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Estado de Minas GERAÇÃO 92

Eles se tornaram mais conscientes

Quem era criança ou jovem há 20 anos relata o que o debate da Eco92 mudou em suas vidas. Hoje, eles têm expectativa em torno da revolução global


postado em 10/06/2012 06:00 / atualizado em 07/06/2012 16:59

Christyano Malta acompanhou a Rio92 por jornais e revistas. Hoje, ele acredita que informação será disseminada de forma mais ágil por causa da internet(foto: Maria Tereza Correia/EM/DA Press)
Christyano Malta acompanhou a Rio92 por jornais e revistas. Hoje, ele acredita que informação será disseminada de forma mais ágil por causa da internet (foto: Maria Tereza Correia/EM/DA Press)

O evento Cúpula da Terra, também chamado de Rio92 ou Eco92, foi a mais importante conferência mundial sobre meio ambiente realizada desde 1972, quando, em Estocolomo, na Suécia, pela primeira vez o tema foi discutido em um evento de grande porte com a presença de presidentes e chefes de Estado. Para muitos jovens brasileiros que acompanharam as discussões em 1992, havia a expectativa de que a conferência daquele ano contribuísse para a mudança de velhos hábitos no trato com a natureza. Hoje, 20 anos depois, às vésperas do Rio+20, cinco deles contam como acompanharam a Rio92: do que foi discutido, o que colocaram em prática na rotina de suas vidas, e também o que esperam do novo encontro.

O advogado Christyano Malta, na época com 17 anos, observa que grande parte dos jovens ficou à margem do que ocorria no país. "O nível de escolaridade da população era muito menor do que hoje, e o acesso à informação por meio de jornais e revistas, bastante restrito". Nesse aspecto, ele considera que a Rio+20 deverá ter um resultado bem melhor, devido ao acesso à internet. "Naquela época, eu acompanhava tudo pelos jornais e revistas. Hoje, as redes sociais ampliaram o acesso das pessoas à informação. Além disso, elas trocam informações entre si, sobre vários assuntos relativos à conferência, desde críticas à segurança até as benesses que se pode colher com o encontro. E isso, agora, pode fazer toda a diferença", diz.

Tanto para ele quanto para o fotógrafo Daniel Castelo Branco, a Rio92 ficou marcada também pelo forte esquema de segurança montado para sua realização. "A cidade estava sendo maquiada, a pobreza sendo escondida nas favelas e as ruas tomadas por policiais e soldados do Exército, num aparato jamais visto. Amigos meus, que moravam na cidade, chegavam a ser revistados até duas vezes no mesmo quarteirão", conta Christyano.

Daniel, que aos 15 anos morava no Rio, lembra que o evento levou um clima de tranquilidade e segurança à cidade, interrompendo, por alguns dias, a rotina de assaltos e arrastões, que eram corriqueiros. "O Brizola (ex-governador do Rio, Leonel Brizola) pôs todos os homens da Polícia Militar nas ruas. Era ao mesmo tempo impressionante e assustador ver a quantidade de tanques do Exército circulando pela cidade ou parados em pontos estratégicos, apontados para os morros".

Sobre a conferência em si, o fotógrafo recorda-se de que conversava com os amigos sobre a importância de manter a cidade limpa, de não jogar lixo na rua. Em consequência disso, em casa, passou a se preocupar mais também com a economia de água e energia. "Percebo que, de 1992 para cá, a situação do planeta se agravou e vejo que aquelas atitudes pontuais, adotadas por alguns de nós, não foram assimiladas pela maioria da população. Os problemas estão aí - mudanças no clima, poluição, consumo e desperdício. Não dá para dizer o que é mais grave. Espero que, com a intensificação dos debates a partir da Rio+0, possamos encontrar soluções."

A dona de casa Jacqueline Lemos, na época com 17 anos, lembra da preocupação do país com a segurança dos chefes de Estado. Porém, considera mais marcante o clima de insatisfação com o então presidente Fernando Collor de Melo e "as pompas" dos preparativos para o evento. "Ficava impressionada com os gastos e a grandiosidade da estrutura montada para receber a conferência. Acho que nunca tínhamos visto um evento daquela proporção." Para ela, a Rio 92 deixou reflexos positivos porque ampliou o acesso à informação sobre temas importantes, como o aquecimento global e os impactos provocados pelo consumo. "Passei a relacionar melhor a realidade que estava sendo discutida naquele momento com o que estudava na escola. E a me preocupar mais com as questões ambientais. Desde então, tento usar a água da forma mais adequada, tomo mais cuidado com lixo e adoto atitudes que estão ao meu alcance e só dependem de mim."

