Dilema profissional: trabalhar com o que ama ou no emprego que rende mais? | Emprego
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Estado de Minas PROPÓSITO DE VIDA

Dilema profissional: trabalhar com o que ama ou no emprego que rende mais?

Qual o seu propósito? No dicionário, as definições são muitas: tomada de decisão, aquilo que se pretende alcançar ou realizar, finalidade, fim, mira, resolução definitiva


postado em 26/04/2018 16:39 / atualizado em 26/04/2018 17:16

É preciso colocar na balança se vale a pena abrir mão daquilo que gosta por conta de uma melhor remuneração(foto: Deviart/Reprodução)
É preciso colocar na balança se vale a pena abrir mão daquilo que gosta por conta de uma melhor remuneração (foto: Deviart/Reprodução)
 

No mercado de trabalho, propósito está ligado diretamente ao sentimento de pertencimento, já que o profissional passa mais tempo do seu dia a dia em sua atividade laboral do que cuidando da sua vida particular, pessoal.


Muitos autores dizem que o propósito vem antes da estratégia e que a razão da sua existência é maior do que simplesmente o fator financeiro. Trabalhar com propósito não é simplesmente trocar seu tempo por dinheiro. Para muitos, é quando se tem certeza de que as funções exercidas estão alinhadas com as paixões, com o que defende. É quando compreende que seu talento está a serviço de algo em que você acredita. Para isso, é preciso ter satisfação para ir trabalhar, investir no emprego e, consequentemente, desenvolver a carreira.


Kátia Lobo, coach com certificado de professional coach pela Sociedade Latino-Americana de Coaching (SLAC) e analista comportamental, via metodologia Disc (ferramenta de avaliação), afirma que antes do propósito, a grande questão é que as pessoas “não têm consciência de que os valores pessoais interferem em nossas ações quando não batem com os da empresa. Ao se deparar com essa realidade, a consequência é uma grande angústia, porque nossos valores coordenam as nossas decisões. Daí, o valor pessoal entra em conflito com o valor da organização”.


O profissional que encara o trabalho como algo grandioso, como uma oportunidade de transformar coisas, pessoas e situações, com certeza é alguém com propósito naquilo que faz. Kátia Lobo, que atuou como executiva e gestora de grandes companhias, como Grupo AeC, Telemig Celular (atual Vivo) e Oi, alerta que, antes de tudo, é determinante o propósito de vida. Com ele definido, o profissional vai avaliar se é possível uma negociação particular para encaixar com o perfil da empresa: “Assim, é possível trabalhar com prazer e satisfação”.

FILTRO
Do lado do empregador, Kátia Lobo enfatiza que, às vezes, as organizações têm um valor definido, mas só no papel: “Os funcionários não sabem, não é uma questão discutida. No entanto, a cultura da empresa sempre deveria estar estampada. E tem de ser praticada”.


Para Kátia Lobo, o profissional só tem capacidade de filtrar a empresa em que deseja trabalhar alinhado com seu propósito se tiver consciência de seus valores. Ela reforça que “o valor é hierarquizado e, geralmente, determina a tomada de decisão. Se o primeiro valor for segurança, mesmo contra empresa da área da mineração ou do tabaco, esse profissional aceitará o cargo na organização. Agora, se seu primeiro valor for a preocupação com o meio ambiente, ele recusará, não irá de jeito nenhum”.


Kátia Lobo destaca que o profissional que encara o trabalho como algo grandioso, como uma oportunidade de transformar coisas, pessoas e situações com certeza é alguém que enxerga o mundo diferente e vai buscar organizações que tenham o mesmo interesse.


Antes do trabalho, há o propósito de vida, que, conforme Kátia Lobo, “é aquilo que o faz se levantar todos os dias. O meu, por exemplo, não é ser coach, mas fazer as pessoas enxergarem o que têm de melhor. Quero gerar a transformação na vida delas mostrando o que elas têm de melhor”.


Quanto ao voluntariado, que está no mesmo universo, Kátia Lobo diz que vai de encontro a ser verdadeiro e também é pessoal e um valor. “Acho importante empresas que são multiplicadoras, que têm e proporcionam esse aprendizado ao profissional que desejar. Deixando claro que é para quem dá conta e, se não conseguir, não é um problema. E lembrar que ajudar o vizinho é tão bacana quanto uma organização ou creche.”

 

Carreira com propósito

Marcelo Alves Lopes, farmacêutico, bioquímico e auditor de conformidade da BD Brasil, se candidatou e foi selecionado pela empresa para ser voluntário em países africanos(foto: Arquivo Pessoal)
Marcelo Alves Lopes, farmacêutico, bioquímico e auditor de conformidade da BD Brasil, se candidatou e foi selecionado pela empresa para ser voluntário em países africanos (foto: Arquivo Pessoal)
 

Não é regra. Não ocorre sempre. Nem em todos os lugares. No entanto, empresa que lida com saúde pressupõe um cuidado e um olhar diferente em toda a sua cadeia, ou seja, com a produção, resultado, atenção com os funcionários e também com a sociedade, assumindo o papel de contribuir com quem precisa. Fomentar a visão de responsabilidade social nos colaboradores e agir com essa preocupação administrativamente, sem dúvida, é um diferencial no mercado de trabalho. Hoje, muitos talentos optam ou não por uma vaga de acordo com seus ideais e postura diante do mundo. É o que definem como propósito profissional. Do outro lado, o papel do voluntariado é visto com bons olhos nos processos de seleção (ainda que não tenha caráter eliminatório).


