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Estado de Minas GEOGRAFIA

Brasil e o Caos do Desabastecimento


postado em 07/06/2018 11:08 / atualizado em 07/06/2018 12:33

A crise de desabastecimento que o Brasil vivenciou nos últimos dias deixou clara a nossa dependência do sistema rodoviário de transporte. Como os caminhoneiros, responsáveis pela circulação da maior parte das cargas que abastecem o Brasil, entraram em greve, enfrentamos dias com falta de combustível, gás de cozinha e alimentos, entre outros produtos de necessidade básica. Muitos setores econômicos pararam suas atividades por falta de matéria prima para o trabalho e por não terem como entregar, ao mercado consumidor, seus produtos. O prejuízo foi altíssimo e vai reverberar negativamente na economia do país por vários meses. Economistas já fazem uma correção negativa da expectativa de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) nacional para 2018. Esperava-se um crescimento de 3,0%, que foi reduzido para algo em torno de 2,0% após a mobilização.

 

Toda essa situação escancara o desequilíbrio histórico da nossa Matriz de Transportes. Atualmente, nossas cargas são transportadas cerca de 62,8% pelo transporte rodoviário, 21,0% pelo transporte ferroviário, 12,6% pelo transporte aquaviário e 3,6% pelo transporte dutoviário. A participação do transporte aéreo ainda é muito pequena, não sendo mensurada no gráfico de circulação de cargas no Brasil.

Com a maior parte das cargas sendo transportadas por rodoviarismo, fica clara a nossa fragilidade perante qualquer ocorrência nesse setor. Historicamente, construímos essa deficiência.

O Brasil é o único país de extensão continental, ou seja, extenso no sentido leste/oeste e norte/sul, que possui o sistema rodoviário como principal meio para a circulação de pessoas e mercadorias. A construção do rodoviarismo começou durante o governo de Juscelino Kubitschek, na década de 1950, que promoveu a abertura da economia nacional às multinacionais, facilitando a chegada de várias montadoras de automóveis no país. Com o aumento do número de veículos a necessidade de ruas e rodovias cresceu de maneira significativa e o sistema rodoviário se consolidou.

É importante destacar que o rodoviarismo não é um problema para os deslocamentos de até 300 Km. Ele é o único que apresenta grande flexibilidade de movimentação, necessária em centros urbanos. Porém, para grandes distâncias ele não se mostra interessante. Os longos trechos percorridos demandam alto gasto com combustível e manutenção dos veículos, que sofrem com o desgaste dos asfaltos, que em sua maioria são de baixa qualidade, ainda afetados pelo alto índice de chuva na maior parte do território nacional – o Brasil possui predomínio de Clima Tropical. Somado a isso, o volume de carga transportada por veículo é extremamente baixo. O resultado disso é um valor de frete que, na maioria das vezes, encarece o produto final em, aproximadamente, 30% do valor de seu custo. Essa situação diminui a possibilidade de termos acesso a produtos com um valor final mais acessível, o que afeta o poder de compra da população e reduz a competitividade dos produtos nacionais em mercados externos.

(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press 27/03/2013)
(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press 27/03/2013)
 

A diversificação e redistribuição dos percentuais de cargas transportadas na nossa Matriz de Transportes é urgente! O sistema ferroviário e aquaviário são muito mais interessantes quando consideramos o maior volume de carga transportada, o gasto de combustível reduzido e, por consequência, o menor nível de poluição emitido pelo consumo de combustível. A título de comparação, a China atualmente transporta cerca de 50% de suas mercadorias pelo sistema aquaviário, enquanto os Estados Unidos, por sua vez, transporta cerca de 30% das suas mercadorias pelo sistema ferroviário.

>> Lista de Exercícios sobre Transportes e Resolução 

É importante ressaltar que, embora o Brasil possua predomínio de planaltos em seu relevo, dificultando a exploração do transporte ferroviário e aquaviário, é possível utilizarmos esses setores de maneira mais incisiva. O país é o maior do mundo em concentração de água doce, com a maior densidade de rede hidrográfica, apresentando cerca de 27.420 quilômetros de trechos navegáveis que poderiam ser explorados, segunda a ANTAQ (Agência Nacional de Transportes Aquáticos). Não esquecendo que nossa costa possui mais de 9.000 quilômetros de extensão e permite a ligação, via transporte de cabotagem, das Regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul.

A realização de obras de integração entre ferroviarismo, rodoviarismo e aquaviarismo, formando o chamado Sistema Intermodal, em que se aproveita cada sistema de transporte de acordo com as condições locais, seria de extrema importância para amenizarmos a dependência do sistema rodoviário e contribuiria, diretamente, para a exploração dos recursos em sua capacidade máxima, atuando diretamente na evolução econômica do país.

Sendo assim, da mesma forma que nosso desequilíbrio na Matriz de Transportes foi construído historicamente, o país precisa inverter a lógica de utilização dos sistemas de transportes, que também ocorrerá em um tempo histórico, considerando os grandes desafios que a situação apresenta. Somente com interesse político real e investimentos no setor a médio e longo prazos, o país terá possibilidades verdadeiras de crescimento e desenvolvimento econômico compatíveis com a sua grandeza.

Camila Ferreira é professora de Geografia do Determinante Pré-Vestibular. 

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