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Estado de Minas EMPREGO

Brasil amarga êxodo de profissionais

De milionários a trabalhadores "mortais" e estudantes, muitos brasileiros estão de malas prontas para deixar o país para arriscar uma nova vida no exterior. Há ganhos, obstáculos e uma seleção rigorosa


postado em 05/11/2018 11:07 / atualizado em 05/11/2018 11:53

(foto: Pixabay/Divulgação)
(foto: Pixabay/Divulgação)

Para quem é rico, fica fácil. Mas, com maior ou menor dificuldade, o grande sonho de muitos brasileiros é deixar o Brasil e ir viver em outro país. Seja quem tem carreira profissional consolidada ou para quem pretende buscar outra ocupação, trabalhar na área que a vida oferecer ou mesmo estudar no exterior. Seja qual for a escolha, há riscos agregados, com pontos positivos e negativos. 

Segundo dados da empresa global de pesquisa de mercado New World Wealth, no ano passado cerca de dois mil milionários brasileiros foram viver no exterior. Número que coloca o Brasil no top 10 de países com maior fuga de indivíduos donos de US$ 1 milhão ou mais em ativos, somando 12 mil “emigrantes classe A” desde 2015. O ranking faz parte do Global Wealth Report Review 2018, produzido pela consultoria com o apoio do AfrAsia Bank e com dados referentes ao ano anterior. Sediada em Johanesburgo, na África do Sul, a empresa vem rastreando o movimento da riqueza no mundo desde 2013. A lista é liderada pela China, seguida por Índia, Turquia, Reino Unido, França e Rússia.
 
A saída de brasileiros do país intensificou significativamente a partir de 2014, quando teve início o último ciclo de recessão. Dados da Receita Federal mostram que um total de 69.174 declarações de saída definitiva do país foram entregues de 2014 a 2017. Em 2013, último ano antes do agravamento da crise econômica, foram 9.887 declarações. No caso dos milionários brasileiros, os destinos escolhidos são Portugal, EUA e Espanha.
 
Adriana Prates, mentora de executivos, fundadora e CEO da Dasein Executive Search e conselheira da Association of Executive Search Consultant (AESC), com sede em Nova York, afirma que o êxodo de profissionais dos últimos três anos tem crescido muito rapidamente e essa questão já está fortemente comprovada. “Qual o lado bom? De fato alguns países têm criado certa abertura para jovens adultos, sobretudo, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Irlanda e Rússia. Estados Unidos só aparece quando existem vagas na área de tecnologia, desenvolvimento de aplicativos, automatização, robótica e transformação digital, já que há falta desses profissionais no mundo todo. A questão é que, se eles tiverem uma qualificação acima da dos americanos nessas áreas, após processos seletivos rigorosíssimos poderão ser aceitos. Já Portugal foca nos milionários acima dos 40 anos que conseguem o visto de residência devido comprovação de renda necessária para estar no país consumindo, sem a necessidade de trabalhar.”
 
Em relação aos anos anteriores, Adriana Prates explica que se pode considerar uma “revoada” de mão de obra para fora, mas se apenas considerar os números reais dos que conseguiram de fato, seja por meio de mestrados ou mesmo inserção no mercado de trabalho. “Esse número não é alarmante e de fato não tem afetado a economia, bem menos o mercado de trabalho no momento presente. Com tanto desemprego, muito pelo contrário, está até abrindo espaço para que os que ficam no Brasil tenham maiores chances por aqui.”
 
