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Estado de Minas

Após dois meses de confinamento, Wuhan tenta virar a página

Cidade onde o novo coronavírus surgiu começa a voltar aos poucos à sua rotina, mas ainda com algumas restrições


postado em 29/03/2020 04:00 / atualizado em 28/03/2020 22:11

 

Os que desejam entrar em Wuhan são cuidadosamente examinados, com direito a medição de temperatura
Os que desejam entrar em Wuhan são cuidadosamente examinados, com direito a medição de temperatura


Wuhan (China) – A cidade chinesa de Wuhan, origem do novo coronavírus, se abria progressivamente ao mundo ontem, após dois meses de isolamento quase total, mas as pessoas que chegam à localidade são cuidadosamente examinadas por funcionários que usam trajes de proteção integral. De maneira simbólica, o primeiro trem de passageiros autorizados desde o início do confinamento chegou pouco depois da meia-noite à estação de Wuhan. A imagem foi exibida em toda a imprensa local.

A bordo estavam dezenas de habitantes da cidade que ficaram bloqueados em outras regiões desde o fim de janeiro, quando as autoridades decretaram uma quarentena para frenar a epidemia. "Minha filha e eu ficamos emocionadas quando o trem se aproximou de Wuhan", disse uma mulher de 36 anos, que preferiu não revelar o nome. Devido ao confinamento, ela não via o marido havia 10 semanas. Uma eternidade para sua filha. "Ao vê-lo, ela correu para o pai e eu não consegui evitar o choro", afirmou.

Até ontem, ninguém estava autorizado a entrar na cidade, com exceção de profissionais da saúde e trabalhadores responsáveis pelo transporte de produtos de primeira necessidade. Mas desde quarta-feira as autoridades estão retirando progressivamente as restrições. O metrô de Wuhan voltou a operar ontem e os ônibus estão novamente nas ruas, mas alguns centros comerciais continuam fechados. E os moradores ainda usam máscaras e evitam os locais com muitas pessoas.

A reabertura é paulatina e parcial. Os habitantes terão que esperar até 8 de abril para sair de Wuhan, data em que os aeroportos da cidade serão reabertos. E os que desejam entrar na cidade são cuidadosamente examinados: medição de temperatura, controle de identidade e perguntas sobre os deslocamentos anteriores. Também devem apresentar no smartphone um código QR, que serve como salvo-conduto e certifica se as pessoas estão "saudáveis". Todo o processo acontece diante de funcionários que usam máscaras, óculos de proteção e traje integral.

Membros da Unidade de Emergência Militar se preparam para desinfetar um condomínio residencial em Madri, cidade mais afetada da Espanha(foto: Pierre-Philippe Marcou/AFP)
Membros da Unidade de Emergência Militar se preparam para desinfetar um condomínio residencial em Madri, cidade mais afetada da Espanha (foto: Pierre-Philippe Marcou/AFP)

CONTAMINADOS

Apesar dos controles exaustivos, longas filas de passageiros foram registradas para o embarque a Wuhan na estação de Xangai, a 830 quilômetros de distância. "Há mais de dois meses não volto a Wuhan, tenho a impressão de que estou retornando do exterior", comentou Gao Xuesong, que trabalha no setor de automóveis.

Os primeiros casos de coronavírus foram registrados em dezembro em Wuhan. E a cidade paga um preço elevado por esta epidemia, com mais de 50 mil pessoas contaminadas e mais mortos que qualquer outra cidade na China. Um total de 2.538 vítimas fatais, de acordo com o balanço oficial. Ontem, três mortes foram anunciadas pelas autoridades de saúde, mas os trágicos balanços dos primeiros dias da epidemia registraram uma queda espetacular nas últimas semanas.

Na sexta-feira, uma fonte do governo local afirmou que Wuhan é considerada agora uma zona de "baixo risco". A situação contrasta com o cenário do fim de janeiro, quando, em plena epidemia, longas filas de pacientes eram observadas diante dos hospitais saturados. Apesar do retorno progressivo à normalidade, as autoridades de Wuhan recomendam aos cidadãos que evitem deslocamentos desnecessários que poderiam favorecer a propagação do vírus.

