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Estado de Minas

Luiz Gonzaga: "Mulherengo com simpatia de sobra"


postado em 09/12/2012 06:00 / atualizado em 14/12/2012 10:55

Só agora, aos 83 anos, a memória de Romeu Rainho parece estar começando a falhar, mas sua capacidade de relembrar pessoas, episódios e slogans de patrocinadores ainda impressiona. Esse mineiro de Juiz de Fora - com "espírito de 18 anos", como gosta de ressaltar - acompanhou diariamente Luiz Gonzaga como seu empresário durante quase uma década, entre os anos 1950 e 1960. Dono de voz ainda hoje muito bonita, fez carreira no rádio e foi numa emissora que conheceu o Rei do Baião.

"O porteiro da Rádio Barbacena, onde eu trabalhava, anunciou um homem me procurando. Era o Luiz Gonzaga e ele disse que minha voz era boa. O auditório da rádio começou a ficar cheio de gente achando que ele iria cantar. Perguntamos quanto ele cobrava para se apresentar e ele disse que não cobrava nada. No ar, ele disse que iria para a praça tocar e que o ingresso era uma caixa vazia de colírio Moura Brasil", lembra Romeu, que hoje mora em Além Paraíba (MG), na divisa com o Rio de Janeiro.

O ano era 1952 e o laboratório patrocinava a carreira de Luiz Gonzaga, possibilitando que ele se apresentasse cada dia numa cidade diferente. A jogada comercial do sanfoneiro funcionou tão bem que, conta-se, até hoje há quem tenha frascos de colírio intactos em casa. Se Romeu teve problema ou ficou chateado por causa disso, não conta, mas fato é que, na mesma noite, foi convidado para empresariar o sanfoneiro. No dia seguinte, já estavam em Conselheiro Lafaiete para o próximo show: foram 500 Brasil afora, impulsionados por essa e outras marcas, como Martini Bianco, Urodonal e Laboratórios Raul Leite.

"Luiz Gonzaga precisava de um empresário que não o roubasse. Passou muito dinheiro dele pela minha mão. Não fraquejo. Meu cargo era de confiança e ele confiava em mim. Nunca brigamos. Aceitei a proposta para ganhar 10 vezes mais do que na rádio. Melhorei muito de vida nessa época", lembra. Segundo Romeu, a frequência de apresentações, diárias no auge, diminuiu muito com o surgimento da bossa nova, - que entrou esmagando tudo. Foi quando deixou de empresariá-lo. "Ele já tinha muito dinheiro e não se preocupou tanto", revela.



Abraço

"Ele foi um grande ser humano, verdadeiro cristão. Sabia como lidar com os menos afortunados. Gostava de ajudar e comprava alimentos para os outros. Para ele, todo mundo era igual. Depois que eu pagava o hotel, ele gostava de ir abraçar as cozinheiras. A simplicidade dele o ajudava muito. Cantava com o coração e era muito sentimental e intuitivo", resume o ex-empresário.

"Ele era só um pouco mulherengo, mas na medida certa. Podia escolher com quem queria se deitar. Que mulher não ia querer se deitar com o Rei do Baião? Com que outro rei elas poderiam se deitar?", questiona Romeu. "Ele ganhava muitos presentes, principalmente coisas de comer, como manteiga de garrafa. Garrafa de cachaça também, que ele não recusava, mas não bebia. Não era homem de comer muita carne, nem de beber muito", completa.

Com dinheiro e simpatia sobrando, eram muitos os que queriam ser amigos do Rei do Baião, diz, mas poucos realmente tiveram essa sorte. Entre eles, o ex-presidente Eurico Gaspar Dutra, o ex-ministro da Justiça Armando Falcão e o médico Zé Dantas. Com este último, o sanfoneiro escreveu muitas canções, entre elas O xote das meninas, que nasceu diante dos olhos do ex-empresário. "Luiz Gonzaga quis ir à fazenda do Zé Dantas, em Pernambuco, para ouvir a conversa dele e entender por que as meninas novas já estavam querendo namorar. As músicas que Gonzaga fazia saíam sempre de improviso", conta.

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