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Estado de Minas

"Fui em cana porque toquei bem demais", disse o Rei do Baião


postado em 09/12/2012 06:00 / atualizado em 14/12/2012 10:50

(foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press)
(foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press)

Luiz Gonzaga era tão musical que conseguia fazer floreios num instrumento com apenas cinco notas, a corneta. Por ter feito isso durante o tempo em que serviu o Exército, contrariando a rigidez do ambiente militar, foi repreendido em Juiz de Fora. Detalhe: o corneteiro, desde aquela época, tem papel muito importante no batalhão, o de transmitir à tropa as ordens do comando, o que significa interpretar com fidelidade cerca de 400 toques, cada um com um significado diferente.

Ele foi preso, mas não sem certo orgulho, como lembra no depoimento dado à Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage, em Juiz de Fora, em 1980: "Eu estava fazendo da corneta pistom. Fui em cana porque toquei bem demais. A disciplina me apanhou e tive de executar o toque do silêncio certo, porque diziam que era tão bonito do jeito que eu tocava que os namorados ficavam lá por perto para ir para casa só depois de tocá-lo. Já sabiam até o dia em que eu estava de serviço para tocar. Eu recebia pedidos deles".

Se o corneteiro erra o toque, o prejuízo para a tropa é grande e pode haver constrangimento. Quem explica é o subtenente Pasur Cavalcanti Tenório, do 10º Batalhão de Infantaria, em Juiz de Fora, onde serviu Luiz Gonzaga - coincidentemente ele também é pernambucano. "O corneteiro é a voz do comandante", resume ele.
Atualmente, o batalhão tem cerca de 700 integrantes e três corneteiros: o que acompanha o comandante fica sempre atrás e à esquerda dele, traduzindo em notas suas ordens. "Todo dia tenho de ter um corneteiro. Hoje isso é mais simbólico, mas ainda tem viés prático, pois sem ele eu não conseguiria transmitir ordens à tropa", justifica o tenente-coronel Daniel Pechin Tavares, do mesmo batalhão.

Embocadura

Apesar de precisar memorizar muitos toques, nem sempre o corneteiro sabe ler partitura, o que não significa que o instrumento não tenha suas particularidades. "As notas variam de acordo com a pressão do sopro e a embocadura. Se você variar um pouquinho, não sai o mesmo som", conta Wilson Eber dos Santos, de 21 anos, corneteiro do batalhão juiz-forano desde 2010.

Para manter a desenvoltura no instrumento, ele estuda cerca de três horas dia sim, dia não. Ele executa toques para a tropa 10 vezes por dia, sendo que, para soprar os toques de maneira perfeita, basta ensaiá-los de véspera. "O trompete é mais difícil de tocar, pois tem três oitavas e a corneta só cinco notas. Para quem nunca pegou num instrumento de sopro e não sabe música, é muito difícil", diz. Ser bom de ouvido é obrigatório.

Pulmão Marcos Antônio da Silva, 53, é subtenente da reserva remunerada e chegou a tentar ser corneteiro no batalhão de Juiz de Fora. "Desisti. Comecei a ter dor de garganta e meus lábios rachavam constantemente. Ir para as armas foi mais fácil para mim. Muitos corneteiros terminam a vida com problemas pulmonares ou nas cordas vocais", conta ele. Seu pai, Marcos Cardoso da Silva, de 103 anos, não chegou a se aventurar no instrumento, mas conviveu com Luiz Gonzaga nesse batalhão, onde serviu de 1934 a 1941. "Ele tocava muito bem, era um artista. Uma pessoa boa", lembra o veterano, com um sorriso largo no rosto.

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