Dados do Instituto Datafolha revelam que cerca de 70 milhões de brasileiros com 16 anos ou mais deixariam o Brasil se pudessem. Na pesquisa, feita em todo o Brasil, 43% da população adulta manifestou desejo de sair do Brasil. Entre os que têm de 16 a 24 anos, a porcentagem vai a 62%. São 19 milhões de jovens com intenção de deixar o país, o equivalente a toda a população de Minas Gerais, por exemplo. “É preciso demarcar que os jovens, quase 70 milhões, “iriam se pudessem”, enfim isso faz parte dessa utopia de que tudo é muito fácil e emocionante, de que existe um mundo perfeito fora do Brasil. Ocorre que para esses brasileiros serem admitidos nos países mais interessantes precisam dominar a língua estrangeira, passar por testes, análises e avaliações extremamente rigorosas, concorrem com jovens de outros países e só uma minoria consegue. O Brasil é o 10º país apenas por ser também bastante populoso, então dá essa visão de alarde, mas na verdade, não é bem isso que ocorre”, avisa Adriana Prates.
 
Aliás, a ida para Portugal só aumenta, assim com o volume de pedidos de cidadania. Sem falar em vistos para estudantes, empreendedores e aposentados que querem viver na terrinha. A procura é tanta que o Consulado Geral de Portugal em São Paulo e em Santos chegou a suspender os pedidos de nacionalidade portuguesa para brasileiros (iria até janeiro de 2019) por causa da grande demanda, mas o atendimento já está normalizado.

LADO BOM E RUIM A CEO da Dasein Executive Search aponta o que há de bom e ruim para os dois lados nessa revoada de mão de obra: “O bom é que esses jovens, uma vez que conseguem se inserir no mercado de trabalho no exterior, é comum depois de alguns anos eles voltarem trazendo experiências que vão enriquecer o repertorio no Brasil. Outra coisa é que isso serve de alerta para as empresas que tem sede no Brasil que precisam reter esses jovens e passam a criar condições de trabalho e de atração mesmo em tempos de crise.Já a parte ruim, é que muitos acabam voltando arrasados porque chegando lá a “ilusão desse novo” pode se dissipar rapidamente e gerar uma baixa estima nessas pessoas que podem voltar ainda mais desmotivadas do que quando foram.”
 
Adriana Prates, CEO da Dasein, diz que só os mais preparados conseguem ser admitidos no exterior(foto: Dasein/Divulgação)
Adriana Prates, CEO da Dasein, diz que só os mais preparados conseguem ser admitidos no exterior (foto: Dasein/Divulgação)
Para Adriana Prates, outro aspecto é que somente os mais preparados conseguem ser admitidos no exterior, causando certa perda no mercado de trabalho. “Por outro lado ficar aqui com tanta limitação de educação de qualidade e de bons empregos não iria ajudar em nada. É bom lembrar com mais de 13 milhões de desempregados no Brasil, esse “êxodo” não tem afetado nem a economia e nem as contratações que andam bem reduzidas. Acredito que quando o Brasil melhorar e criar boas condições de trabalho, de segurança e de qualidade de vida, terá um retorno desses profissionais que voltarão mais qualificados e contribuíram bastante para a aceleração do crescimento brasileiro.”
 
Mas as pesquisas mostram que não só trabalhadores mortais, mas milionários. Eles também estão abandonando o barco: “Esses milionários de fato para entrarem nos países, principalmente Portugal, e também EUA, têm a vida facilitada por conseguirem o visto de investidor. Sendo pessoas milionárias estão cansadas da violência, das instabilidades, da corrupção e decidem criar um novo capítulo na vida. Todavia são pessoas que já não estavam investindo no Brasil. Conheço alguns que montaram negócios nos EUA e tem usado a mão de obra do Brasil que é mais barata, gerando empregos aqui. Sendo assim não vejo nada de alarmante nisso. É algo natural. Afinal com algumas dezenas de milhões na conta, pode-se viver em qualquer país do mundo. Diminui-se o consumo por aqui, mas esse grupo sempre consumiu muito mais fora do país”, avalia a mentora de executivos.

