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Estado de Minas HISTÓRIA DO BRASIL

O Neymar cai no Enem também?

A construção do herói brasileiro na História do Brasil


postado em 19/07/2018 11:00 / atualizado em 19/07/2018 11:09

Cai-cai? Craque? Vergonha? Ídolo?

 

Neymar é inevitavelmente uma das maiores polêmicas recentes no imaginário brasileiro e mundial. A esperança de muitos torcedores brasileiros de vê-lo liderar a conquista do hexacampeonato, que frustrantemente não veio, se desfez, talvez, antes mesmo da derrota para a Bélgica. Cada queda do jogador, ainda que provocada por uma falta legítima, era seguida da multiplicação de “memes” que varriam as redes sociais e de críticas e defesas vigorosas em várias partes do mundo. A eliminação antecipada e a agitação em torno de seu nome interromperam um roteiro que parecia programado para a construção de mais um herói nacional. E isso, aos olhos de um professor de história, levanta uma discussão que atravessa a nossa trajetória, possível, de alguma forma, nas provas vestibulares: a construção dos heróis nacionais!

Neymar: a construção do herói brasileiro?(foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A Press)
Neymar: a construção do herói brasileiro? (foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A Press)
 

A colonização portuguesa, apoiada na subjugação à monarquia absolutista e à hierarquia católica, nos legou um imaginário fortemente patriarcal e paternalista. Nossa cultura política e, consequentemente, nosso cotidiano, foram marcados por uma forte crença na necessidade e na dependência da figura de um patriarca, um líder, homem, condutor dos processos, patrocinador de sonhos, salvador nos momentos difíceis: o senhor de engenho, o feitor, o padre, o bandeirante... As matrizes étnicas indígena e africana, ainda que atribuíssem mais importância à figura feminina quando comparada aos europeus, também traziam essa prática paternal: no culto ao morubixaba (cacique) ou ao pajé, ao rei africano para cá traficado, ou na liderança de Zumbi em Palmares...

 

A opção monárquica à época da independência reforçou a permanência dessa necessidade de um “pai” na condução de nosso imaginário histórico. As elites latifundiárias e escravocratas de várias regiões do nascente país viram em D. Pedro I uma liderança fundamental para a manutenção de seus privilégios aristocráticos e, assim, evitar o republicanismo exaltado, popular, fragmentador e abolicionista. Mais tarde, o golpe (da maioridade) que promoveu a ascensão de D. Pedro II em 1840 foi inflamado por uma campanha que defendia a necessidade do “pai-imperador” (mesmo que fosse um menino de apenas 14 anos) como solução para salvar o Brasil das rebeliões que ameaçavam dissolver a unidade nacional. Ao longo do Segundo Reinado a literatura romântica se mostrou o primeiro movimento intelectual a ir à caça do herói. Idealizou os indígenas, na crença de estar valorizando as origens da pátria, mas com um símbolo que não foi abraçado pelas elites brancas e que, para piorar, ainda era estereotipado ao estilo físico e moral europeu.

 

 

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Mais tarde veio a República. Nasceu noutro golpe, militar, com o povo assistindo a tudo bestializado (como nas palavras de Aristides Lobo) e sendo convencido a crer no grande herói forjado pelos intelectuais pró-governo: o Tiradentes. Ele foi construído estrategicamente como o “Cristo” traído, o bode expiatório, o republicano de outros tempos que deu a vida pelo Brasil melhor. Um fake! Diriam os meus alunos dessa geração. Acabou virando nome de rua, avenida, praça ou escola pelo país, além de feriado nacional, sem ter feito nada de efetivo para o país. Até creio que ele tenha desejado fazê-lo, pelo menos por sua Minas Gerais, mas não o fez. E virou herói. Vale ressaltar como essa república, que se mostraria oligárquica nas próximas décadas, foi alicerçada no coronelismo, uma outra prática social e política que denuncia a manutenção das heranças paternalistas, com traços mais persuasivos e violentos.

Paternalismo e populismo foram a base do Estado Novo de Getúlio Vargas.(foto: Internet)
Paternalismo e populismo foram a base do Estado Novo de Getúlio Vargas. (foto: Internet)
 

Em 1930 tivemos um outro golpe. Chamado de revolução justamente pelos intelectuais e burocratas da nascente Era Vargas que tentavam criar um outro “enviado”, o próprio Vargas, o “pai dos pobres e trabalhadores”. É inegável a contribuição do governo de Getúlio no que diz respeito às conquistas (e não concessões, há de se lembrar!) operárias, mas é imprescindível a lembrança constante e dolorosa de que se tratava de um líder autoritário, com traços fascistas. Em meio à crise do governo em 1945 surgia o movimento Queremista, composto por seus defensores que pediam o fim das medidas de exceção, uma nova constituição, democracia, mas com ele! Os militares o depuseram, mas cinco anos depois ele retornava “nos braços do povo”, eleito. Reafirmando o discurso e as ações nacionalistas e trabalhistas, sofreu pressões e suicidou em agosto de 1954. Deu, portanto, seu último golpe político, “saindo da vida para entrar na história” e para consolidar de vez a figura paternal no imaginário político nacional. Seus críticos viram nisso populismo, expressão pejorativa máxima criada para se atribuir aos políticos manipuladores das massas que se candidatavam a heróis populares. Seus admiradores o veem como revolucionário, como aquele que, mesmo sendo autoritário, foi o primeiro a fazer algo de fato pelo povo.

