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Estado de Minas

Educadores mineiros visitam China para conhecer maior "Enem" do mundo

Profissionais integram delegação em visita ao gigante asiático, para conhecer fórmula que levou alunos ao topo de um dos mais respeitados rankings educacionais do planeta. No país que promove hoje o maior 'Enem' do mundo, descobriram escolas parecidas com as brasileiras, esforço para evoluir ainda mais e práticas que podem transformar o ensino nacional


postado em 09/06/2013 00:12 / atualizado em 09/06/2013 08:07

Lucas Ávila
Especial para o EM


(foto: Lucas Avila/Esp. EM)
(foto: Lucas Avila/Esp. EM)
 

Pequim e Xangai – O estudante Quan Xi Bin, de 18 anos, enfrenta neste fim de semana o que na China é conhecido popularmente como “dias escuros” pelos que sonham com uma vaga no ensino superior. O exame nacional para ingresso nas universidades públicas do país, conhecido por Gao Kao, similiar ao Enem brasileiro, é considerado o maior e mais concorrido do mundo. Só no ano passado, quase 10 milhões de candidatos fizeram o teste, realizado em todas as províncias chinesas. Quanto maior a nota no exame, mais chances o estudante tem de escolher a universidade em que quer estudar. Assim como qualquer jovem brasileiro, Bin tem muitos sonhos: quer ser médico, se casar, ter filhos e conhecer o mundo. A diferença é que a vida social do rapaz está longe de começar. Como quase todo chinês de sua idade, Bin estuda 16 horas por dia, não sai com os amigos e não namora. “Estou vivendo um período de dedicação total aos estudos. Não tenho tempo para mais nada”, comenta. Foi essa mistura de disciplina dos alunos, dedicação dos professores e valorização da escola que ajudou a colocar o sistema educacional chinês no posto de melhor do mundo. Foi também ela que atraiu 10 educadores mineiros integrantes de uma delegação brasileira que visitou o gigante asiático em busca de lições que possam ser aplicadas nas escolas do Brasil.

Durante todo o mês de maio, representantes de escolas particulares de Minas acompanharam um grupo de 90 educadores brasileiros que percorreram várias escolas das cidades de Pequim e Xangai para entender como um país que há 50 anos tinha mais da metade da população analfabeta conquistou, representado por Xangai, o primeiro lugar no Pisa (sigla em inglês para Programa Internacional de Avaliação de Alunos), ranking realizado a cada três anos e um dos mais respeitados indicadores educacionais do mundo. Na mesma avaliação, feita por alunos de 15 anos, o Brasil amargou as últimas posições (veja arte). “A surpresa foi que, em vez de aparelhos tecnológicos que ajudem o aprendizado, salas de aula interativas e dinâmicas, encontramos escolas tradicionais e muito parecidas com as brasileiras”, conta a diretora do Colégio Santa Dorotéia, Zuleica Reis.

Com essa estrutura que abala a crença de que renda familiar e qualidade educacional estão intimamente associadas, a China pretende, até 2020, alcançar os Estados Unidos e Japão nos anos de estudo de sua população e prevê intensa formação em ciência e tecnologia. Tudo com a meta de, em 2050, tornar-se líder mundial em produção industrial. Em um regime político comunista e ainda considerado internacionalmente fechado, o país tem inúmeros desafios pela frente.

DISCIPLINA INFLEXÍVEL Tradicionalmente fortes e conceituadas desde a época dos imperadores, as escolas chinesas são essencialmente públicas, silenciosas e organizadas. Não há grande parafernália tecnológica, a educação é em tempo integral e as aulas duram, em média, 40 minutos com intervalos de 10. Nas salas de aula, o que se vê são alunos concentrados, professores preparados e muita vontade de aprender e ensinar. “A disciplina, quase militar, é reflexo da cultura milenar e é muito diferente da realidade brasileira. A competitividade é muito forte, a disputa entre os alunos é muito evidente”, avalia a diretora das Faculdades Integradas Pitágoras de Montes Claros, Fátima Turano.

De fato, como parte de uma população de 1 bilhão e 300 milhões de habitantes, os chineses aprenderam a se superar na concorrência pelas vagas nas universidades ou nas melhores escolas das províncias. A herança dos tempos de Mao Tsé Tung, líder comunista que esteve à frente do país de 1949 a 1976, ainda é vista nos lenços vermelhos que as crianças usam no uniforme ou nas bandeiras chinesas que estampam praticamente todas as salas de aula. Assim como no Brasil, o ensino obrigatório na China é de nove anos e corresponde a todo o ensino fundamental. Mas, nos próximos dois anos, o governo pretende ampliar esse tempo para 11 anos.

Na educação básica da China, o estudante conta com um currículo enxuto, com apenas matemática, chinês, geografia, física, química e inglês como disciplinas obrigatórias. O restante, que ocupa as manhãs e tardes de milhões de alunos, são disciplinas optativas, escolhidas de acordo com o gosto pessoal e vocação de cada estudante desde o ensino fundamental. Bem diferente da realidade brasileira, como constatou a diretora do Instituto Tarcisio Bisinotto, Renata Macedo, que também participou da viagem: “As escolas brasileiras têm o currículo definido pelo MEC e as matérias diversificadas ocupam pouco espaço. Entendo que, quanto mais cedo o aluno fizer escolhas, melhor para sua autonomia, responsabilidade e motivação”.


(foto: Lucas Avila/Esp. EM)
(foto: Lucas Avila/Esp. EM)


Rigidez e eficiência

A disciplina e a fixação por fórmulas e decorebas fizeram da China uma máquina de cumprir metas e acumular prêmios educacionais. No entanto, o país que descobriu a pólvora, o papel e a prensa tipográfica quase não inova. O país se tornou uma grande fábrica de produtos baratos e falsificados, que podem ser conferidos não só nas esquinas de Pequim, mas em qualquer mercado invadido pelos produtos chineses. O isolamento de décadas tornou a população altamente obediente, conservadora, pouco criativa e ambiciosa.

Agora, os velhos líderes do Partido Comunista buscam formas para recuperar o tempo perdido. Eles sabem que a China não será uma verdadeira potência se continuar produzindo apenas eletrônicos supérfluos e roupas baratas. “Um dos desafios para os próximos anos é reduzir uma das características mais tradicionais da educação chinesa: o excesso de deveres de casa, que acabaram por atrapalhar a criatividade de nossas crianças”, afirma o diretor da Educação Básica do Ministério da Educação, Chen Dongsheng.

Para mudar a realidade moldada em anos de linha-dura, o governo lançou programas de incentivo à inovação e hoje premia os que mais se destacam nesse quesito. A impressão é de que as escolas estão entendendo o recado. Hoje, ao visitar qualquer instituição de educação básica chinesa, o que mais se ouve falar é em disciplinas e atividades que estimulam a criatividade. Um diferencial que chamou a atenção da coordenadora pedagógica do Instituto da Criança, Margarida Figuerêdo: “Na China, o investimento das escolas em música, artes e nos talentos individuais é enorme. Aqui no Brasil, infelizmente, o fator limitante é a carga horária pequena e o vasto currículo obrigatório”.

Incentivo ara inovar

Na Fu Way nº1 Primary School, uma das escolas públicas mais antigas de Pequim, é visível o investimento em educação artística e científica. Os 907 alunos têm aula de robótica e obrigatoriamente participam de algum grupo artístico ou musical. “Temos um grupo de dança, canto e instrumentos de que participam 400 alunos”, conta a diretora Liu Kai. E, sendo uma prática recente na educação chinesa, os pais também são estimulados a participar. “Eles acompanham e agora entendem a importância da arte no desenvolvimento mental dos estudantes”, explica Kai.

Já a High School Atta Ched, de ensino médio e com 2 mil alunos, tem turmas inteiras voltadas para a prática da inovação. No ano passado, o colégio recebeu medalha de ouro na competição Inovação Científica para Estudantes, realizada todos os anos pelo governo. Além das disciplinas exigidas por lei, os estudantes podem escolher, anualmente, entre 70 disciplinas optativas, que vão de artes marciais e pintura a marcenaria ou esgrima. “Pelo menos um dia da semana os alunos têm que se dedicar a alguma disciplina que envolva esportes ou artes”, conta a diretora Shen Jie.

Em Xangai, esse estímulo começa antes mesmo da alfabetização. As salas amplas, coloridas e cheias de elementos lúdicos têm o propósito de estimular as crianças a criar. Song Qing, diretora da Escola Hechuachi Kindergarden, que atende alunos de até 6 anos, explica que a preocupação com crianças dessa idade não é prepará-las para a alfabetização nem ensiná-las o básico do inglês. “Aqui, nosso foco é em desenho, pintura e dança”, diz.

Só um filho, mas muita cobranças

Com a política do filho único, implantada na China no fim da década de 1970, os “pequenos imperadores”, como são conhecidos, são constantemente incentivados e cobrados pelos pais a serem destaque na escola. Isso porque, em muitos casos, é deles que virá a melhoria das condições econômicas da família. Mimados por alguns e cobrados em excesso por outros, os mais de 80 milhões de filhos únicos chineses se tornaram um grande desafio para as escolas. A concorrência pela melhor nota, classificação nas olimpíadas de conhecimento e a disciplina em excesso fazem parte da rotina de qualquer instituição de ensino do país e indicam as primeiras diferenças entre os alunos chineses e brasileiros.

O carioca Sen Huang, de 28 anos, foi para a China aos 14. Com experiência educacional nos dois países, ele conta que a principal diferença está relacionada à importância dos estudos na vida das crianças. “No Brasil, os alunos veem a escola como uma obrigação. Depois das aulas, eles brincam, jogam bola, fazem outras atividades. Na China, depois das aulas os alunos estudam ainda mais”, explica.

(foto: Lucas Avila/Esp. EM)
(foto: Lucas Avila/Esp. EM)
Com uma população infinitamente maior que a brasileira, qualquer conquista para os chineses é mais custosa. A quantidade de alunos sedentos por vagas nas melhores instituições públicas e nas universidades implica que desde cedo eles sejam estimulados a estudar e a competir. “Se no Brasil o estudante mais popular da classe é o mais forte, o que namora mais ou o que faz mais bagunça, na China o estudante mais admirado é o que mais se destaca nos estudos”, conta Huang.

No país onde a repetência é proibida por lei, os alunos passam cerca de sete horas diárias dentro da escola. Se vão mal, têm aulas de reforço. Em caso de indisciplina, algo raro na China, podem ser enviados para o Exército. Durante a vida escolar, todos os chineses passam por dois grandes exames que são definitivos para o sucesso ou fracasso da vida profissional. O primeiro, chamado de Jun Kao, é aplicado a alunos que concluem o correspondente ao nosso ensino fundamental. O resultado é o que define a instituição de ensino médio em que o aluno vai estudar. O segundo, o Gao Kao, é o que dá acesso às mil universidades chinesas e representa o grande pesadelo de todos os alunos do ensino médio. Um dos benefícios é o mesmo que o governo brasileiro espera com o Enem: a mobilidade entre os estudantes universitários de diferentes províncias.

Gao Kaos, o Enem chinês


Se no Brasil a nota do Enem é usada como forma de ingresso em cursos superiores de universidades públicas, na China a única forma de ingressar nas universidades é através do Gao Kao, exame nacional que termina hoje em todas as províncias. Com mais que o dobro da idade do Enem, o teste foi criado em 1977 pelo secretário-geral Deng Xiaoping, que assumiu o poder na China após a morte de Mao Tsé Tung. O Enem brasileiro teve neste ano 7,1 milhões de inscritos. Parece muito, mas nas últimas três edições, o Gao Kao teve média de 10 milhões de alunos, o que faz do exame o maior e mais concorrido do mundo. No regime que ainda é considerado fechado e que detém controle da imprensa, pouco se fala sobre fraudes no exame. O governo apenas diz que as irregularidades com alunos e com questões diminuem a cada ano e que tem investido em tecnologia para evitar que uma pessoa responda pela outra nos testes. O aluno pego colando pode ficar até três anos sem o direito de fazer a prova. Já os professores responsáveis pelas questões podem ficar detidos até sete anos em caso de vazamento.

...Igualar cidade e campo é desafio

O ensino médio chinês é opcional, como no Brasil, mas 85% dos jovens estão matriculados, contra pouco mais de 52% dos alunos brasileiros entre 15 e 17 anos, segundo o IBGE. No total, o gigante asiático conta com aproximadamente 500 mil escolas e cerca de 250 milhões de estudantes. Segundo Chen Dongsheng, diretor da Educação Básica do Ministério da Educação da China, nos últimos anos o país possibilitou o ingresso de 140 milhões de crianças no ensino, mas a discrepância da qualidade ainda é grande entre cidade e campo. “A urbanização e melhorias da qualidade de vida da população chinesa ainda não chegaram a muitos lugares do país. Qualquer cidade chinesa é populosa e qualquer problema é grande”, explica. Para os próximos 10 anos, a meta do governo é aumentar a oferta de educação na pré-escola, que vai até os 6 anos.

Lições de mérito e competitividade

O culto à meritocracia, ou seja, a valorização pelo merecimento, pode ser observado já na entrada das escolas chinesas. Lá, troféus de alunos e professores premiados em concursos promovidos pelo governo estão à mostra, para provar o bom desempenho da instituição. Quanto maior o número de premiações e melhor lugar nos rankings de avaliação, mais investimento a escola recebe e mais concorrida ela é. Professores com melhor desempenho também recebem maior salário.

A professora Yan Hui, que dá aula de inglês na Shangai Luwan nº 2, tradicional escola pública de Xangai, conta que a preparação para a docência já começa no segundo ano da universidade. Visitas periódicas a escolas e um estágio obrigatório fazem parte do percurso de quem quer ser professor. Já na escola, reuniões regulares entre os professores da escola, do bairro e da província servem para melhorar a prática. O objetivo não é criar concorrência, mas garantir a qualidade da educação. “Aqueles que são mal avaliados recebem treinamento intensivo e ajuda dos colegas. Os professores das escolas públicas da cidade se encontram quatro vezes no semestre em grupos de estudo que compartilham experiências e apresentam desafios e metas educacionais”, diz.

Mesmo não recebendo altos salários, o professor chinês é respeitado e valorizado pela sociedade. Antes de começar cada aula, os alunos se levantam e cumprimentam, em um coro, o mestre que acaba de chegar. Só após o aval do professor eles se sentam e a aula começa. Os pais também têm uma relação de muita confiança e proximidade com eles. “Os alunos são participativos e têm uma relação de muito respeito e afeto com os professores. Já os pais confiam muito na escola e esperam que os professores ensinem aquilo que não se aprende em casa”, relata a diretora do Colégio Padrão de Montes Claros, Rosina Turano.

Ao percorrer escolas chinesas, a sensação é de que ali só trabalha quem realmente ama o que faz. Quando perguntada sobre a ocorrência de greves do país, Hui demonstra não compreender de que se trata. Por mais que ainda exista um forte controle do Estado comunista sobre as relações de trabalho e a liberdade de expressão, a disciplina dos professores chineses demonstra que o desempenho de seus alunos é prioridade. “Nunca faltei ao meu trabalho e não conheço nenhum funcionário da escola que tenha se ausentado”, afirma.


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