Metade do mundo em confinamento


Mais de três bilhões de pessoas em todos os continentes estão confinadas em um mundo abalado e assustado com o avanço de uma pandemia que já provocou mais de 27 mil mortes, com números dramáticos na Espanha e Itália, enquanto a China tenta retomar a vida paulatinamente. De acordo com dados oficiais, o mundo superou 600 mil casos registrados do novo coronavírus. Na Itália, a COVID-19 matou quase mil pessoas em 24 horas, o maior número para apenas um dia no país desde o início da pandemia. O total de óbitos lá alcança 9.134.

Na Espanha, o ministério da Saúde também anunciou números desoladores ontem: 832 óbitos em 24 horas e um balanço total que já supera 5 mil mortos. A partir de segunda-feira a cidade habilitará um segundo necrotério em uma instalação pública que estava abandonada. O governo local já havia instalado um necrotério em uma pista de patinação no gelo em um centro comercial. Além disso, o exército e as autoridades locais criaram um hospital de campanha com capacidade máxima para 5.500 leitos em um centro de convenções da capital espanhola.

O ministério da Saúde espanhol informou que o total de óbitos no país chegou a 5.690, o segundo maior balanço do mundo. Apesar do recorde de vítimas fatais registrado ontem, o percentual de aumento está em queda na Espanha desde quarta-feira, quando atingiu um vertiginoso 27%. O país registrou mais 8.189 contágios confirmados de coronavírus, o que eleva o número de casos oficialmente diagnosticados a 72.248, com um aumento percentual que também mostra uma tendência de baixa.

O número de pessoas curadas também registrou forte alta, como nos últimos dias (31,3% em 24 horas) e agora são 12.285, de acordo com o boletim diário divulgado pelo ministério da Saúde. As regiões mais afetadas são Madri, com 2.757 mortos, quase metade do total, e Catalunha, com 1.070 vítimas fatais. Para prevenir a propagação da doença, a população espanhola completou ontem duas semanas de confinamento, que deve prosseguir no mínimo até 11 de abril.

NOS EUA
Os Estados Unidos viraram o país com o maior número de casos, com mais de 100 mil infectados e 1.693 mortos. A situação levou o presidente Donald Trump a ordenar por decreto que a montadora General Motors passe a fabricar respiradores artificiais, que estão praticamente esgotados nos hospitais e são vitais para os pacientes.

"Estão racionando os equipamentos", afirmou Diana Torres, 33 anos, enfermeira em um hospital de Nova York, principal foco da epidemia nos Estados Unidos. "Temos que colocar um saco plástico sobre a roupa de proteção com a qual trabalhamos para que dure mais tempo", explicou.

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) destacou que "a escassez crônica mundial de equipamentos de proteção individuais" para os trabalhadores da saúde representa uma "ameaça iminente" na luta contra a doença. "Há muito desabastecimento de tudo e precisamos de muito trabalho para conseguir coisas simples como luvas, termômetros, paracetamol ou gel", afirmou Toni Dovale, jogador de futebol espanhol e farmacêutico, que trocou a bola pelo jaleco branco para lutar contra o avanço da pandemia.

DIAS DIFÍCEIS
Na França, o quinto país em número de mortos, o governo prolongou o confinamento por mais duas semanas, até 15 de abril, e avisou que os "próximos dias serão difíceis". Ontem, pacientes do Leste do país, especialmente afetada pelo coronavírus, foram transferidos para a Alemanha em helicópteros militares.

O Reino Unido, onde o primeiro-ministro Boris Johnson anunciou que foi infectado, mas com sintomas leves, superou a barreira de mil mortes por coronavírus, de acordo com os números divulgados ontem, que informou 260 vítimas fatais nas últimas 24 horas. O balanço mostra uma clara aceleração da propagação da doença no país. O Reino Unido registrou um total de 1.019 mortes e diagnosticou 17.089 casos de coronavírus.

A Rússia, último país importante que não havia adotado medidas de confinamento generalizado, decidiu fechar a partir de ontem os restaurantes e a maior parte do comércio, antes de uma semana de recesso. Desta maneira, as autoridades esperam que os russos permaneçam em casa, apesar da ausência de um decreto.

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