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Estado de Minas

Casa em BH funcionou como centro clandestino de tortura na ditadura

Três militantes de movimento contra a ditadura foram espancadas em imóvel na Renascença listado entre 17 pontos clandestinos que compunham a estrutura das forças de repressão


postado em 08/04/2014 06:00 / atualizado em 08/04/2014 06:59

Heloísa Starling na apresentação de relatório sobre casas do horror(foto: Márcio Fernandes/Estadão Conteúdo)
Heloísa Starling na apresentação de relatório sobre casas do horror (foto: Márcio Fernandes/Estadão Conteúdo)

Além de sete quartéis das Forças Armadas, outros 17 centros clandestinos de tortura foram identificados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), que apresentou, nessa segunda-feira, um relatório preliminar sobre esses locais. Um deles funcionou no Bairro Renascença, na Região Nordeste de Belo Horizonte, e já se sabe que pelos menos três militantes da Ação Popular (AP), todas mulheres, foram torturadas lá.


No relatório, há um resumo do depoimento de Delsy Gonçalves de Paula, que foi levada para a casa da Rua Taquari, 508, onde hoje há um conjunto de prédios: “Foi barbaramente espancada pela capitão Pedro Ivo, capitão Portela, tenente Pádua, sargento Léo e pelo major Rubem. Após toda sua roupa ter sido violentamente arrancada, sofreu golpes de karatê no pescoço, estômago e rins; socos no rosto e pontapés.” Sissi, como Delsy é conhecida, se aposentou, após dar aulas de Ciências Políticas na PUC Minas. As outras duas vítimas de torturas na casa do Bairro Renascença localizadas pela CNV – Laudelina Carneiro e Maria do Rosário da Cunha Peixoto –também militavam na Ação Popular e hoje vivem em São Paulo.


De acordo com a CNV, a casa era ligada ao 12º Regimento de Infantaria do Exército e à Secretaria de Segurança Pública de Minas Gerais. O 12º RI, no Barro Preto, como era conhecido, também já foi apontado como local de abusos dos direitos humanos. De acordo com o relatório, o responsável pela casa do Bairro Renascença ligado ao Exército era o capitão Hilton de Paula da Cunha Portela. A CNV aponta ainda quatro policiais militares como responsáveis pelos abusos: major Rubem, capitão Pedro Ivo dos Santos Vasconcelos, primeiro tenente Antônio de Pádua Alves Ferreira e sargento Darcy Rodrigues, segundo relatório da CNV.


A assistente social Gilse Maria Cosenza Avelar, que militou na Ação Popular, foi torturada em um local entre as cidades de Belo Horizonte e Ribeirão das Neves, diz o relatório, que não precisa o endereço, mas traz um depoimento da vítima: “Tratava-se de uma pequena construção com três ou quatro salas, na saída de uma rodovia, no meio de um descampado situado no caminho que leva ao município de Neves”. O relatório, coordenado pela professora da UFMG Heloísa Starling, aponta ainda um sítio no Triângulo Mineiro, mas não detalha quem foi torturado lá nem nomeia os torturadores.


Dos 17 locais apontados pela CNV como casas de tortura, sete estão mapeados, com detalhes das vítimas, algozes e endereços, mas os outros 10 ainda estão sendo investigados. “Centros clandestinos eram aquelas casas, apartamentos, sítios ou fazendas, em geral de propriedade privada, que foram cedidos pelos proprietários. Não se confundem com quartéis nem com delegacias de polícia. Tanto a criação como o funcionamento desses centros eram resultado de uma política definida pelas Forças Armadas. Não eram autônomos, não eram isolados nem subterrâneos. Esses centros eram parte da estrutura de inteligência e de repressão do regime militar e obedeciam ao alto comando das Forças Armadas”, explicou Heloísa Starling.


Segundo a pesquisadora, foram identificadas três formas de desaparecimento de corpos: as vítimas eram queimadas junto com pneus, esquartejadas ou jogadas no fundo dos rios ou do mar. Mas nem todas as casas serviam à tortura: “Havia centros clandestinos que não funcionavam como centros de tortura e morte, mas para a cooptação e monitoramento de militantes infiltrados”, explica Heloísa, sobre os “cachorros”, como ficaram conhecidos aqueles que delatavam os companheiros.

O centro mais conhecido é a Casa da Morte, em Petropólis, que funcionou de 1971 a 1974 e onde sob pelo menos 13 pessoas foram mortas. Porém, a mais violenta foi a Casa Azul, em Marabá (PA), que teve como militantes do PCdoB que haviam se concentrado para a guerrilha do Araguaia. Ali, foram mortos pelo menos 22 militantes e dois camponeses que se tornaram guerrilheiros.


Além desses dois locais e da casa do bairro Renascença o relatório aponta uma casa em São Conrado, no Rio, ligada ao Cenimar , onde morreu Eduardo Collen Leite, o Bacuri, da Ação Libertadora Nacional (ALN) em 1970; a Fazenda 31 de Março e a Casa de Itapevi em São Paulo, nesta segunda oito militantes desapareceram após irem presos e uma casa no Ipiranga, na zona sul de São Paulo, onde funcionou como um centro de recrutamento de infiltrados, entre 1972 e 73.

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