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Estado de Minas

Últimos meses de Alencar foram marcados pelo agravamento do seu quadro de saúde


postado em 30/03/2011 07:12 / atualizado em 30/03/2011 07:20

Morreu o guerreiro. Se nos últimos 13 anos a rotina incansável foi interrompida por 17 cirurgias e 44 internações, os últimos meses de José Alencar Gomes da Silva foram particularmente penosos. Entretanto, de sua boca, ninguém ouviu queixas das dores que decorrem de um tratamento do gênero. O sorriso largo e franco se abria, quando revelava o seu apetite por torresmo e por um “golo” da Maria da Cruz, a pinga de que mais gostava, ou mesmo quando verbalizava a admiração e amizade que nutria pelo “companheiro” Lula, da chapa vitoriosa capital-trabalho. Em meio ao tratamento, por mais de uma vez recebeu amigos no Palácio do Jaburu, com quem gostava de discutir política. Convidava para o café da manhã, exibia as vitaminas que tomava. Arfava um pouco quando se locomovia. Cansava-se facilmente. Mas mostrava a capela, a vista para o Lago Paranoá e depois convidava para o seu escritório, onde, entre um petisco e outro, discorria sobre o governo. “Se dona Mariza vier aqui, diga que esse aperitivo é seu”, dizia rindo, como se, por um momento, a esposa e amiga leal, sempre incansável, não o conhecesse.

Mas a luta contra a doença não foi fácil. Nem para Alencar, nem para a família. Dona Mariza, que se recusava a arredar pé do Hospital Sírio-Libanês, filhos e netos revezaram-se insones durante as sucessivas internações a partir do segundo semestre do ano passado. Em setembro, ele foi internado em razão de um edema agudo de pulmão. Deixou o hospital e, semanas depois, ousou participar de uma carreata, ao lado de Dilma Rousseff (PT), em Belo Horizonte. “Não podia deixar de vir”, justificou-se aos amigos. Não se sentia bem e não tinha certeza se daria conta. Mas, em carro aberto, lá foi ele entre Dilma e Lula, subindo a Afonso Pena. Erguia os braços e sorria. Uma semana depois, em 25 de outubro, retornou às pressas ao Hospital Sírio-Libanês. O quadro era de suboclusão intestinal. Ainda no hospital, sofreu um infarto.

A estada se prolongou: Natal, réveillon. Dona Mariza havia se mudado para o quarto cativo do Hospital Sírio-Libanês. Entre idas e vindas da UTI, médicos e enfermeiros batiam ponto para uma prosa. Durante a longa internação, Alencar reiterava a ideia fixa: desejava ir a Brasília para a posse da presidente Dilma Rousseff. Momentos antes da cerimônia, cogitou embarcar. Queria descer a rampa do Palácio do Planalto, ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva. Após insistência de dona Mariza, desistiu. Vestiu um terno e chamou os jornalistas: explicou por que não iria à posse e disse que sua missão estava cumprida. “Não fui porque não me deixaram”, resmungou, brincando. Voltou a dizer que não tinha medo da morte. “Se Deus quiser que eu morra, ele não precisa de câncer para isso. Se ele não quiser que eu vá agora, não há câncer que me leve”, disse. Lula foi visitá-lo logo em seguida. Contou a ele os detalhes da posse. Dilma foi vê-lo mais de uma vez depois de assumir.

Depois de 17 cirurgias e 44 internações que marcaram 13 anos de luta contra um câncer agressivo, Alencar, que marcou a sua trajetória pública pela constante preocupação com a conduta honrada e ética, cumpriu a própria profecia: “Peço a Deus que não me dê nem um dia a mais de vida que eu não possa me orgulhar dele”. Ele já estava com um rim sem funcionar e com a pressão arterial baixa. Não fazia mais tratamento contra o câncer, porque o seu organismo não reagia aos medicamentos. Os médicos sabiam que não era mais possível fazer cirurgia para conter a hemorragia. As opções se acabaram. Era o adeus. Alencar foi sedado pela manhã, por causa das dores. Morreu ao lado da família.

O semblante está sereno. Nos lábios, se insinua um sorriso. A morte chega cedo. O guerreiro não quer descansar. Despede-se da família, mas, até o último suspiro, considera a vida breve. Ele parte, mas o ideal fica. Sabe que o alcançou: “Se eu morrer agora, é um privilégio para mim, que a situação está tão boa que não tem como melhorá-la”, afirmou algumas vezes este ano, em referência ao legado do governo do “amigo e companheiro” Lula, com quem partilhou dois mandatos consecutivos. Recordista em interinidade, o empresário José Alencar, que possibilitou a parceria “capital-trabalho”, exerceu, ao longo de oito anos, por 503 dias a Presidência da República.

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