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Estado de Minas

Primo de Bruno fica fora do tribunal

Promotor diz que testemunha-chave não vai ao júri de acusados da morte de Eliza Samudio e denuncia manobra para desmembrar ou adiar julgamento. Defesa alega que vítima está viva


postado em 10/11/2012 06:00 / atualizado em 10/11/2012 07:11

"J. L. está sendo ameaçado. Não é por Eliza, porque ela está morta, nem por Bruno Samudio, que é apenas uma criança. Ele está sendo intimidado por um dos réus" - Henry Wagner Vasconcelos Castro, promotor de Justiça (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)

A nove dias do início do julgamento do goleiro Bruno Fernandes de Souza e de outros quatro acusados do sequestro e morte de Eliza Samudio, fatos importantes mudam as circunstâncias e os rumos do júri popular. Peça fundamental nas investigações da Polícia Civil sobre o desaparecimento da ex-namorada do atleta, J. L. L. R., de 19 anos, primo do goleiro e menor na época do crime, não vai comparecer às sessões no Fórum de Contagem, na Grande BH. O rapaz foi arrolado como testemunha tanto pela defesa quanto pelo Ministério Público. Além da ausência de uma das peças-chave, os advogados de Bruno já sinalizam mudança nas argumentações. Se antes Rui Pimenta Caldas e Francisco Simim admitiam o crime, agora alegam que a vítima está viva e mora em algum país do Leste europeu ou da América Latina.

Especialistas levantam também uma suposta manobra dos advogados dos outros réus, que formam um blocão, para destituir os defensores do goleiro Bruno no primeiro dia do júri, que começa no dia 19. Ércio Quaresma e seus colegas sempre defenderam a linha de que se não há corpo não existe crime. As informações sobre as estratégias da defesa e de que J. L. L. R. não estará no julgamento foram confirmadas na manhã de ontem pelo promotor Henry Wagner Vasconcelos de Castro, da 14ª Promotoria de Justiça da Comarca de Contagem. Ele atuou na acusação contra Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, absolvido pela morte do ex-carcereiro Rogério Martins Novelo, em janeiro de 2000.

Segundo o promotor, o jovem J.L., incluído em setembro no Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte (PPCaam), por meio de parceria entre a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República e a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social, manifestou o desejo de não ser ouvido no julgamento. O documento com a decisão do rapaz foi recebido anteontem pela Promotoria de Justiça. “J. L. está sendo ameaçado. Não é por Eliza, porque ela está morta, e nem por Bruno Samudio, que é apenas uma criança. Ele está sendo intimidado por um dos réus. Está apavorado. O medo dele é o mesmo que o fez urinar na roupa quando esteve com a Polícia Civil na casa de Bola, local em a jovem foi assassinada", disse Henry de Castro.

O promotor informou que os trabalhos da acusação perdem um pouco de força sem o depoimento da principal testemunha, pelo menos na primeira fase do julgamento. Mas afirma que o campo probatório está completo. Nos 50 volumes com mais de 12 mil páginas, há documentos, vídeos, análises periciais, rastreamentos das ligações de celulares dos réus e depoimentos das testemunhas, incluindo os de J. L. e de Sérgio Rosa Sales, primo de Bruno, outra testemunha chave do caso, mas quem em setembro foi assassinato no Bairro Minaslândia, Região Norte de BH. As investigações da Polícia Civil apontaram que o jovem morreu em crime com motivação passional.

Segundo ele, no processo estão as provas do dia do sequestro de Eliza em 4 de junho de 2010, no Rio de Janeiro, de onde foi trazidam para Minas na Land Rover de Bruno e mantida em cárcere privado num motel de Contagem e depois no sítio do jogador, em Esmeraldas, até a data da morte, no dia 10, na casa de Bola, em Vespasiano. Foram detectadas ao todo nove ligações entre Macarrão e Bola. A primeira, antes do sequestro e as demais no curso da trama, sendo a última em 20 de junho, quando Bruninho foi encontrado pela polícia em uma casa do Bairro Liberdade, em Ribeirão das Neves, já sem a mãe.

Advogado diz que Eliza está no Leste Europeu

Um dos advogados de Bruno, Francisco de Assis Simim afirmou ter recebido há um mês uma carta de Luiz Henrique Timóteo, ex-marido da mãe do goleiro Bruno, com quem teve dois filhos. O homem está preso em Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, por envolvimento com o tráfico de drogas. No documento, Timóteo afirmou ter sido procurado por Eliza Samudio em 18 de outubro de 2010 e que a jovem lhe pediu que arrumasse um passaporte falso para sair do país. “Estive na cidade conversando com o preso e ele afirmou ter orientado Eliza a passar pela Bolívia para evitar ser presa pela Polícia Federal”, disse Simim.

Em relação à mudança nas argumentações sobre o desaparecimento de Eliza, Simim contradisse o colega Rui Pimenta, explicando que jamais afirmou que o crime existiu e que o culpado foi Luiz Henrique Romão, o Macarrão, motivado por ciúmes, pelo amor que nutria por Bruno.

O promotor Henry Castro disse ontem que as afirmações de que Eliza estaria viva e com o nome de Olívia Guimarães Lima mais se assemelham a um estelionato contra a sociedade. “Olívia só ser for de Olívia Palito. Olívia Palito de Ossos, porque Eliza Samudio, enfatizo, está morta. A Promotoria de Justiça atuará no plenário do Tribunal de Júri em busca da condenação desses sequestradores e assassinos.”

Em entrevista, Henry Vasconcelos apontou ainda uma estratégia do bloco de advogados dos outros réus que poderá levar ao desmembramento do julgamento do ex-atleta, atrasar o primeiro dia de sessão ou mesmo adiar o júri. Segundo ele, um dos advogados afirmou que basta um piscar de olhos, assim que Bruno comparecer ao plenário, para que os advogados do jogador sejam destituídos. Nessa hipótese, o réu ficaria sem defesa, o que impediria a continuidade da audiência. Francisco Simim e Rui Pimenta disseram que será necessário aguardar até o dia do júri para ver o que vai ocorrer.

À noite, Rui Pimenta se disse surpreendido com a informação de que o primo do goleiro não está mais na lista das testemunhas. “Ele é peça-chave. Vou entrar com recurso para que ele preste depoimento. A investigação contra meu cliente partiu do depoimento dele quando adolescente, que contou uma história fantasiosa”, afirmou.
 

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