A BD Brasil (Becton Dickinson), empresa especializada em tecnologia médica, tem essa atitude gestora. Entre tantos programas, vale destacar o trabalho voluntariado na comunidade. O farmacêutico e bioquímico industrial Marcelo Alves Lopes, auditor de conformidade da empresa, é reconhecido pela atuação em laboratórios de países da África, atuando no controle de qualidade (programa Labs for life/L4L)). Para ele, seu o propósito profissional foi consolidado no mercado, e não na academia: “Identifico-me com a área de qualidade, em replicar conhecimento e ter a chance de aprender. Entrei como estagiário, fui contratado, e já são 18 anos de empresa, que me influenciou muito ao dar a oportunidade de exercer a responsabilidade social interna e externamente. Acredito que o conceito da responsabilidade social é um valor das pessoas, que vai além da minha função dentro da organização”.


Marcelo Lopes conta que esse olhar é despertado na Associação dos Funcionários, da qual foi presidente por cinco anos, ambiente em que ações ocorrem, não só para os próprios associados, mas o entorno: “Há benefícios para os colaboradores que extrapolam a empresa e chegam às famílias e à sociedade também. Em cadeia, todos ganham e ajudam. Via de três mãos: empresa, associados e sociedade. Pelo perfil e política da empresa em ajudar as pessoas, acredito que agrega em seu quadro colaboradores que tenham essa mesma postura, direcionamento. É natural. Eu não trabalharia em uma empresa de cigarros, por exemplo, vai contra meus princípios”.


O propósito profissional de Marcelo Lopes é sustentado pelo ajudar, compartilhar e aprender. Com sua expertise, ele se candidatou e foi selecionado pela empresa (há um crivo, não é só querer ir) para ser voluntário em países africanos que não têm confiança no resultado do diagnóstico de seus laboratórios. Da área de qualidade, sua missão foi contribuir nessa área. Ele já esteve na Etiópia e em Moçambique.


Vale destacar que o custo é todo da BD Brasil durante o período de trabalho (não é nas férias!): “A BD Brasil disponibiliza recursos humanos para países em desenvolvimento (África, Ásia, Leste Europeu e América Central) e que têm saúde falha. É um programa global de voluntariado. Como nesses lugares não há uma cultura, um sistema de gestão da qualidade, vamos orientá-los. Deparamos com situações incomensuráveis, como luvas descartáveis sendo lavadas para reaproveitamento. Nós os capacitamos transferindo conhecimento. Mas, no fim, asseguro que eu ganho, sendo um multiplicador, influenciando outras pessoas e, na expectativa de ensinar, aprendo mais. É a principal lição nessa interação. Você é forçado a aprender por que o que sabe não vai se aplicar em determinada situação ou realidade”.


Esse aprendizado, destaca Marcelo Lopes, o transforma no dia a dia da empresa: “Torno-me um profissional que faz mais com menos, sinto-me na obrigação de dar resultados melhores para a empresa porque tenho todos os recursos disponíveis”, afirma o auditor.

OBJETIVOS ESTRATÉGICOS
Stella Fornazari, diretora de RH da BD Brasil, afirma que o propósito da empresa é impulsionar o mundo da saúde: “Temos objetivos estratégicos para o desenvolvimento com inclusão e diversidade. Há ações focadas em responsabilidade social com atuação até internacionalmente. A BD tem preocupação em fazer com que as pessoas entendam o sentido de trabalhar para uma companhia que se importa não só com o resultado financeiro, mas também em fazer a diferença na vida das pessoas, o que engloba propósito profissional e de vida”. Conforme ela, uma das metas da empresa é trabalhar o desenvolvimento das pessoas fazendo conexão desse propósito com o fato de fazer história, deixar um legado.
A diretora explica que a organização apoia a comunidade no entorno, desenvolve ações e incentiva os colaboradores a participarem. Mas há programas com pré-requisitos, processo de seleção, já que são ações que mexem com a vida e valores: “Ao liberarmos nossos associados para o voluntariado, acreditamos que melhoramos também o vínculo deles com a empresa. Em pesquisa, de cada 10 colaboradores, noventa por cento sentem orgulho de pertencer à empresa. Esse é nosso maior termômetro. Nosso turnover é bem baixo e muitos que saem retornam, temos boa taxa de recontratação”.


Stella Fornazari reforça que “é parte do nosso objetivo estratégico incentivar a responsabilidade social. Com a participação do nosso associado, percebo no dia a dia dentro da empresa que eles trabalham mais felizes, sentem-se bem e, consequentemente, a produtividade é maior. O funcionário vê sentido em levantar e ir trabalhar. O que faz todo o sentido para a empresa ao ter colaboradores com energia diferente, que reflete no relacionamento, o ambiente é mais agradável e satisfatório e uns se dispõem a ajudar os outros, o trabalho em equipe é mais prazeroso”.


Para não gerar dúvida, Stella Fornazari deixa bem claro que os programas não são mandatórios. No recrutamento, não é pré-requisito, não tem como foco, já que a escolha no processo de seleção é de acordo com a necessidade e melhor qualificação. “No entanto, quando se integram à empresa, se contagiam e querem participar.”

 

Para finalizar, merece destaque outro programa da BD Brasil. O CEO Award – Life Changers tem o propósito de reconhecer os colaboradores que inspiram outras pessoas, dentro e fora da empresa, geralmente com forte atuação social. Há uma premiação desde 2012, com edições anuais, e todas as unidades da BD no mundo participam. Na última edição, a premiação foi de US$ 5 mil para o funcionário e mais US$ 5 mil destinados a uma ONG escolhida pelo vencedor. Para participar, cada colaborador indica outro colega (não valem grupos ou se autoindicar) e aponta as razões de como aquela pessoa tem a capacidade de mudar vidas, tanto pelo trabalho quanto fora do trabalho. 

 

 

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