 

JK, nos anos seguintes, se viu e foi visto por muitos como o paladino do progresso brasileiro. O homem das metas grandiosas, construtor de Brasília, das rodovias, do desenvolvimento noutras regiões nacionais. O homem da Bossa, do sorriso, que ainda teve em seu governo a conquista da primeira Copa do Mundo pelo Brasil, em 1958, na Suécia. A Copa de Didi, Garrincha e Pelé. E ainda que Didi tenha sido, para muitos, o melhor do torneio, Garrincha saía dali como o nosso primeiro herói nacional dos gramados. A vida privada de Garrincha estava longe de ser aquela típica história dos grandes príncipes ideais. Beirava mais o drama, a comédia, a superação. Mas talvez tenha sido esse o ingrediente (associado, claro, aos inigualáveis dribles com as pernas tortas), o diferencial para fazer dele um imortal. O bicampeonato em 1962 consolidou o poder de Garrincha, principalmente com a contusão de Pelé.

Selo comemorativo da Copa de 70.(foto: Internet)
Selo comemorativo da Copa de 70. (foto: Internet)
 

A Copa de 1970 é um capítulo histórico à parte. Não nos legou um pai herói, mas vários. Para muitos, a melhor seleção de todos os tempos. Para Médici e os generais que comandavam o país, a oportunidade perfeita para ufanar, exaltar os índices de crescimento econômico que vivíamos, camuflando a concentração de renda, a corrupção, a repressão, o exílio, a tortura, a censura... Os ídolos de 1970 foram maiores que a Ditadura! Por isso também ficaram imortais no imaginário futebolístico nacional.

 

Houve um vácuo na conquista de títulos até 1994. Mas duas coisas chamam atenção para essa nossa análise. A primeira delas é a seleção de 1982, para muitos, a mais injustiçada da história. Boa demais, merecia o título que não veio com a derrota para a Itália. Os craques dali talvez não tenham virado heróis nacionais, mas são inegáveis ídolos. A segunda coisa é o preenchimento do imaginário esportivo nacional com outro herói. Se o futebol não ganhava, Senna ganhava. E emocionava, dava orgulho, mantinha forte o nome do país do cenário esportivo mundial. Sua morte, no dia do trabalhador, no mesmo ano da vitória do tetracampeonato, num acidente assustador, o imortalizou.

 

E nas conquistas de 1994 e 2002, você leitor com mais de vinte anos não terá dúvidas em lembrar dos ídolos: Romário, Ronaldos, Rivaldos, Felipão... Penso terem saído sorrisos e suspiros de admiração e saudade nas faces de alguns de vocês!

De lá pra cá colhemos frustrações. Vários motivos podem ser apontados e, para mim, se somam: falta de craques tão decisivos, falta de esquemas táticos definidos, crescimento de outras seleções, azar, enfim. Mas também não vi, de 2006 à eliminação para a Bélgica, aquele jogador, líder, pai, messias, que “colocasse a bola em baixo do braço”, desse as mais briosas declarações, cativasse, incontestavelmente, o torcedor e decidisse em campo.  Nosso imaginário patriarcal e agora também a mídia e os patrocinadores buscaram esse herói que não veio. Neymar era o candidato-mor em 2014 e 2018, um período marcado por crises econômica, política, jurídica, e, portanto, num ambiente propício para a emergência de um messias.

 

Mas no mundo de hoje, em que “todo mundo é técnico”, com redes sociais e até VAR (o árbitro de vídeo), o herói precisa ir além do que Neymar fez. Ele é, sem dúvidas, uma celebridade, um jogador acima da média, um ídolo para muitos especialmente jovens. É o jogador mais caro do mundo hoje, desejado por grandes clubes por seu inegável talento. Tudo isso reforçou o trabalho maçante das empresas patrocinadoras e agências propagandísticas em tentar fazer dele o “Deus Ney”. Mas seu talento foi ofuscado pelo narcisismo, pelo excesso de drama e pela derrota. Ele carregará por um bom tempo o estigma que ele próprio criou e que os promotores de sua imagem não conseguiram lhe dar. Se ele e seus empresários queriam e precisavam que ele fosse mais que um ídolo, alçado ao patamar dos imortais do futebol e da história do Brasil (que muitas vezes se entrelaçam), não foi dessa vez. Neymar precisará então de novas ações, nova roupagem e conquistas. E se dói para o brasileiro, especialmente para o fã de Neymar, a perda do título e a degradação de sua imagem, para o historiador fica a constatação de que nossa cultura patriarcal e paternalista, que abre brechas à construção de celebridades, ídolos e heróis permanece viva, mas estará, por mais algum tempo, carente.    

 

Júnio Santos é professor de História do Determinante Pré-Vestibular.

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