QUAL A SAÍDA Diante desse cenário, das dificuldades financeiras (trabalhador comum) ou sociais (no caso dos milionários), mudar de país é a melhor saída? Claro, se há condições para isso? “Penso que é sim uma boa alternativa embora o nível de dificuldade para que isso ocorra seja bem alto. No fim das contas é o brasileiro que está aprendendo novas tecnologias e modelos de gestão, sendo muito comum que ele interaja com o Brasil, fazendo essa transferência de know how. Ademais ficar por aqui, sem perspectiva de curto prazo não iria ajudar em nada não é mesmo? A melhor saída é avaliar o motivo real do porquê se pretende sair do Brasil. É violência, corrupção, novos empregos, segurança, saúde, melhorar tudo isso? Ou apenas fuga de encarar a realidade e usar a criatividade para sanar determinados gaps que o Brasil tem apresentado de forma frequente?”.
 
Conforme Adriana Prates, é preciso colocar na balança aspectos como viver longe de casa, da família, dos amigos, enfrentar forte preconceito lá fora. “Além do clima, fuso horário, alimentação e cultura muito diferentes, que por períodos curtos, de um a dois anos, seja de fato muito bom, mas a maioria depois desse tempo só consegue pensar em voltar ao Brasil e espera para que a situação aqui se estabilize um pouco mais.”
 
Com toda experiência, Adriana Prates diz que no seu modo de ver é importante “buscar alternativas para gerar valor, seja para a carreira ou por meio de cursos de melhor nível que o Brasil apresenta. Na minha convivência com as famílias que foram, ou filhos de muitos amigos, o certo é que uma hora, eles voltam, e acabam trazendo para cá as inovações que viram por lá, elevando o nível do Brasil. Algumas vezes, com certeza, teremos perdas de pessoas brilhantes. Mas sou uma otimista. O brasileiro que brilha lá fora acaba fazendo propagando do brasileiro e essas leis sempre dão retorno também para ao Brasil. É preciso sim se movimentar, se preparar melhor. Há muito a se fazer por aqui. O Brasil tem melhorado, sim, mas de forma lenta, enquanto isso, que eles possam aprender bastante lá fora e voltar com novas ideias, novos negócios, encorpando o corpo técnico e o poder do conhecimento para as empresas, amigos e colegas do Brasil.”

ESTUDAR NO EXTERIOR De olho no grupo que sonha estudar fora, estão abertas as inscrições para o Prep Estudar Fora, programa da Fundação Estudar que oferece apoio individualizado e gratuito para que jovens com histórico de excelência acadêmica busquem uma vaga em universidades de ponta fora do país. O programa fará uma seleção, com testes e entrevistas, e escolherá 40 pessoas para receberem mentoria e orientação. Interessados podem se inscrever pelo site https://www.estudarfora.org.br/prep/.
 
A procura por universidades estrangeiras pelos jovens brasileiros só aumenta. Segundo dados do Instituto Internacional de Educação, o número de brasileiros em cursos de graduação nos EUA cresceu 65,8% entre o 2011 e 2016. Além de ser um diferencial de peso no currículo profissional e acadêmico, o estudo em universidades de ponta no exterior pode oferecer maior oportunidade de imersão na área em que o jovem deseja se especializar.
 
Os jovens selecionados pelo Prep Estudar Fora recebem auxílio gratuito de mentoria, orientação sobre o application (que é o envio da candidatura) e ajuda financeira em partes do processo, se for necessário. O programa abrange todas as fases da seleção na universidade estrangeira: prova escrita, testes, entrevistas, redações, análise de experiência extracurricular e outras etapas. O Prep oferece, ainda, apoio para o exame de proficiência em inglês – também exigido pelas universidades –, dicas para incrementar o desempenho nas provas e auxílio na tomada de decisão sobre curso e faculdade mais adequados ao perfil individual do jovem. 
 
O programa da Fundação Estudar já conta com mais de 500 aprovações em universidades de excelência, como Harvard, Stanford, Princeton e MIT, desde 2010. Mais informações: www.estudar.org.br.
 

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