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Estado de Minas REDAÇÃO

Por que debater o racismo (ainda) é necessário?


postado em 19/06/2018 14:55 / atualizado em 19/06/2018 15:05

“Numa sociedade racista, não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”. A frase de Ângela Davis, filósofa, negra e militante pela igualdade racial e de gênero, fechou o evento que nós, professores e professoras do Determinante Pré-vestibular, realizamos no último domingo, dia 17 de junho, sobre os 130 anos da Lei Áurea. Sim, é papel das instituições educativas promover o debate político e crítico sobre o racismo e as desigualdades raciais. Não só pela obrigatoriedade do ensino sobre a história e cultura afro-brasileira, que está em vigência desde 2003 – com base na Lei 10.639 – e pela existência de diretrizes curriculares para a educação das relações étnico-raciais, mas, sobretudo, porque, à revelia da diversidade cultural e da miscigenação presente no Brasil, a opressão contra o povo negro persiste camuflada em um discurso de democracia racial. Isso mostra o quanto precisamos avançar.  Por isso, estamos comprometidos com a luta antirracista e não nos esquivamos, nem nos esquivaremos, desse papel, a despeito do desconforto que o assunto gera em um contexto em que a maioria é branca e, portanto, goza de incontáveis privilégios.

 

No auditório havia cerca de 600 alunos. Todos atentos, lápis e papel nas mãos, contentes pela oportunidade de ali estarem – apesar de um pouco ansiosos para o jogo do Brasil. A maioria deles, jovens entre 17 e 22 anos, brancos, e com perspectivas, anseios, medos e sonhos bem diferentes daqueles que permeiam a realidade da maioria dos jovens negros. Por exemplo, não precisam se preocupar tanto com as estatísticas aterradoras da violência: 77% das vítimas de assassinato no Brasil são negros. Isso significa dizer que o risco de um jovem negro ser vítima de homicídio no Brasil é 2,7 vezes maior que o de um jovem branco. É como se negros e não negros vivessem em países distintos em relação à violência letal. Tomemos como exemplo o caso de Alagoas: “o estado teve a terceira maior taxa de homicídios de negros (69,7%) e a menor taxa de homicídios de não negros do Brasil (4,1%). Em uma aproximação possível, é como se os não negros alagoanos vivessem nos Estados Unidos, que em 2016 registrou uma taxa de 5,3 homicídios para cada 100 mil habitantes, e os negros alagoanos vivessem em El Salvador, cuja taxa de homicídios alcançou 60,1 por 100 mil habitantes em 2017.” Não podemos desconsiderar também que a taxa de homicídios de mulheres negras foi 71% superior à de mulheres não negras. Todos esses dados assustadores estão presentes no mais recente Atlas da Violência:

 

Essas estatísticas são apenas uma das maneiras como o racismo – e a consequente desigualdade racial – estrutura a sociedade brasileira e coloca em xeque a ideia de “democracia racial”, forjada e reforçada ideologicamente por meio de mecanismos políticos e simbólicos no decorrer da história do Brasil. Os 111 tiros de fuzil, disparados por policiais militares, contra CINCO jovens negros desarmados, no dia 28 de Novembro de 2015 na cidade maravilhosa, os 111 mortos no dia 2 de outubro de 1992, em um massacre na Casa de Detenção Carandiru, a execução de Marielle Franco, no dia 14 de março de 2018, também no Rio de Janeiro, dentre muitos outros exemplos, entretanto, não nos permitem continuar negando e silenciando o assassinato em massa, ligado ao racismo, ao legado da escravidão e, contraditoriamente, às políticas de segurança – elementos, em maior ou menor medida, responsáveis pelo genocídio dos jovens negros. 

 

A desigualdade racial se expressa de forma sanguinária: os negros, sobretudo os jovens, são muito mais vulneráveis à violência física. São também as principais vítimas da ação letal dos policiais e o perfil predominante da população carcerária do Brasil. Os dados são explícitos e exigem respostas pela justiça racial Os cinco jovens exterminados pela polícia tornaram-se metonímia de uma parte da população brasileira, a população negra, que ultrapassa, segundo dados do IBGE, mais da metade dos brasileiros. O Estado, aqui, é ativo na produção de invisibilidades sociais, e reedita, nos 130 anos que se passaram desde a Lei Áurea, a opressão dos negros, por meio de vários dispositivos, como a educação precária e a ocupação de favelas por policiais militares.  

 

>> Proposta de Redação Exclusiva

É por isso que dizemos que o racismo é estrutural: sua existência independe do fato de ser intencional ou baseada em preconceitos. O racismo não se resume a preconceitos e a julgamentos apoiados em estereótipos – situação à qual as pessoas negras e sua cultura também são submetidas constantemente por meio dos mais inescrupulosos xingamentos, ofensas e até piadas. O racismo tem como foco, sobretudo, a ideia de privilégio, ou seja, a conquista de privilégios de um determinado grupo sobre outro que perpassa gerações e gerações.  O racismo se estrutura na linguagem e no discurso, que conjuga, perigosamente, discriminação cultural e racismo biológico – por exemplo, na criminalização (e marginalização) da capoeira, ao final ao século XIX, do samba, até meados do século XX, e, mais recentemente, em 2017, na tentativa de criminalização do funk. O racismo se distribui no espaço geográfico, pois é visível não só a composição majoritária de brancos em lugares socialmente privilegiados, como também a de negros quando se traça o perfil dos moradores de habitações de alta vulnerabilidade. O racismo se dispõe em formas dissimuladas e amparadas pelo convincente – porém falacioso – discurso da meritocracia e se entranha nas relações políticas, culturais, educacionais e econômicas.

(foto: Meme divulgado pelas redes sociais %u2013 autoria desconhecia)
(foto: Meme divulgado pelas redes sociais %u2013 autoria desconhecia)
 

Nas eleições de 2018, por exemplo, teremos a maioria de eleitores negros (54 por cento, segundo o IBGE). Candidatos negros e/ou que apoiam a luta antirracista por meio de políticas sociais relevantes e eficazes? Podemos contar nos dedos. Além disso, a condição subalterna das pessoas pretas e pardas, articulada às condições de classe e de gênero – articulação denominada pela sociologia de interseccionalidade –, intensifica profundamente os estigmas raciais. Além da violência física, enfrentam, os negros, a violência simbólica: a existência da imposição de um discurso social hegemônico que reconhece como legítimas apenas as formas “brancas” de se expressar – fato que desaloja os negros de sua humanidade e os destitui de suas subjetividades.


(foto: Foto divulgada nas redes sociais - autoria desconhecida)
(foto: Foto divulgada nas redes sociais - autoria desconhecida)

No palco, éramos sete professores e professoras, seis socialmente identificados como brancos. Esses números dizem de privilégios. É essencial haver, por parte de nós, brancos, não só o respeito à negritude, mas a consciência de nossa branquitude: um lugar hegemônico, de privilégios simbólicos e concretos que colaboram para construção social e reprodução do preconceito racial.  Diante dessa realidade, não devemos nos silenciar, acomodados com nossas regalias e confortáveis com a crença equivocada de que existe igualdade racial. Esperamos, então, outros momentos, tão profícuos como aquele do último domingo, para ampliarmos, ainda mais, o debate a favor da luta antirracista. Não queremos práticas educativas que calam e ignoram a história e a luta do povo negro.

 

Maria Raquel Dias Sales Ferreira é professora de Português do Determinante Pré-Vestibular. 

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