Jornal Estado de Minas

Enem

De minas para a baixada maranhense

Olá, eu me chamo Juliana e contarei como, depois de 4 anos de cursinho, eu vim parar no interior do maranhão para cursar medicina. Ou seja, a história de quem quer ser médico desde novinho aconteceu comigo! Mesmo não sabendo de onde veio a vontade, tendo em vista que não há outro médico em minha família, desde criança eu falo em ser médica.




 
 
Vindo de uma família de engenheiros, quando cheguei ao ensino médio meus pais queriam que eu cursasse um técnico na área de engenharia e, por isso, comecei um cursinho preparatório para o CEFET e COLTEC. Curiosamente, foi nesse cursinho que me apaixonei ainda mais pela biologia e pelo o corpo humano. Saí deste primeiro cursinho sem prestar as provas para o curso técnico e com a certeza que eu queria fazer medicina.
 
Experiência em cirurgias e acompanhando o serviço de cirurgia geral ao lado da Profa. Dra Laura Dias (foto: Arquivo Pessoal)
 
Mas antes mesmo de iniciar a minha história pela saga de cursinhos, é importante ressaltar que, mesmo não seguindo o caminho das engenharias, o apoio familiar foi crucial durante todas essas fases, tanto economicamente quando emocionalmente. Meus familiares acreditaram em mim e no meu sonho e tornaram viável toda minha trajetória.
 
Após 2 dias de atendimentos nas ilhas, caminhada de 40 minutos pela praia para chegar ao porto %u2013 Visita domiciliares nas ilhas (foto: Arquivo Pessoal)
 
Por questões financeiras, eu sabia que precisaria me graduar em uma universidade pública. Então, desde os meus segundo e terceiro anos do ensino médio, comecei a fazer cursinho preparatório para o ENEM. Nessa época, eu ainda morava em Pedro Leopoldo, região metropolitana de BH. Por isso, nesses dois anos estudei em um cursinho pequeno na própria cidade. Apesar de não ter ainda muita noção do que me esperava nessa saga de tentar medicina, meu coração estava certo da vontade de tentar até conseguir!
 
Quando chegou no enem do terceiro ano o resultado foi um choque, não só não passei como fiquei bem longe das notas de corte. Comecei, então, meu primeiro ano de cursinho na instituição mais famosa de BH da época, e foi um choque de realidade! Percebi que eu, que sempre fui estudiosa e tirava notas boas, estava MUITO longe do nível da galera da capital que competia comigo. Sempre digo que esse primeiro ano foi para que eu, de fato, aprendesse a estudar e acordasse para realidade que eu iria enfrentar. Não foi um ano nada fácil para minha saúde mental, visto que tive que lidar com morar longe de casa, sozinha, estudar muito e ter resultados frustrantes. Isso, atrelado à competitividade enorme no ambiente de cursinho, fez com que eu desenvolvesse um quadro de ansiedade muito forte quando o assunto era ENEM. Como resultado do ENEM prestado após o 3º ano do EM, não tive só reprovação como fui pior do que o ano anterior. Entendi que fiquei muito nervosa na hora de responder as provas e me dei conta de que tinha que lidar com minha mente. Foi vivenciando este impasse que eu conheci o Determinante, um cursinho menor e que só de conhecer achei o ambiente mais acolhedor, mais família. 




Ação novembro azul com o professor de Urologia (foto: Arquivo Pessoal)
 
O meu segundo ano de cursinho em BH - primeiro no Determinante - foi muito bom para mim! Eu estava vindo de um ano muito sufocante e me senti acolhida por todos ali, foi o ano em que eu mais estudei e me dediquei! No final do ano passei em várias particulares, porém para universidades públicas minha nota ainda não foi o suficiente. No segundo ano de Determinante eu estudei ainda mais focada nas áreas em que tinha dificuldade. Montava meus horários com os professores que me acompanhavam de perto e passava o dia nas salas de estudos - até mesmo nos finais de semana! Sem dúvidas, ali havia virado minha casa! No final do ano meu resultado foi muito bom e consegui passar pelo o FIES em algumas instituições particulares. Porém, eu quis tentar mais um ano para conseguir uma vaga em IES pública! 
 
