel Ferraz/Conservação Internacional)
Estado de Minas: Quais são as características estratégicas de Minas Gerais em relação à biodiversidade?
Luiz Paulo Souza:
Minas Gerais tem grande importância estratégica por incorporar três grandes biomas brasileiros: mata atlântica, cerrado e caatinga. No caso do cerrado, é possível destacar mais especificamente a Cadeia do Espinhaço, que inclui um ecossistema muito sensível formado por campos rupestres, que só ocorrem nessa região, a exemplo da vegetação da Serra do Cipó. O Estado concentra também várias espécies ameaçadas de extinção. O animal considerado símbolo dessa ameaça é o Muriqui, maior primata das Américas e cujo habitat é a Mata Atlântica, vivendo principalmente em todo o lado leste de Minas Gerais, desde a divisa com a Bahia até a Zona da Mata. Ele é símbolo porque depende totalmente da floresta para viver e sua população chegou a menos de mil indivíduos. Agora, com o trabalho conjunto de pesquisadores, governantes, comunidades e organizações não governamentais, a espécie começa lentamente a se recuperar.

Não podemos deixar de destacar também a riqueza hídrica. A nascente do Rio São Francisco, na Serra da Canastra, já se encontra numa área protegida, e esse exemplo tem que ser observado. A qualidade dos rios mineiros afetam outros Estados. A bacia do Rio Doce, que tem 90% da sua área e Minas, é uma área endêmica das espécies da mata atlântica. A quantidade de animais vertebrados e invertebrados é enorme, e a ameaça é proporcional ao seu tamanho. Essa bacia já perdeu grande parte de suas matas ciliares.

E.M.: Em relação a essas ameaças, quais são as principais pressões sofridas pelos biomas mineiros?
LPS.: Existem situações diferenciadas. O cerrado, por exemplo, é palco do desenvolvimento de grandes culturas comerciais, como a soja e a cana, e também é uma região alvo da exploração do carvão vegetal, que ainda utiliza vegetação nativa. Apesar de todas as tentativas, mudanças na legislação e esforços do Estado, a situação ainda é muito crítica e o carvão continua sendo comercializado ilegalmente. E não só em Minas. Houve uma busca tão intensa de carvão no Estado que as grandes siderúrgicas passaram a buscar o produto em outras unidades da federação. O carvão traz desmatamentos e desequilíbrios que afetam todo o ecossistema.

Enquanto isso, a caatinga, bioma marginalizado em vários aspectos e cuja riqueza ainda não é tão reconhecida como capital natural, também tem sofrido grandes pressões por incêndios, pela retirada da lenha para consumo da população e pela pobreza, agravada pelas secas severas.

Já a Mata Atlântica localiza-se principalmente nas regiões em que o estado mais se desenvolveu. Portanto, a área passou pelos maiores desmatamentos, para dar lugar à cultura do café, ao crescimento das cidades e às indústrias, por exemplo. Embora o desmatamento tenha tido redução significativa, um relatório divulgado em maio pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), com dados de dez Estados brasileiros, aponta Minas como o que mais devastou a mata nos últimos quatro anos, repetindo o triste resultado do período 2008-2010. A destruição é pior na região da mata seca, no norte do Estado, com áreas derrubadas para produção de carvão e expansão agropecuária. Isso é um alerta que deve servir para orientar o governo. Sabemos onde está a maior devastação, porque ela acontece e quem faz. São necessários procedimentos, normas e ações efetivas, até porque o que restou é muito pouco. A situação em Minas é um reflexo desse bioma no Brasil - que sofre pressões agressivas. Estima-se que, no país, entre 11 e 16% da mata esteja preservada. No Estado, esse número não passa de 10%, causando grande impacto nos chamados “serviços ambientais” que a floresta proporciona - a produção de água em grande quantidade e qualidade, o solo fértil, a polinização, a qualidade do ar, atividades de recreação e lazer, conservação de aspectos climáticos.

E.M.: Considerando que esse quadro vem do avanço econômico, qual seria a solução para reverter o cenário?
L.P.S.:
Apesar de tudo, sou muito otimista. Minas Gerais e o Brasil reúnem todos os fatores para reverter esse quadro: capacidade técnica, grandes centros de pesquisa, instituições sólidas, disposição da sociedade em ajudar, recursos importantíssimos, como a água e a própria biodiversidade, uma indústria ainda em desenvolvimento. E é exatamente isso que vamos discutir na Rio+20. O que acontece em Minas, acontece no mundo inteiro. Estaremos decidindo a história da humanidade daqui pra frente. Isso é diferente do que aconteceu na Eco92, quando sabia-se dos problemas, mas não havia clareza quanto à gravidade.

E.M.: Mas, se reunimos os fatores necessários para a mudança, o que ainda falta?
L.P.S.:
De forma geral, ainda falta vontade política, sem a qual nada é feito. O orçamento para a área ambiental é um dos menores, em todas as esferas governamentais. E falta também a integração, em todo os níveis. Governo estadual e federal, municípios, empresas, comunidades, terceiro setor, institutos de pesquisa, universidades têm que participar de planos conjuntos. Fiquei muito feliz com o anúncio, em 2011, do Plano Mineiro de Desenvolvimento Integrado (PDMI), que estabelece ações até 2030 por meio de redes. O caminho é esse, mas ainda há dificuldade em exercitá-lo. Não temos ainda essa vivência de trabalhar de forma totalmente integrada, deixando de lado os preconceitos e fraquezas, com olhos na coletividade. O que fazemos pode servir para nossos vizinhos, para a cidade, para o Estado.

