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Estado de Minas ARTIGO EDUCAÇÂO

Pandemia pandemônica na educação

Artigo explica os desafios da educação em tempos de quarentena sob a ótica do professor.


postado em 20/04/2020 15:25 / atualizado em 20/04/2020 16:51

Estou em casa, confinado, pois um vírus está por aí, à espreita e querendo me pegar. Querendo pegar todo mundo, ansioso para matar. Sou professor e sinto falta de meus alunos. Da sala de aula, do recreio explodindo juventude por todo o canto.
 
Há um silêncio triste, um silêncio de ausência. Silêncio da luta contra um inimigo que também é silencioso e invisível. As escolas estão vazias, os quadros ... brancos. Ah, o silêncio de  novo, coisa que nunca combinou com educação. Educação é barulho, é gente, aluno conversando na sala, rindo, mexendo com o outro, interagindo. O outro? Estamos todos sem o outro. Sem interlocutor. Pais sem filhos, maridos sem esposas, comércio sem comprador, porteiro sem bom dia.
(foto: Freepik)
(foto: Freepik)
 
Como enfrentar essa guerra silenciosa na educação? Como continuar, na resistência, a nossa tarefa de educar e preparar nossas alunas e alunos para as provas, os vestibulares e a vida?
 
É neste momento que a crise surge com as suas obviedades. Todos seremos prejudicados, de um modo ou de outro. Mas, todos também, teremos portas  e janelas abertas para enfrentar e vencer essa crise.

Educação nos tempos de coronavírus

Falo das escolas privadas e públicas. Falo do sistema educacional. Falo de professores e alunos. Não importa onde estão, na esfera pública ou privada. Falo de educação e de paradigmas.
 
Naturalmente,  as escolas não são iguais, os contextos não são iguais, a realidade econômica não é a mesma. Mas, e daí? Vamos discutir isso agora? Não!
 
Quais são as saídas para nossa resistência?  Quais? São muitas, mas exigem esforço, criatividade, vontade política, gestão de crise. Exigem, principalmente, compromisso com o que fazemos de mais sagrado: educar.
 
E, para educar, precisamos aprender. Piegas? Não, é coisa séria.

Impacto da pandemia na escola privada e pública

Logo após o impacto das decisões que nos levaram à quarentena, ficamos atônitos e sem um rumo. Todos ficamos, professores, alunos e gestores das escolas públicas e privadas.
 
Após o choque, iniciamos a gestão de crise. Como manter a escola funcionando? É nesse momento que a crise nos empurra para soluções. E as soluções estão diante de nós. Na tecnologia de informação. Nos smartphones, nos notebooks, nas redes sociais, nas ferramentas que são conhecidas por praticamente todos. É claro que não há universalização de acesso aos equipamentos e à internet. Mas, é claro que a maioria tem acesso e condições.
 
Cobro do estado (esferas municipal, estadual e federal)  uma atitude mais incisiva a fim de minimizar os danos sofridos pelos estudantes. É urgente disponibilizar  internet gratuita,  equipamento, treinamento   e gerenciamento do  processo para que as escolas públicas funcionem de modo remoto.
 
O que efetivamente está sendo feito? Pouco, muito pouco, próximo de nada. As escolas privadas, em sua maioria, foram ágeis, se reposicionaram, treinaram professores e alunos. Revisaram e adequaram seus métodos às exigências do confinamento. E estão funcionando. Silenciosamente, mas com agitação e dinamismo. Estão funcionando. É a melhor situação, não, mas é a possível neste pandemônio.

Infelizmente, observo muitas escolas públicas paradas (algumas em greve, pasmem!). Paradas! Alunos em casa, professores em casa, gestores em casa. Mas, ninguém fazendo "para casa".

Da sala de aula para a webcam

Só e confinado em casa, olho para a mesa e vejo um notebook. Dentro dele, estão meus alunos me esperando. Darei bom dia a todos, mostrarei pela webcam um pouco da minha casa, perguntarei se estão bem, se querem um pouco de chá. Perguntarei se já falaram para seus pais, amigos e amores que logo estarão juntos. E, depois dessas preliminares, iniciarei a aula. Eu aqui, eles lá. Todos nós confinados.
 
Todos nós estamos juntos numa sala de aula virtual. É a nossa forma de resistir. E eles  sabem que quando pergunto se querem chá, e mostro minha caneca fumegante, estou dizendo: estamos resistindo, pessoal. Vamos resistir. 
Minha escola, que é privada, resistiu. Enfrentou a crise e está  de pé, com dificuldades é claro, mas de pé. Outras muitas pelo Brasil estão assim também, de pé!
(foto: LFP)
(foto: LFP)

Nessa Pandemia pandemônica, percebi, mais uma vez, que a educação tem inimigos piores que um virus. E, o interessante, é que até poucos dias, eu não conhecia webcam.
 
Artigo de Newton Miranda, professor de História do Percurso Pré-Vestibular e Enem

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