O último ano de cursinho foi o que eu mais trabalhei foi minha ansiedade! Frequentava todos CineDET, rodas de conversa com convidados, lia vários livros e assistia a vários filmes que os professores indicavam! Assim, aumentei muito meu repertório cultural para as redações e, ao mesmo tempo, saí um pouco das salas de estudos para relaxar! Seguia as dicas dos professores, refazia todas as provas do ENEM milhares de vezes e vivia nas monitorias! Todos ali já sabiam da minha história e torciam por mim: os funcionários, a galera da administração, os monitores, os professores, TODOS! Todos viraram minha família. No final do ano, então, consegui uma nota muito boa! Porém, a nota de corte subiu muuuito! Nunca vi sair de Minas Gerais como um problema para realizar meu sonho e eu sempre dizia que tendo UF na frente eu estava indo. E foi assim que aconteceu! Passei na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), no campus Pinheiro, estando aqui até hoje! Depois disso, passei em mais 3 federais, sendo uma delas a UFVJM, em Minas Gerais, porém optei por continuar aqui e vou contar um pouco daqui pra vocês!
 
O campus universitário em que eu estudo fica localizado na Baixada Maranhense, na
cidade de Pinheiro, e, para chegar até aqui, tenho que pegar um avião até São Luís (capital do Maranhão), depois pegar uma 1 hora e meia de ferry (que eu conhecia como balsa) e depois pegar estrada! Pinheiro é conhecido como a capital da baixada maranhense e é um local com bastante búfalos, inclusive na própria faculdade! Vir para o interior do Maranhão, para mim, foi e é uma experiência incrível e desafiadora! Sempre gostei de viajar e de experimentar coisas novas e, em Pinheiro, tenho contato e amizade com culturas de todo o Brasil, do sul ao norte! Isso é incrível! A desigualdade socioeconômica aqui é muito forte, sendo bem diferente de onde eu cresci e fui criada, e isso me fez criar um carinho enorme pelo local, uma sensação de que eu posso fazer muita diferença aqui. Por ser o único curso de medicina da região, há muitos benefícios, visto que desde o primeiro período temos contato com hospitais e não precisamos competir espaço com outras faculdades ou residentes, como acontece em capitais. Não é possível romantizar tanto, visto que ficar tão longe da família estudando em um curso difícil e com a carga horária puxada exige muita sanidade mental, além de ter várias questões como o clima quente e a culinária bem
diferente da mineira (oh saudade que eu sinto dos queijinhos). Porém, junto a isso, vem muito crescimento pessoal e a certeza que minha melhor escolha foi a medicina.
 
Por ser um campus novo e com pouquíssimas turmas formadas (minha turma é a nona de medicina), ainda há MUITOS desafios e conquistas para melhorar o campus e o curso. Assim, isso traz a oportunidade de ser muito ativo nas mais diversas áreas que a faculdade oferta. Já participei de iniciação científica sobre saúde da população LGBTQIA+, sou membro de 3 ligas acadêmicas - sendo vice presidente e presidente de duas delas -, já fui do centro acadêmico, já participei de manifestação estudantil, sou da atlética e já participei de vários eventos e festas, já publiquei artigo e capítulo  de livro, tenho projetos sobre pobreza menstrual - no qual vou até povoados e faço roda de costura de absorvente de panos - já fui em igrejas e escolas fazer roda de conversa sobre educação sexual e direitos sexuais reprodutivos, já participei de diversas cirurgias, já participei de partos, já fui em posto de saúde em ilhas isoladas que precisava demais de 5 horas de barco e com pessoas que não via médicos há mais de 7 anos. Enfim, tudo é um aprendizado muito grande! Voltar para Minas seria muito mais cômodo para mim. Porém, tenho certeza que não abriria minha mente como tem acontecido aqui!
 
Quando eu estava no cursinho, todos me diziam “tudo no seu tempo” e eu não entendia direito o significado disso. Hoje eu entendo que passar com mais tempo de cursinho foi DETERMINANTE para eu pudesse lidar com mais maturidade com a distância, ter certeza do meu sonho, aproveitar melhor a faculdade e vivenciar as oportunidades. Como eu já disse, o curso não é nada fácil e exige muita saúde mental, mas o contato com os pacientes e o retorno deles faz tudo ser compensado!
 
Artigo escrito pela futura Dra Juliana estudante de Medicina da UFMA