Em 92, Marta Campos carregava o lixo dos colegas na mochila. Hoje, não abre mão de uma sacola na bolsa(foto: Euller Junior/EM/DA Press)
Em 92, Marta Campos carregava o lixo dos colegas na mochila. Hoje, não abre mão de uma sacola na bolsa (foto: Euller Junior/EM/DA Press)
Quanto à Rio+20, Jacqueline afirma que não sabe avaliar se o debate será produtivo. "Apesar de ver que muito tem sido feito, que as pessoas estão mais conscientes, me preocupa muito o agravamento de problemas ambientais como a poluição das águas e as mudanças bruscas no clima. Vejo que só a boa vontade dos chefes de Estado durante a conferência pode mudar a situação."

Falar da Cúpula da Terra também reavivou boas recordações para a bailarina Marta Campos, que tinha 12 anos em 1992. Ela conta, empolgada, como foi a mobilização ocorrida em sua escola durante a Rio92. "Foi um momento bem marcante. Organizamos um grande mutirão de limpeza e aquela atividade me fez refletir sobre o que cada um de nós poderia fazer pela natureza. Fui mudando meus hábitos e conscientizando os que estavam à minha volta".

Marta recorda-se de que brigava com os colegas para que não jogassem lixo no chão e que, até hoje, é lembrada por essa atitude. "Passei a fiscalizar os adultos e a cobrar mais comprometimento dos meus colegas. Como não havia muitas lixeiras na minha escola, estava sempre com os bolsos da mochila repletos do lixo que meus colegas me davam para guardar", conta. Ela afirma que, acompanhando as discussões sobre a Rio+20, tem a impressão de que hoje os problemas parecem mais complexos de serem resolvidos. "Me preocupam o crescimento da população mundial, a miséria, a falta de água potável e o consumo excessivo dos recursos naturais. E, realmente, confesso que não sei como vamos alcançar o equilíbrio desses aspectos", conclui.

Em 1992, Hildelano Tavares tinha 18 anos. Agora é professor e atua nos comitês das bacias dos rios das Velhas e São Francisco(foto: Juliana Flister/Esp.EM/DA Press)
Em 1992, Hildelano Tavares tinha 18 anos. Agora é professor e atua nos comitês das bacias dos rios das Velhas e São Francisco (foto: Juliana Flister/Esp.EM/DA Press)
Da teoria para a prática cotidiana

O professor universitário Hildelano Delanusse Tavares  conta que todas as suas escolhas – intelectuais, pessoais e profissionais – foram fortemente influenciadas por debates relacionados à adoção de práticas socioambientais no cotidiano, assim como ocorreu com Marta e Jacqueline,. “Passei a repensar o consumo e a participar mais da vida da minha cidade, valorizar as ações solidárias e, principalmente, as pessoas que pesquisam e se preparam para trocar informações sobre meio ambiente e sociedade”.

Hildelano, que estava com 18 anos em 1992, lembra que a abordagem da mídia sobre a temática socioambiental foi muito esparsa e superficial. E que também chamava sua atenção a falta de clareza na definição de uma agenda de interesses comuns entre os governos, países e grupos sociais. “Acho que o evento e a época foram de aprendizagem para todos.” Sobre a Rio+20, ele observa que, apesar de o caráter técnico das discussões ter avançado muito, os debates ainda estão desarticulados das questões políticas e econômicas. “Essas avaliações técnicas, desprovidas do apoio das organizações institucionais e sociais diversas, não vão gerar resultados efetivos nas políticas públicas. É preciso reconhecer que a ciência ambiental é fundamental para o avanço das negociações diante dos complexos interesses envolvidos antes, durante e após a conferência.”

Hildelano diz que, apesar de se preocupar com os níveis de poluição urbana e rural e com a falta de capacidade de resolver os conflitos ambientais, está esperançoso em relação a quatro questões: os avanços da comunicação, a capacidade de organização da sociedade em redes (presenciais e virtuais), a reavaliação do papel do Estado frente ao desafio socioambiental e a possibilidade de intervenção através de projetos viáveis. “Criticar ou nos fazermos de vítimas não indicará respostas e soluções. Precisamos mesmo é acreditar e, acima de tudo, agir.”

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