E.M.: Na Rio+20, a economia verde será tratada no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza. Na prática, o que precisa mudar?
L.P.S.:
Todo sabemos que as práticas verdes ainda não fazem parte das atividades econômicas como um todo. Os indicadores são reflexo disso. O Produto Interno Bruto - PIB, soma das riquezas econômicas dos países, não incorpora questões sociais e ambientais. Somos a sexta economia do mundo, mas será que temos qualidade de vida? O Brasil tem contrastes enormes e está lá no final da fila do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Minas Gerais reflete esses contrastes com muita fidelidade. Essa é a grande questão – como trazer um desenvolvimento que carregue mais igualdade e possa manter o capital natural, com ganhos sociais, boa educação, boa saúde e progresso? O capital natural tem que ser reconhecido como peça chave para o bem-estar humano e fazer parte das grandes tomadas de decisão. A ocupação do espaço natural envolve muitos interesses e deve ser enxergada de forma holística, integral e em longo prazo. O centro da Rio+20 deve estar mesmo na erradicação da pobreza, porque, quanto mais miséria, maior pressão sobre a biodiversidade e maior é a dificuldade de envolver o tecido social nas questões ambientais e no esforço integrado. Apenas com os diferentes setores trabalhando lado a lado - agropecuária, indústrias, prefeituras, ONGs, universidades - cada um com sua expertise, será possível reunir a massa crítica necessária para fazer a tão almejada economia verde ser realmente implementada.

E.M.: Muitos especialistas apontam como grande foco de atenção para esse desafio o envolvimento dos municípios. Eles estão contemplados pela Rio+20?
L.P.S.:
Todos reconhecem a importância dos municípios, afinal, é ali que o cidadão vive e atua. Mas alguns são tão limitados economicamente que vivem exclusivamente do recurso do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Embora isso esteja no radar dos participantes da Conferência, as representações municipais nem sempre têm uma participação de peso. Mas existe uma tendência de fortalecer essa ação municipal nas questões ambientais e sociais integradas. Belo Horizonte, por exemplo, foi escolhida como sede do Congresso Mundial do Iclei (International Council for Local Environmental Initiatives). Mas eu, como cidadão nascido e criado aqui, acho que a capital está muito longe dos requisitos básicos de sustentabilidade. Temos tudo para reverter isso, mas falta visão de longo prazo. Não só em Minas, mas no Brasil como um todo, o imediatismo predomina.

Estamos acordando, mas um pouco tarde. Recentemente, a Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) apresentou, junto com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), um estudo que apontou perdas em torno de meio trilhão de reais (R$450 bilhões) para Minas Gerais, até 2050, com as mudanças climáticas previstas, com cenários de aumento de temperatura de 2 até 5ºC. Ou seja, já reconhecemos o problema, mas é preciso acelerar o passo. A população está crescendo, mas cresce também a desigualdade e a destruição de biomas. Tudo isso tem consequências, a exemplo dos enchentes cada vez mais devastadoras. Temos que definir como minimizar essas mudanças, ver o que a infraestrutura tem a ver com isso. Estamos falando do nosso futuro e o que vai acontecer com Belo Horizonte, Minas e Brasil nos próximos100, 200 anos.

E.M.: Qual postura poderia ser adotada pelos chefes do estado e demais participantes para minimizar os temores de que as discussões não saiam do papel?
L.P.S.:
Com mais de cem chefes de Estado participando de qualquer discussão, o consenso sempre é muito difícil. Mas, havendo pelo menos um consenso mínimo, os países têm que estabelecer compromissos públicos. Ainda que não haja metas quantificáveis, são estabelecidos objetivos. Se o Brasil vai até a Conferência e concorda com o que foi discutido, ele tem que estabelecer o compromisso de internalizar esses objetivos, na forma de leis, políticas, ações, mas também de maneira a viabilizar a contribuição de todos os setores. Quando há comprometimento, a sociedade se torna responsável. ONGs como a Conservação Internacional têm também esse papel, de reunir os atores, traduzir dados de pesquisa, facilitar a integração, mostrar como as pesquisas podem ajudar no cumprimento de metas. Temos que cobrar das autoridades, de um lado, e também fazer a nossa parte, de outro, com os testes de metodologias e o estímulo à inovação. O desafio é gigantesco, porque exige mudança de comportamento. Essa mudança só virá da consciência de que vivemos uma situação diferente, um mundo de escassez - de água, de alimentos, de ar puro. A Conferência Rio+20 poderá, sim, trazer alternativas para que possamos lidar com isso e possamos deixar para as próximas gerações uma vida com qualidade pelo menos igual à nossa, e, quem sabe, ainda melhor.
 
Saiba mais sobre a Conservation International Brasil: http://www.conservation.org.br/quem/

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade