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Estado de Minas

Nosso lar - Serenidade em excesso

Espectador tem a impressão exata de que todos os elementos concordam entre si no filme


postado em 16/09/2010 13:55 / atualizado em 01/09/2011 13:02

Ana Rodrigues e Daniel Chiacos
 

O Brasil é o país com maior população espírita no mundo. Com essa estatística, é difícil entender porque a produção cinematográfica nacional demorou tanto tempo a assumir o espiritismo como tema. Agora, parece que estão tirando o atraso. Depois de Bezerra de Menezes e Chico Xavier, chega às salas de cinema Nosso Lar, consolidando o que, para o cinema brasileiro, quase pode ser considerado um gênero com características próprias – a narrativa edificante, o otimismo na percepção do ser humano, a moralidade ostensiva. Infelizmente, boas intenções não significam necessariamente boa arte. E por causa disso, Nosso Lar tem boas chances de interessar apenas aqueles que comungam de sua doutrina ou se deixaram empolgar pelo livro em que se inspira (escrito, para os céticos, psicografado, para os crentes, por Chico Xavier). Ao contrário do que ocorreu, por exemplo, com o próprio Chico Xavier, um dos sucessos recentes do cinema brasileiro.

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O filme dirigido por Wagner de Assis não é capaz de superar um obstáculo que se colocaria diante de qualquer artista que tentasse filmar Nosso Lar: a transposição do conflito metafísico que está no centro do livro (a aceitação da vida como algo mais amplo que nosso conceito cotidiano dela) para um conflito dramático capaz de prender nossa atenção por duas horas de narrativa. O espectador encontra simulacros de conflitos: a tensão no “umbral”, as dificuldades de André Luiz (Renato Prieto) em aceitar as verdades de Nosso Lar, e por aí vai. Mas são apenas simulacros – em cada situação, o espectador tem a nítida impressão de que já sabe como ela vai se encerrar, como se todos os elementos do filme concordassem uns com os outros o tempo todo. Não importa o quanto as personagens falam (e é muito), não há diálogos reais em Nosso Lar, antagonismo de ideias, núcleo de qualquer narrativa dramática.

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Esse excesso de serenidade tem consequências até mesmo para o conceito visual de Nosso Lar. A cenografia do filme é um dos mais rebuscados trabalhos do gênero no Brasil. Inspirado no que seriam as representações da médium Heigorina Cunha para a cidade descrita no livro de Chico Xavier, o filme se esmera em apresentar seu correspondente fílmico. O resultado, contudo, é tão certinho que se torna asséptico – Nosso Lar, no filme, é uma cidade que peca pela frieza – acusação que não lhe pode ser feita no livro. É tudo tão certinho, bonitinho, racionalzinho que fica monótono – como os rostos lindinhos, as roupas arrumadinhas, as expressões alegrinhas o tempo todo.

Justiça seja feita, se não chega a ser bom cinema, Nosso Lar realiza sua proposta pedagógica. A força da mensagem de Chico Xavier supera até mesmo o academicismo do filme. O espectador sairá do cinema refletindo não apenas sobre questões intrínsecas ao espiritismo (como a reencarnação), mas também sobre outras inerentes a qualquer sistema moral estável – autoconhecimento, generosidade, solidariedade. Desta reflexão surgirão os poucos momentos realmente emocionantes da película – aqueles em que Nosso Lar consegue representar, de maneira simples mas convincente, certos arquétipos da existência humana, genéricos como perda e perdão, específicos como relação entre mãe e filho. Nestes momentos, mesmo se não explora completamente as possibilidades que o livro oferecia, o filme pelo menos não as desperdiça.

NOSSO LAR -

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