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Estado de Minas

Mineiros se despedem de Oscar Niemeyer

Em Belo Horizonte, o dia seguinte à morte do arquiteto foi de homenagens em suas obras na Pampulha. Nas casas e prédios projetados por ele, os sentimentos eram de orgulho e tristeza


postado em 07/12/2012 00:12 / atualizado em 07/12/2012 08:19

Na orla da Lagoa da Pampulha, estudantes fizeram questão de conhecer a Igreja São Francisco de Assis e, em silêncio,
Na orla da Lagoa da Pampulha, estudantes fizeram questão de conhecer a Igreja São Francisco de Assis e, em silêncio, "abraçaram" a fachada azul e branca que integra o complexo construído por Niemeyer (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)

Abraços, palavras de reconhecimento e eternas lembranças. Um dia depois da morte do arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012), que deixou a marca do seu traço modernista em Belo Horizonte e outras cidades mineiras, muita gente foi prestar homenagens à memória do grande brasileiro diante de um monumento que é própria tradução da sua obra: a Capela de São Francisco de Assis, na orla da Lagoa da Pampulha. Na tarde de ontem, turistas tiraram fotos diante da fachada azul e branco, estudantes deram as mãos formando uma grande roda e moradores da capital destacaram a importância do carioca reconhecido internacionalmente pelo trabalho. Para quem reside em imóveis projetados por Niemeyer, o dia foi triste. “O JK está órfão”, disse Maria Lima das Graças, síndica do condomínio famoso localizado na Praça Raul Soares, entre os bairros Santo Agostinho e Lourdes, na Região Centro-Sul.
 
Numa excursão à Pampulha, a criançada do primeiro e segundo anos da Escola Infantil Pingo de Luz, do Bairro João Pinheiro, na Região Noroeste, fez questão de ver a capela datada de 1943 e tombada quatro anos depois pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).  No fim do passeio, todos se uniram e prestaram, em silêncio, a homenagem ao arquiteto, levantando os braços. “Ele foi um homem importante, fez a igrejinha e morreu com 104 anos”, disse Nicolas de Souza, de sete. “Vai fazer falta”, acrescentou Juarez de Matos Faria, de 7 anos, ao lado das professoras Ana Cristina de Morais, Rosângela Miranda, Ângela Guimarães e da diretora Márcia Araújo.
As assistentes sociais de Terezina (PI), Márcia Brandão, Olívia Moura Fé e Eline Gomes, aproveitaram a tarde ensolarada para conhecer o cartão postal da cidade, ciceroneadas pela consultora de beleza belo-horizontina Eliete Vieira. “Niemeyer era um profissional incomparável. Estou satisfeita por estar aqui hoje e ver pela primeira vez a capela”, disse Márcia. Para as amigas, o passeio era um jeito de reverenciar a memória do arquiteto. “No Piauí, não temos projetos de Niemeyer. Então, vamos aproveitar bem BH”, afirmou Olívia.

BOAS SURPRESAS Belo Horizonte tem 17 projetos oficiais da lavra do arquiteto carioca, sendo os mais recente os da Cidade Administrativa do governo estadual e a Catedral Cristo Rei, da Cúria Metropolitana, cujas obras deverão começar entre fevereiro e março. Há os pontos conhecidos como o Edífico Niemeyer, na Praça da Liberdade e o conjunto da Pampulha, da década de 1940, e outros que poucos conhecem, embora sejam do mesmo valor cultural. Um exemplo é a Residência João Lima Pádua, de 1943, que fica bem na esquina das ruas Bernardo Guimarães e Araguari, no Bairro Santo Agostinho. Ocupada por uma cooperativa médica, a casa revestida de azulejos azuis está bem cuidada. “Trata-se de um patrimônio importante da nossa história”, diz a gerente administrativa da entidade, Flávia Fabiane Silva. 
Na lateral da Rua Bernardo Guimarães, foi feito um puxado, em forma de “gaiola”, que será modificado para cumprir a recomendação do patrimônio municipal, já que o imóvel é tombado.  Prestes a completar 90 anos, o ex-perito da Justiça do trabalho Otto dos Santos, destacou a beleza do imóvel e a relevância do autor do projeto – “o maior arquiteto que o país já teve”.

Outro imóvel pouco conhecido de moradores e visitantes é a Residência Alberto Dalva Simão, no Bairro São Luiz, na Pampulha. A construção data de 1953, ocupa quase um quarteirão e chama a atenção de quem passa na rua pelas curvas no teto e um amplo jardim. “Com a Pampulha, Niemeyer pôs Belo Horizonte no mapa da cultura internacional e reforçou a vocação modernista e de vanguarda da cidade, que nasceu em contraponto à paisagem colonial de Ouro Preto. Além de tudo, ele criou a Igreja de São Francisco, que é um ícone da capital”, ressalta o professor de arquitetura da UFMG Flávio Carsalade.

ESPANTO Do outro lado da cidade, no Bairro Calafate, na Região Oeste, uma construção incrustada entre a Avenida Silva Lobo e ruas Platina e Desembargador Barcelos fere os olhos devido à situação de abandono. Tombado pela prefeitura, o antigo lactário – lugar para distribuição de leite às mães carentes – é atribuído à lavra de Niemeyer, embora não conste da lista oficial de seus projetos. Uns garantem que foi o primeiro de BH a sair da prancheta do arquiteto carioca. 
 
Vizinha do antigo lactário, a aposentada Virgínia Pereira de Meireles, de 74 anos, se lembra de ter visto Niemeyer no terreno em frente. “Juscelino vivia na casa da minha avó Virgínia Zandona, era amigo da minha família”, diz a aposentada com os olhos brilhantes. Ela acredita que o imóvel será ocupado novamente. “Tenho visto movimento aqui. Parece que o imóvel será recuperado pela prefeitura. Seria muito bom”, disse Virgínia, que se declarou “arrasada” com a morte do arquiteto.
 
De volta ao Centro da cidade, impossível não conversar com moradores do Condomínio Kubitschek, o popular edifício JK, datado de 1950 e dono de 1.167 unidades, entre apartamentos e lojas distribuídos em dois blocos, 13 tipos diferentes de habitação – de quitinetes de 20 metros quadrados a apartamentos de 200 metros quadrados – e 5,5 mil moradores. Durante toda a quinta-feira, a bandeira do condomínio foi hasteada a meio pau em sinal de luto. “Viver aqui é um honra”, disse a bacharel em direito Enilce de Figueiredo Alves Pereira, residente há 30 anos. “A localização é excelente, o prédio é arejado, enfim, tenho orgulho do lugar”, afirmou. O engenheiro químico aposentado José Carlos Murta, de 71, morador há sete, concorda e lamenta a perda: “Niemeyer era um arquivo vivo da arquitetura brasileira.”

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